Quem é
Cavouqueiro português que João Romão contrata para a pedreira e instala no cômodo 35, com a mulher, Piedade, e uma filha que estuda num colégio. Chega sério, poupado e respeitado, e é o caso em que o narrador acompanha por mais capítulos o meio agindo sobre um homem: o café, a comida, a música e Rita Baiana o desviam da poupança, até a emboscada contra Firmo, a vida com Rita, a bebida e o remorso de não pagar o colégio da filha.
Trajetória
Indicado por Machucas, pede setenta mil-réis a Romão, que paga cinquenta; na pedreira aponta o ataque errado à rocha, e Romão cede porque a conta fecha, já que o salário volta pela venda (capítulo IV). O narrador vê a pedreira como combate de homens contra um gigante, e ele a vê como serviço mal dirigido.
pareciam um punhado de demônios revoltados na sua impotência contra o impassível gigante que os contemplava com desprezo
Chega com Piedade ao cômodo 35, e o capítulo conta de onde vem: colono de uma fazenda, dois anos de trabalho sem resultado, depois a pedreira, a poupança e o colégio da filha (capítulo V).
mourejou durante dois anos, sem nunca levantar a cabeça, e de onde afinal se retirou de mãos vazias e uma grande birra pela lavoura brasileira
Em dois meses o patrão passa a respeitá-lo, e os caixeiros da venda o querem como patrão (capítulo V).
Aquele é que devia ser o patrão, diziam. É um homem sério e destemido! Com aquele ninguém brinca!
À noite toca fados na guitarra com a mulher à porta (capítulo V), e no pagode de domingo o fado perde para o chorado de Firmo e Porfiro, enquanto Rita dança no meio da roda; ele esquece Piedade e as horas, e de madrugada, sozinho no pátio, decide não dormir (capítulo VII).
Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui
No dia seguinte fica doente, Rita o trata com café forte e parati, e o toque da pele dela desperta o desejo (capítulo VIII). Nas semanas seguintes passa a tomar o café e o parati de Rita todas as manhãs, troca o bacalhau pelo feijão-preto, deixa a cama da mulher por uma rede e perde a energia dos primeiros dias (capítulo IX).
pouco a pouco, se foram reformando todos os seus hábitos singelos de aldeão português: e Jerônimo abrasileirou-se
Numa noite de samba sussurra uma proposta a Rita, Firmo o desafia, vence a primeira parte da luta com os pés e a cabeça, e perde para o varapau até tirar a navalha e feri-lo na barriga (capítulo X). O narrador mede os dois antes do golpe.
Jerônimo era alto, espadaúdo, construção de touro, pescoço de Hércules, punho de quebrar um coco com um murro: era a força tranquila, o pulso de chumbo. O outro, franzino, um palmo mais baixo que o português, pernas e braços secos, agilidade de maracajá: era a força nervosa; era o arrebatamento que tudo desbarata no sobressalto do primeiro instante. Um, sólido e resistente; o outro, ligeiro e destemido, mas ambos corajosos.
Na estalagem, diz ao médico que estavam brincando, aceita o carinho de Rita como compensação da ferida e vai para o hospital da Ordem de Santo Antônio, de que é irmão (capítulo XI). Volta magro, pede o café feito por ela em vez do de Piedade, queixa-se da mulher e separa oitenta mil-réis para o ajuste com Zé Carlos e Pataca (capítulo XIV).
Não digo mal, mas confesso que não encontro nela umas tantas coisas que desejava...
Na praia, é um dos três homens que espancam Firmo até a morte; paga quatro notas de vinte mil-réis aos companheiros, fica com a navalha e bate à porta de Rita para dizer que matou o rival e propor que partam juntos, deixando à mulher as economias e o colégio da filha (capítulo XV). O narrador explica a virada pelo meio e Jerônimo oferece o crime como prova de amor.
cedendo às imposições mesológicas, enfarava a esposa, sua congênere, e queria a mulata
estou disposto a tudo para ficar contigo
Volta à pedreira, desta vez a de São Diogo, e vive com Rita na Cidade Nova, onde gasta o ordenado na casa; promete a Piedade pagar o colégio e não paga, porque está alcançado no ordenado, deve ao padeiro e teme contrariar a amante (capítulo XIX). Na segunda visita dela, bêbado, manda-a embora e diz que a filha ficará com ele (capítulo XIX).
só a ideia de separar-se da amante punha-lhe logo o sangue doido e apagava-se-lhe de novo a luz dos raciocínios
Jerônimo apareceu afinal, com um ar triste de vicioso envergonhado que não tem ânimo de deixar o vício.
Temas que encarna
Os temas-padrão que passam por ele são Natureza e civilização, Trabalho e vocação e Sexualidade. O símbolo que o acompanha em cena é o fado e o chorado, a guitarra com que toca fados ao fim do dia (capítulo V) e a música que a substitui no pagode (capítulo VII); o outro é a pedreira, onde ganha o respeito de Romão (capítulo IV).
O texto nunca decide se Jerônimo cede ao meio ou escolhe. O narrador explica a mudança por causas externas, o calor, a comida e a música (capítulo IX, capítulo XV), mas as cenas mostram decisões dele: paga os ajudantes, guarda a navalha, adia o colégio (capítulo XV, capítulo XIX). Ele sabe que erra e a bebida cala a voz que o repreende (capítulo XIX).
Jerônimo é a figura simétrica de João Romão: os dois são portugueses que chegam para fazer pecúlio, mas o vendeiro acumula e o cavouqueiro termina devendo ao padeiro e ao homem da venda. O que o livro lhe tira em dinheiro, a poupança e a posição, ele tira em família, e quem paga primeiro é Piedade.
Relações
- Piedade: a esposa que ele deixa e a quem promete o dinheiro do colégio, e que o espera na noite da emboscada.
- Rita Baiana: a mulher em quem ele concentra as impressões da terra, e com quem vive depois da morte de Firmo.
- Firmo: o rival que o fere na navalhada e que ele ajuda a matar na praia.
- João Romão: o patrão que lucra com a seriedade dele e passa a respeitá-lo.