O tema na obra
Na terceira cântica a justiça já não pune, explica. O Inferno mostrava o contrapasso e o Purgatório, a pena que purga. O Paraíso pergunta como a justiça de Deus pesa o que os homens fazem, e responde com um método de contar, de comparar e de limitar o que se diz. O primeiro caso é a vontade de quem foi arrancado do claustro. No canto IV, Beatriz classifica a dúvida de Dante antes de responder: perguntar por que a justiça divina parece injusta é matéria de fé, não de heresia.
Parere ingiusta la nostra giustizia / ne li occhi d’i mortali, è argomento / di fede e non d’eretica nequizia, que a nossa justiça pareça injusta aos olhos dos mortais é argumento de fé, e não de heresia malvada.
No VI, a justiça é história. Justiniano conta a águia de Roma para dar o critério: o sinal merece reverência, e o que se julga é o uso que dele fazem os dois lados.
perché tu veggi con quanta ragione / si move contr’ al sacrosanto segno / e chi ’l s’appropria e chi a lui s’oppone, para que vejas com quanta razão se move contra o sacrossanto sinal tanto quem dele se apropria quanto quem a ele se opõe.
No VII, é teologia: Beatriz mede a pena da cruz de dois modos, pela natureza assumida e pela pessoa que sofreu, e conclui que Deus foi mais largo em dar-se a si mesmo do que se tivesse perdoado sozinho.
La pena dunque che la croce porse / s’a la natura assunta si misura, / nulla già mai sì giustamente morse, a pena, portanto, que a cruz deu, se medida pela natureza assumida, nunca mordeu tão justamente.
ché più largo fu Dio a dar sé stesso / per far l’uom sufficiente a rilevarsi, / che s’elli avesse sol da sé dimesso; / e tutti li altri modi erano scarsi / a la giustizia, se ’l Figliuol di Dio / non fosse umilïato ad incarnarsi, pois Deus foi mais largo em dar-se a si mesmo, para fazer o homem suficiente para se levantar, do que se tivesse apenas perdoado por si; e todos os outros modos eram escassos para a justiça, se o Filho de Deus não se tivesse humilhado a encarnar.
Em Júpiter, a justiça tem céu próprio. As almas desenham uma ordem aos que julgam a terra e se juntam numa águia que fala em primeira pessoa do singular, e a questão que a Águia enfrenta é o homem do Indo: nasce à margem do rio, não ouve falar de Cristo, tem desejos e atos bons, morre sem batismo, e onde está a culpa. A resposta não nega a dúvida, recusa o lugar de quem a formula, e muda a falta de lugar: não está no julgamento, está na vista curta.
Però ne la giustizia sempiterna / la vista che riceve il vostro mondo, / com’ occhio per lo mare, entro s’interna; / che, ben che da la proda veggia il fondo, / in pelago nol vede; e nondimeno / èli, ma cela lui l’esser profondo., por isso, na justiça sempiterna a vista que o vosso mundo recebe se interna como o olho no mar; que, embora da margem veja o fundo, no alto-mar não o vê; e no entanto ele existe, mas a profundidade o esconde.
No XX, a Águia mostra dois casos que o mundo não esperaria no céu, Trajano e Rifeu, e fecha com o freio ao juízo humano: os que veem Deus ainda não conhecem todos os eleitos.
E voi, mortali, tenetevi stretti / a giudicar: ché noi, che Dio vedemo, / non conosciamo ancor tutti li eletti; / ed ènne dolce così fatto scemo, / perché il ben nostro in questo ben s’affina, / che quel che vole Iddio, e noi volemo»., e vós, mortais, sede cautos em julgar: pois nós, que vemos a Deus, ainda não conhecemos todos os eleitos; e nos é doce esta falta, porque o nosso bem se refina neste bem, de que o que Deus quer, nós queremos.
A justiça do Paraíso tem então duas faces. De um lado, é rigor: a vontade firme é rara, as ofensas não se escusam, a pena da cruz foi justíssima. Do outro, é limite do juízo: a vista de um palmo não mede mil milhas, e o poema que condena nomes ao longo de três cânticas aceita, aqui, que a última palavra sobre quem se salva não é de quem fala.
Quem o encarna
Justiniano é a justiça como história do império. Beatriz é a justiça como argumento. A águia de Justiça é a justiça que fala por muitos e recusa o lugar do juiz. Carlos Martel é a justiça como providência que corrige a linhagem. Cacciaguida é a justiça política da Florença que desfaz as casas.
Onde aparece
- Canto IV: Beatriz distingue a vontade absoluta, que não consente no dano, da que consente por medo de mal maior.
- Canto VI: Justiniano conta a história da águia de Roma para julgar quem a toma para um partido e quem a combate.
- Canto VII: Beatriz explica que a pena da cruz foi justíssima pela natureza assumida e injusta pela pessoa que a sofreu.
- Canto XIII: Tomás avisa que o julgador não vê dentro do conselho divino quem rouba ou quem oferece.
- Canto XVIII: As almas de Júpiter desenham uma frase que ordena aos que julgam a terra amar a justiça.
- Canto XIX: A Águia responde à dúvida do homem do Indo com a pergunta sobre quem se senta para julgar de mil milhas.
- Canto XX: A Águia mostra Trajano e Rifeu e avisa que os mortais devem ser cautos em julgar porque nem os eleitos são todos conhecidos.
- Canto XXII: Beatriz diz que a espada do céu não corta com pressa nem tarde, a não ser no parecer de quem a espera.
Onde as leituras divergem
A resposta da Águia pode soar pouco satisfatória, porque recusa o lugar de quem pergunta em vez de explicar o caso.
O texto sustenta duas leituras da resposta. A primeira vê nela um limite de método: a pergunta é legítima, a resposta é de quem recusa o lugar do juiz, e o poema se contém. A segunda vê uma esquiva, porque quem pergunta fica sem saber o que acontece ao homem do Indo, e o caso de Rifeu e de Trajano só mostra como outros se salvaram. O poema dá as duas e deixa o leitor entre elas, a pergunta aberta.