Clavis Libri

Personagem

Justiniano

Quem é

Justiniano é a alma que se esconde dentro do próprio raio no céu de Mercúrio e fala o canto VI inteiro sem interrupção de Dante, de Beatriz ou de qualquer outra alma. Apresenta-se com dois tempos de verbo: foi César, é Justiniano. O título ficou no passado, e o que o define agora é o primeiro amor que sente e o ofício que esse amor lhe fez cumprir, tirar das leis o supérfluo e o vão. O poema dedica à obra do imperador uma linha, e o que ocupa o resto do canto é a águia: ele conta a história do sinal de Roma, de Enéias a Carlos Magno, para julgar quem se apropria dele e quem se opõe a ele. Quer, antes de tudo, que o peregrino veja com quanta razão se move contra o sinal tanto quem o toma para um partido quanto quem o combate. Confessa que errou em matéria de fé (acreditava numa só natureza em Cristo) e foi corrigido pelo papa Agapito, e só depois dessa conversão Deus lhe inspirou o alto trabalho. A tradição o lê como o imperador de Bizâncio e autor do código romano; o poema o identifica pelo nome, e o resto vem dos comentadores.

Trajetória

O canto VI do Paraíso começa pelo sinal, e só depois vem o nome:

Cesare fui e son Iustinïano, / che, per voler del primo amor ch’i’ sento, / d’entro le leggi trassi il troppo e ’l vano. Foi César e é Justiniano, o imperador que, por vontade do primeiro amor que sente, tirou das leis o supérfluo e o vão, referência à compilação do Corpus Iuris Civilis. A partir daí ele narra a história inteira da águia romana, de Eneias a Carlos Magno, para sustentar a tese política da cântica: a autoridade imperial tem origem divina, tanto quanto a eclesiástica. É o terceiro termo de uma leitura horizontal: cidade no Inferno, país no Purgatório, império no Paraíso, sempre no canto VI.
Paraíso

Antes da obra, a fé: Justiniano conta a heresia e a correção, e dá a ordem das coisas que o canto vai seguir.

E prima ch’io a l’ovra fossi attento, / una natura in Cristo esser, non piùe, / credea, e di tal fede era contento; / ma ’l benedetto Agapito, che fue / sommo pastore, a la fede sincera / mi dirizzò con le parole sue, e antes que eu me ocupasse da obra, eu cria que em Cristo havia uma só natureza, e não mais, e dessa fé eu estava contente; mas o bendito Agapito, que foi sumo pastor, me dirigiu à fé sincera com as suas palavras.
Cantos V a VIII: Mercúrio e Vênus

Entrega as armas a Belisário, a quem a destra do céu se juntou, e passa à razão de falar do sinal: a lista de feitos que vem em seguida não é crônica, é argumento.

perché tu veggi con quanta ragione / si move contr’ al sacrosanto segno / e chi ’l s’appropria e chi a lui s’oppone, para que vejas com quanta razão se move contra o sacrossanto sinal tanto quem dele se apropria quanto quem a ele se opõe.
Cantos V a VIII: Mercúrio e Vênus

O percurso da águia vai da morte de Palante a Carlos Magno, passando por César, pelo portador seguinte (Augusto, na leitura corrente), pelo terceiro César (Tibério, na leitura corrente) e por Tito. O que o poema tira daí é o juízo sobre a política do próprio tempo, e a acusação cai sobre os dois lados com a mesma simetria:

L’uno al pubblico segno i gigli gialli / oppone, e l’altro appropria quello a parte, / sì ch’è forte a veder chi più si falli, um opõe ao sinal público os lírios amarelos, e o outro o apropria para um partido, de modo que é difícil ver quem mais erra.
Cantos V a VIII: Mercúrio e Vênus

Depois explica o céu em que está: Mercúrio é a morada dos que agiram para que honra e fama os seguissem, e quando os desejos sobem por esse caminho os raios do verdadeiro amor sobem menos vivos. A diferença de degrau é harmonia:

Diverse voci fanno dolci note; / così diversi scanni in nostra vita / rendon dolce armonia tra queste rote, vozes diversas fazem doces notas; assim os diversos assentos em nossa vida fazem doce harmonia entre estas rodas.
Cantos V a VIII: Mercúrio e Vênus

O canto fecha com Romeu, um peregrino mal pago que fez rainhas as quatro filhas de Ramondo Beringhiere e partiu pobre:

indi partissi povero e vetusto; / e se ’l mondo sapesse il cor ch’elli ebbe / mendicando sua vita a frusto a frusto, / assai lo loda, e più lo loderebbe, depois se foi pobre e velho; e se o mundo soubesse o coração que ele teve, mendigando a vida a bocado a bocado, muito o louva, e mais o louvaria.
Cantos V a VIII: Mercúrio e Vênus

No canto VII ele canta um hino em latim e se afasta dançando com as outras luzes, e Beatriz fala em seu lugar.

Temas que encarna

Justiniano encarna a Justiça e lei como história: o direito que ele organizou é pouco no canto, e a águia, que ele conta de ponta a ponta, é o que o poema pesa. O que o canto prova é que a autoridade do império tem origem divina e que quem a toma para um partido a rebaixa. A fé que o corrigiu antes da obra faz do imperador um exemplo de conversão, e o céu de Mercúrio mostra o preço: a honra que ele buscou na terra é a que o põe ali.

O texto sustenta duas leituras do ofício. Na primeira, Justiniano é o legislador que o céu premia e o canto, uma defesa do império contra a Igreja política do tempo de Dante. Na segunda, é o imperador que o poema usa para dizer que a política dos guelfos e gibelinos, na terra, traiu o sinal que um e outro dizem defender. Ele acusa os dois com a mesma força e fecha com um mendigo justo, não com um triunfo.

Relações

  • A águia de Justiça: o sinal que ele conta e defende.
  • Beatriz: quem o escuta com Dante e fala em seguida, no canto VII.
  • Dante: o ouvinte que lhe pergunta quem é.
  • Carlos Martel: o príncipe do céu seguinte, que também fala de governo e linhagem.