O tema na obra
A fé no Paraíso não é um estado, é um objeto examinado. O poema a define, a submete a objeção e réplica e a mede por uma moeda. Isso acontece em Saturno e nas estrelas fixas, mas a fé aparece antes, sob outra forma, na fidelidade ao voto. No canto V, Beatriz avisa que os mortais não tomem o voto como brincadeira e sejam fiéis sem torcer o querer:
Non prendan li mortali il voto a ciancia; / siate fedeli, e a ciò far non bieci, / come Ieptè a la sua prima mancia, que os mortais não tomem o voto como brincadeira; sede fiéis, e não tortos ao fazê-lo, como Jefté na sua primeira oferta.
No canto XIX, a Águia vira a pergunta contra os cristãos de nome, porque gritar Cristo não aproxima dele, e quem não o conhece pode estar mais perto no juízo:
Ma vedi: molti gridan “Cristo, Cristo!”, / che saranno in giudicio assai men prope / a lui, che tal che non conosce Cristo, mas vê: muitos gritam Cristo, Cristo, e estarão em juízo bem menos perto dele do que alguém que não conhece Cristo.
No XX, a fé de Rifeu e de Trajano resolve o caso dos que a regra deixaria de fora, e a esperança viva vence a divina vontade porque ela quer ser vencida.
Regnum celorum vïolenza pate / da caldo amore e da viva speranza, / che vince la divina volontate: / non a guisa che l’omo a l’om sobranza, / ma vince lei perché vuole esser vinta, / e, vinta, vince con sua beninanza., o reino dos céus sofre violência de amor ardente e de esperança viva, que vence a divina vontade: não como o homem vence o homem, mas vence-a porque ela quer ser vencida, e, vencida, vence com a sua benignidade.
Depois vem o exame propriamente dito. No XXIV, São Pedro pergunta a Dante o que é a fé, e a resposta vem da Epístola aos Hebreus:
fede è sustanza di cose sperate / e argomento de le non parventi; / e questa pare a me sua quiditateA fé é substância das coisas esperadas e prova das que não aparecem, e essa lhe parece ser a sua essência. São Pedro aprova a resposta e ainda pergunta por que Paulo colocou a fé entre as substâncias e depois entre os argumentos, o que Dante também sabe responder.
Pedro aprova e passa ao ensaio da moeda, em que a liga e o peso já passaram e falta saber se Dante a tem na bolsa:
indi soggiunse: «Assai bene è trascorsa / d’esta moneta già la lega e ’l peso; / ma dimmi se tu l’hai ne la tua borsa». / Ond’ io: «Sì ho, sì lucida e sì tonda, / che nel suo conio nulla mi s’inforsa»., depois acrescentou: muito bem foi percorrida já a liga e o peso desta moeda; mas diz-me se a tens na tua bolsa. Ao que eu: sim, tenho, tão luzidia e tão redonda que no seu cunho nada me fica em dúvida.
Dante explica de onde veio, e a resposta junta a chuva do Espírito e o silogismo:
onde ti venne?». E io: «La larga ploia / de lo Spirito Santo, ch’è diffusa / in su le vecchie e ’n su le nuove cuoia, / è silogismo che la m’ha conchiusa / acutamente sì, che ’nverso d’ella / ogne dimostrazion mi pare ottusa»., onde te veio? E eu: a larga chuva do Espírito Santo, que se derrama sobre os pergaminhos velhos e sobre os novos, é o silogismo que a concluiu em mim tão agudamente que, perante ela, toda demonstração me parece obtusa.
O exame fecha com a profissão, que Dante recita como quem sabe de cor e entende:
E io rispondo: Io credo in uno Dio / solo ed etterno, che tutto ’l ciel move, / non moto, con amore e con disio, e eu respondo: creio em um Deus só e eterno, que move todo o céu, sem ser movido, com amor e com desejo.
No XXV a esperança, e no XXVI a caridade completam a tríade, e cada virtude vem de um apóstolo diferente: Pedro examina a fé, Tiago a esperança, João a caridade. A ordem do exame é a ordem em que a virtude vira ato, e em cada etapa o peregrino responde com uma definição e com a história de como a recebeu. A fé é a substância do que se espera, a esperança é um esperar certo da glória futura, a caridade é o amor que o tirou do mar do amor torto. O poema ainda tem de explicar o que a fé é para quem não vê: não uma falta de vista, mas o modo de ter o que não aparece. E o poeta que escreve depois de dizer que a pena salta cumpre a fé de que fala: escreve o que não se vê, dizendo que não pode.
Quem o encarna
Dante é o examinado que define, prova e recita. São Pedro é o examinador que aprova e depois manda abrir a boca. Piccarda Donati e Constança são a fidelidade ao voto, sob violência. São Bernardo é a fé que se transforma em oração.
Onde aparece
- Canto V: Beatriz ensina que o pacto do voto só se cancela cumprido e que a matéria pode ser trocada apenas se contiver a antiga como o seis contém o quatro.
- Canto XIV: Dante vê a cruz de Marte lampejar Cristo e ouve um hino que só entende nas palavras ressurgir e vencer.
- Canto XIX: A Águia nega que alguém suba ao reino sem crer em Cristo e acusa os cristãos que só gritam o nome.
- Canto XX: A Águia mostra Rifeu e Trajano no olho e na sobrancelha, salvos por esperança viva e por um batismo anterior ao sacramento.
- Canto XXIV: Pedro examina Dante sobre a fé, aprova a definição, ensaia a moeda e ouve o credo.
- Canto XXV: Dante define a esperança como um esperar certo da glória futura diante de Tiago e vê chegar João.
- Canto XXVI: Dante prova a caridade a João com o conhecimento vivo que o tirou do mar do amor torto.
- Canto XXXII: Bernardo explica como a fé em Cristo por vir e em Cristo vindo divide os assentos da rosa.
Onde as leituras divergem
O texto sustenta duas leituras da fé de Dante no XXIV. Na primeira, é virtude de quem sabe: o peregrino cita a fonte de memória, discute a formulação com o examinador e responde a todas as objeções. Na segunda, é prova de que a fé e a razão não se opõem, porque Dante dá à razão um lugar dentro da fé, e declara que perante a conclusão qualquer outra demonstração parece obtusa. A objeção de Pedro, a da circularidade, tem uma resposta que o poema deixa em aberto: o maior milagre seria a conversão do mundo sem milagres, e isso supõe o que se queria provar.