O tema na obra
O amor é a chave com que o Purgatório se lê, e o poema a entrega no meio exato da Comédia. No canto XVII, Virgílio responde à pergunta sobre que ofensa se purga num giro com a definição de um amor, e não com o nome de um pecado. A premissa é de universalidade: nem criador nem criatura foi sem amor.
Né creator né creatura mai», / cominciò el, «figliuol, fu sanza amore, / o naturale o d’animo; e tu ’l sai, nem criador nem criatura, filho, jamais foi sem amor, natural ou de ânimo; e tu o sabes.
Há duas espécies, e só uma erra, e erra de três maneiras.
Lo naturale è sempre sanza errore, / ma l’altro puote errar per malo obietto / o per troppo o per poco di vigore, o natural é sempre sem erro, mas o outro pode errar, por mau objeto ou por demasiado ou por pouco vigor.
A consequência é a que desfaz a ideia de que o vício seja uma espécie separada: o mesmo amor é a semente de toda virtude e de toda ação que merece pena. Os sete pecados da montanha se reorganizam, então, como três amores ao mal do próximo (soberba, inveja e ira, nos três giros de baixo), um amor lento ao bem (a acídia, no giro do meio) e três amores demasiados aos bens menores (avareza, gula e luxúria, nos três de cima). No canto XVIII Virgílio completa a lição com a definição de como o amor nasce, a apreensão da coisa, a inclinação da alma para ela:
e se, rivolto, inver’ di lei si piega, / quel piegare è amor, quell’ è natura / che per piacer di novo in voi si lega, e se, voltado, se inclina para ela, esse inclinar é amor, é natureza que pelo prazer de novo se liga em vós.
e com a imagem da cera boa e do selo que pode não o ser:
però che forse appar la sua matera / sempre esser buona, ma non ciascun segno / è buono, ancor che buona sia la cera, porque talvez a sua matéria pareça sempre boa, mas nem todo selo é bom, ainda que boa seja a cera.
O tema tem um prelúdio e um prolongamento. O prelúdio é o do canto XV, em que o amor aparece como bem que cresce quando é repartido, e a imagem é de luz e de espelho:
Quello infinito e ineffabil bene / che là sù è, così corre ad amore / com’ a lucido corpo raggio vene. / Tanto si dà quanto trova d’ardore; / sì che, quantunque carità si stende, / cresce sovr’ essa l’etterno valore., aquele bem infinito e inefável que está lá em cima corre ao amor assim como o raio vem a um corpo luzente. Dá-se tanto quanto encontra de ardor; de modo que, por mais que a caridade se estenda, cresce sobre ela o valor eterno.
O prolongamento é o do canto XXII, em que o amor é o que passa entre os poetas: o amor aceso de virtude acende outro amor, contanto que a chama apareça por fora.
Amore, / acceso di virtù, sempre altro accese, / pur che la fiamma sua paresse fore, o amor, aceso de virtude, sempre outro acendeu, contanto que a sua chama parecesse por fora.
Na outra ponta, o amor é o de Dante por Beatriz. A potência do amor antigo o toma antes de os olhos reconhecerem a mulher, e esse amor, que a razão de Virgílio não alcança, é o que a cântica reserva para os últimos cantos.
sanza de li occhi aver più conoscenza, / per occulta virtù che da lei mosse, / d’antico amor sentì la gran potenza, sem mais conhecimento dos olhos, por uma virtude oculta que se moveu dela, sentiu a grande potência do amor antigo.
O Purgatório não condena o amor. Pede que se endireite.
Quem o encarna
Virgílio é o amor ensinado: o guia que explica, com a razão, tudo o que ela alcança. Estácio é o amor que acende outro. Dante é o amor voltado a coisas presentes com falso prazer. Beatriz é o amor que julga, e o nome dela é o único argumento que move Dante diante do muro de fogo, no canto XXVII.
Onde aparece
- canto II: Casella responde a Dante que o ama solto do corpo como o amava dentro dele, e é por amor que para, antes de perguntar por que o amigo vai.
- canto XV: Virgílio explica a Dante que o bem divino cresce quanto mais gente o ama e que, se a razão não sacia, Beatriz tirará toda fome.
- canto XVII: Virgílio ensina que todo ato nasce de amor, que o amor natural nunca erra e que o amor de ânimo erra por mau objeto, por pouco ou por demasiado vigor.
- canto XVIII: Virgílio define o amor como inclinação da alma para o que a apreensão lhe mostra, e entrega a Beatriz o que a razão não alcança.
- canto XIX: Dante sonha com a sereia que o desejo dele torna bela, e Virgílio o manda olhar o chamariz que o Rei eterno gira.
- canto XX: Dante maldiz a loba e a sua fome sem fim, que é o amor mal dirigido aos bens menores, e pede a vinda de quem a faça partir.
- canto XXII: Virgílio diz a Estácio que o amor aceso de virtude acendeu outro amor, e Estácio responde que foi por ele poeta e cristão.
- canto XXIV: Dante diz a Bonagiunta que escreve só o que o Amor dita por dentro, e é assim que a escola dos poetas antigos se distingue do estilo novo.
- canto XXVII: Virgílio faz Dante entrar no fogo pelo nome de Beatriz, e diz que entre ele e ela está só o muro.
- canto XXX: Dante sente a potência do amor antigo antes de o rosto de Beatriz ser reconhecido, e se volta a Virgílio como o menino à mãe.
- canto XXXI: Beatriz acusa Dante de ter seguido as coisas presentes com falso prazer depois da morte dela, e usa o corpo como prova do maior prazer.
Onde as leituras divergem
Duas leituras do que Beatriz faz com o amor. Na primeira, ela o julga com o mesmo critério de Virgílio: o amor de Dante foi voltado a coisas presentes, e o remédio é o arrependimento e o banho. Na segunda, o amor que ela cobra é o dela, o antigo, e o que Dante errou foi tirar-se dela. O canto XXXI sustenta as duas, e não decide.