Clavis Libri

Personagem

Botelho

Quem é

Velho parasita da casa de Miranda, antigo empregado do comércio e corretor de escravos que perdeu a fortuna e agora vegeta à sombra do sobrado, cheio de rancor contra quem tem o que ele não teve. Ouve as queixas de cada um dos donos da casa contra o outro e concorda com ambos; adora tudo o que cheira a farda, embora tenha medo de arma. Funciona como intermediário de João Romão junto ao sobrado, a quem vende a ponte até a filha de Miranda, e é dele a pergunta que dá ao vendeiro a ideia de devolver Bertoleza ao dono.

Trajetória

Hóspede e parasita do negociante, em quem se apoia por necessidade, desabafa o rancor vituperando as ideias da época e perde a compostura quando a mesa fala do movimento abolicionista (capítulo II).

A virtude, a beleza, o talento, a mocidade, a força, a saúde, e principalmente a fortuna, eis o que ele não perdoava a ninguém
Capítulos I a II: O cortiço de João Romão e a casa de Miranda

Lei do Ventre Livre, de 28 de setembro de 1871, que declarou livres os filhos de escravas nascidos dali em diante:

o movimento abolicionista que principiava a formar-se em torno da lei Rio Branco
Capítulos I a II: O cortiço de João Romão e a casa de Miranda

Flagra Dona Estela com Henrique num canto do quintal e, em vez de denunciar, lhes diz que nada viu, que acha tudo natural e que dali em diante protegerá os negócios do rapaz com a senhora (capítulo II).

Se vi, creia, foi como se nada visse, porque nada tenho a cheirar com a vida de cada um!...
Capítulos I a II: O cortiço de João Romão e a casa de Miranda

No domingo do pagode aparece de relance na janela, indiferente, com o desprezo dos que já não esperam nada (capítulo VII); na festa do título ajuda nos arranjos (capítulo X).

E via-se de relance Dona Estela, com a sua palidez de flor meia fanada, e Zulmira, lívida, um ar de fastio a fazê-la feia, e o Henriquinho, cada vez mais bonito, e o velho Botelho, indiferente, a olhar para toda esta porcaria do mundo com o profundo desprezo dos que já não esperam nada dos outros, nem de si próprios.
Capítulos VI a VII: O domingo de Rita Baiana e o pagode

Aproxima-se de João Romão e lhe propõe fazer a ponte até Zulmira, de que cobra vinte contos de réis, com papel passado a prazo de casamento; o vendeiro oferece dez e depois quinze e fecha em vinte (capítulo XIII).

Botelho queria vinte contos de réis, e com papel passado a prazo de casamento; o outro oferecia dez.
Capítulos XII a XIV: Casamento, cortiço rival e plano de vingança

Da janela do Barão, durante a batalha das duas maltas, solta gritos de aplauso e dá brados de comando militar (capítulo XVII). Quando as obras avançam, avisa João Romão de que já falou ao Barão em nome dele e o aconselha a se lançar (capítulo XIX).

Atire-se, seu João, atire-se enquanto o angu está quente!
Capítulos XVIII a XX: Libório, as obras e a queda de Piedade

Aparece em casa de João Romão com a notícia de que Dona Estela torce o nariz à crioula, aconselha uma quitanda em outro bairro e, na rua, pergunta se Bertoleza era escrava quando João Romão tomou conta dela (capítulo XXI).

Lá em casa rosnou!... O Miranda defende-o, afirma que não... Ah! Aquilo é uma grande alma! Mas Dona Estela, você sabe o que são as mulheres!... Torce o nariz e... Em uma palavra: receio que esta história nos traga qualquer embaraço!...
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão
Botelho perguntou se Bertoleza era escrava quando João Romão tomou conta dela.
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão
Ora! Então a coisa é simples!... Mande-a p’ro dono!
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão

Fica incumbido do serviço por duzentos mil-réis (capítulo XXI). Na confeitaria avisa que o dono vem com a polícia, insiste em que o vendeiro esteja em casa para a cena e sugere um saldo de quinhentos mil-réis a Bertoleza, "para fazer a coisa à fidalga", e procura o olhar de João Romão quando passa a vitória com Pombinha e Henrique (capítulo XXIII).

Temas que encarna

Os temas-padrão que passam por ele são Inveja, Lealdade e traição e Escravidão. Em cena, o passado de corretor de escravos o liga ao tema, e a ponte que vende, o conselho que dá e a pergunta que faz o tornam o mediador entre o sobrado e a estalagem.

O livro dá a Botelho um rancor sem destino e depois lhe oferece destinos: o ódio à época nas sobremesas de Miranda, o segredo de Estela, a ponte até Zulmira, a pergunta sobre Bertoleza. Em duas delas ele oferece o que sabe como favor, o silêncio e a ponte; nas outras pergunta ou aconselha, e o passo final é sempre de quem ele serve.

Botelho vive de ser ouvido por quem o sustenta, e por isso, nas cenas, costuma concordar: com Miranda contra Estela, com Estela contra Miranda, com João Romão contra Bertoleza. Cabe ler isso como a prudência de um parasita ou como o gosto de quem sabe o que os outros escondem, e o livro não decide entre as duas.

Relações

  • Miranda: o dono da casa que o sustenta e a quem escuta as queixas contra a mulher.
  • Dona Estela: a senhora cujo segredo ele guarda, e que ele protege com Henrique.
  • Henrique: o rapaz a quem ele promete proteção e que se afasta do seu afago.
  • João Romão: o vendeiro a quem ele vende a ponte até o sobrado e a quem inspira a devolução de Bertoleza.
  • Bertoleza: a mulher cuja condição de escrava ele descobre com a pergunta de caminho.