O tema na obra
O Paraíso fala de Deus de um modo que as outras duas cânticas não precisavam: pela luz, e pela impossibilidade de dizê-la. O primeiro verso da cântica põe a tese, a glória de quem move tudo penetra o universo e resplandece mais numa parte, menos noutra, e a desigualdade da luz está em quem a recebe, não em quem a dá.
A abertura do poema já enuncia a tese (canto I).La gloria di colui che tutto move / per l’universo penetra, e risplende / in una parte più e meno altrove.A glória do que move tudo penetra o universo e resplandece mais numa parte, menos noutra, e é essa desigualdade de luz, não uma ausência dela, que a subida pelos nove céus vai medir e explicar canto a canto.
Essa tese se desdobra nos nove céus. No canto X, a Trindade abre o canto: o Valor primeiro e inefável, olhando o Filho com o Amor que os dois sopram para sempre, fez tudo o que se move na mente e no espaço com tanta ordem que não se pode vê-lo sem provar dele. No XIII, a roda dos sábios canta, e o que canta é dito pela negativa, não Baco nem Peã, mas três pessoas em natureza divina, e numa pessoa a divina e a humana.
Lì si cantò non Bacco, non Peana, / ma tre persone in divina natura, / e in una persona essa e l’umana, ali se cantou não Baco, não Peã, mas três pessoas em natureza divina, e numa pessoa a divina e a humana.
No XXIV, o credo de Dante afirma um Deus só e eterno, que move todo o céu sem ser movido, com amor e com desejo.
E io rispondo: Io credo in uno Dio / solo ed etterno, che tutto ’l ciel move, / non moto, con amore e con disio, e eu respondo: creio em um Deus só e eterno, que move todo o céu, sem ser movido, com amor e com desejo.
No XXVIII, Deus aparece como um ponto de luz, sem tamanho e sem forma, e Beatriz resume a relação do cosmos com ele numa frase: dele depende o céu e toda a natureza.
un punto vidi che raggiava lume / acuto sì, che ’l viso ch’elli affoca / chiuder conviensi per lo forte acume, vi um ponto que irradiava luz tão aguda que a vista que ele inflama tem de se fechar pela forte acuidade.
No XXIX, Beatriz diz por que Deus criou: não para ter acréscimo de bem, mas para que o seu resplendor pudesse dizer subsisto. Os anjos são espelhos em que o eterno valor se parte, permanecendo uno em si como antes.
Vedi l’eccelso omai e la larghezza / de l’etterno valor, poscia che tanti / speculi fatti s’ha in che si spezza, / uno manendo in sé come davanti», vê o excelso agora e a largueza do eterno valor, pois tantos espelhos fez para si em que se parte, permanecendo uno em si como antes.
No XXX, o Empíreo é luz pura, intelectual, cheia de amor. No XXXIII, o poeta entra na luz e vê o universo reunido num volume por amor, e depois três círculos de uma só medida. O que ele pode dizer está sempre menos do que viu, e a figura final não é uma doutrina, é um movimento. Entre o primeiro verso e o último o poema muda a pergunta: deixa de perguntar o que Deus é e passa a perguntar o que se pode ver quando se vê. O leitor acompanha o peregrino da tese à visão sem ter, em nenhum ponto, uma definição fechada.
Quem o encarna
Beatriz é a mestra que explica a ordem do universo semelhante a Deus. São Pedro é o examinador do Deus que se crê. São Bernardo e Virgem Maria são a mediação por onde se chega à luz. Tomás de Aquino e Boaventura são os doutores que o dizem em duas vozes.
Onde aparece
- Canto I: O poeta abre a cântica com a glória que move tudo e declara que a memória não acompanha o intelecto quando ele se aproxima do desejo.
- Canto X: Dante descreve a Trindade, o Valor primeiro que, olhando o Filho com o Amor, fez tudo com ordem.
- Canto XIII: Tomás explica que o que dura e o que perece são esplendor de uma só ideia que Deus gera amando.
- Canto XIV: Dante faz holocausto a Deus em todo o coração, e o sacrifício é aceito por dois raios rubros.
- Canto XXIV: Dante professa a Pedro um Deus só e eterno que move o céu sem se mover e a Trindade em uma essência.
- Canto XXVII: Todo o Paraíso entoa glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, e Dante se embriaga pelo ouvir e pelo ver.
- Canto XXVIII: Dante vê Deus como um ponto de luz aguda cercado por nove círculos de fogo, e Beatriz diz que dele depende o céu.
- Canto XXIX: Beatriz diz que Deus criou sem acréscimo de bem, para que seu resplendor dissesse subsisto.
- Canto XXX: Dante entra no Empíreo, definido por Beatriz como pura luz intelectual cheia de amor e alegria que transcende toda doçura.
- Canto XXXIII: Dante vê no profundo da luz o universo reunido num volume por amor e depois três círculos de uma só medida.
Onde as leituras divergem
A Águia responde à dúvida sobre o homem do Indo sem explicar a justiça de Deus, e o leitor fica com a pergunta.
O texto sustenta duas leituras de como Dante diz Deus. Na primeira, o discurso sobre Deus se faz pela negativa, pela imagem e pelo limite: o poeta diz o que Deus não é, mostra o que ele não é com comparações e desiste de descrevê-lo. Na segunda, o poema é uma teologia: a Trindade, a criação, a ordem dos coros e a visão final formam um sistema, e a poesia é o modo de o ensinar. As duas se sustentam, e o fim do poema não escolhe: o que se vê no profundo da luz é uma simples luz, e o que se diz é dela.