O que é
A casa do negociante português Miranda, colada à estalagem de João Romão e separada dela por um muro (capítulo I). É a casa de família de nome, com janelas abertas sobre o pátio, de onde se vê, se ouve e se manda. No livro O Cortiço faz o contraponto de classe do cortiço: lá em cima, o dote, o título e o champanha; cá embaixo, o samba e as tinas. Com o tempo o sobrado recua diante do prédio do vizinho e acaba lhe entregando a filha (capítulo XX e capítulo XXI).
Onde aparece
No capítulo I Miranda compra o sobrado e se muda com Dona Estela e Zulmira para tirar a mulher do alcance dos caixeiros. Quer um pedaço do terreno de Romão para o quintal, e este recusa.
No capítulo II, dois anos depois, o cortiço é o que Miranda vê crescer debaixo das suas janelas, e o rumor do pátio o alcança até dentro de casa.
aterrado defronte daquela floresta implacável que lhe crescia junto da casa, por debaixo das janelas
Foi da supuração fétida destas ideias que se formou no coração vazio do Miranda um novo ideal - o título
No capítulo III Estela e Zulmira limam as unhas à janela, alheias ao barulho que sobe do pátio.
No capítulo VII Miranda aparece à janela contra o pagode e ameaça chamar a polícia, e é puxado para dentro por Estela, Zulmira, Henrique e Botelho.
O Miranda apareceu furioso à janela, com o seu tipo de comendador, a barriga empinada para a frente, de paletó branco, um guardanapo ao pescoço e um trinchante empunhado na destra, como uma espada
No capítulo X a casa entra em preparos de festa, com criados e fornecedores, e o cortiço assiste das janelas do sobrado ao título do dono virar acontecimento.
No capítulo XIII Botelho vende a Romão a ponte até a casa, por vinte contos, e Romão janta lá: cobre-se de suor, escorrega e faz rir Zulmira.
Botelho queria vinte contos de réis, e com papel passado a prazo de casamento; o outro oferecia dez.
No capítulo XIV é Romão quem aparece à janela do sobrado, de casimira clara, conversando com Zulmira e olhando para baixo.
lançava para baixo olhares de desprezo sobre aquela gentalha sensual, que o enriquecera, e que continuava a mourejar estupidamente, de sol a sol, sem outro ideal senão comer, dormir e procriar
No capítulo XVI a família de Miranda olha da janela a briga de Piedade e Rita, indiferente. No capítulo XVII Botelho, na janela do Barão, aplaude a batalha das duas maltas, e da casa saem os guinchos de Zulmira, em ataque.
No capítulo XVIII Miranda vem de manhã ao cortiço queimado, compungido e superior, felicita Romão pelo seguro e sai com admiração sem reservas pelo plano de reedificar. No capítulo XIX as obras começam pelo lado do sobrado, e Romão passa a jantar lá aos domingos e a mimar Zulmira e a família.
No capítulo XX o cortiço reconstruído empurra o sobrado para trás aos olhos de quem o vê.
O prédio do Miranda parecia ter recuado alguns passos, perseguido pelo batalhão das casinhas da esquerda
No capítulo XXI Miranda confirma que Zulmira aceita Romão e que Estela vai marcar o dia, e Estela torce o nariz ao boato da crioula. No capítulo XXIII Romão espera numa confeitaria da Rua do Ouvidor a família de Miranda, que chega com Zulmira e Estela e o recebe entre cortesias.
O que significa
O sobrado funciona como posto de observação nos dois sentidos. De cima, Miranda, a família e Botelho olham o cortiço como ameaça ou como espetáculo (capítulo II, capítulo VII, capítulo XVI, capítulo XVII); de baixo, o cortiço assiste aos preparos da festa do barão (capítulo X). A distância entre as duas casas encurta até se inverter: Romão entra no sobrado como convidado (capítulo XIII), passa a olhar de cima da janela do vizinho (capítulo XIV) e acaba com o prédio mais alto (capítulo XX). O texto deixa em aberto se o sobrado perde por fraqueza do dono ou porque a casa de nome vale menos do que o cortiço que cresce ao lado.
Relações
- Obra: O Cortiço, de Aluísio Azevedo.
- Temas-padrão: Classe social, Ambição.
- Personagens: Miranda, Dona Estela, Zulmira, Botelho, João Romão.
- Símbolos vizinhos: a estalagem São Romão, que fica do outro lado do muro, e o título de barão, que o dono do sobrado persegue.