Quem é
Matelda é a mulher que Dante encontra do outro lado de um riacho no Paraíso Terrestre, sozinha, cantando e escolhendo flor entre flores, e que ele não sabe nomear. Só no último canto da cântica o poema dá o nome, e dá de passagem, na boca de outra personagem. Entre uma coisa e outra, ela faz o que nenhuma outra figura da montanha faz: explica o lugar. Diz que o sumo Bem fez o homem bom e para o bem e deu-lhe aquele sítio como penhor da paz eterna, que a floresta soa porque o ar gira com a primeira volta do céu, que a água do riacho vem de uma fonte firme e se abre em dois leitos, e que quem bebe de um esquece o pecado e quem bebe do outro recorda o bem feito. Depois guia Dante pela margem, repreende-o uma vez, recolhe-o quando cai, arrasta-o pelo rio e o submerge. É, por tudo isso, a personagem mais discreta da cântica e a que mais trabalho faz. Que ela seja uma figura sem biografia é um fato do texto.
Trajetória
No canto XXVIII do Purgatório Dante, ansioso por explorar a floresta divina, deixa a margem e segue por um solo que cheira em todos os lados até um riacho que o impede de ir adiante. Do outro lado aparece-lhe:
Antes de Beatriz aparecer, Dante atravessa sozinho a floresta do alto da montanha e encontra, do outro lado de um regato, uma mulher que canta colhendo flores, ainda sem nome no canto em que surge, e que só no canto XXXIII é chamada de Matelda: ela explica o lugar, as plantas e as águas, prepara a cena, e depois dela vem uma procissão simbólica, com um carro que anuncia a chegada de Beatriz.una donna soletta che si gia / e cantando e scegliendo fior da fiore / ond’ era pinta tutta la sua via, uma mulher sozinha que ia cantando e escolhendo flor entre flores, de que estava pintado todo o seu caminho.
A primeira palavra de Dante a ela é um elogio com um mito dentro:
Tu mi fai rimembrar dove e qual era / Proserpina nel tempo che perdette / la madre lei, ed ella primavera, tu me fazes lembrar onde e como era Prosérpina no tempo em que a mãe a perdeu, e ela a primavera.
Ela se volta com os pés juntos ao chão, como a dançarina, e se aproxima do pedido. Dante vê brilhar sob seus cílios mais luz do que sob os de Vênus ferida pelo filho. Ela ria, trabalhando com as mãos mais cores do que a alta terra produz sem semente, e diz que talvez, porque ri, neste lugar escolhido para ninho da natureza humana, alguma suspeita os prende em maravilha. Pergunta o que Dante quer ouvir. A explicação começa pelo começo, e o começo é uma história de dom e perda:
Lo sommo Ben, che solo esso a sé piace, / fé l’uom buono e a bene, e questo loco / diede per arr’ a lui d’etterna pace, o sumo Bem, que só a si mesmo agrada, fez o homem bom e para o bem, e deu-lhe este lugar como penhor da paz eterna.
Ela explica depois a meteorologia, o monte que sobe tanto para o ar livre, a floresta percutida que impregna o ar de sua virtude, a água que nasce de fonte firme e se abre em dois leitos:
Da questa parte con virtù discende / che toglie altrui memoria del peccato; / da l’altra d’ogne ben fatto la rende. / Quinci Letè; così da l’altro lato / Eünoè si chiama, e non adopra / se quinci e quindi pria non è gustato, deste lado desce com a virtude de tirar de alguém a memória do pecado; do outro, devolve a de todo bem feito. Daqui, Lete; assim, do outro lado, chama-se Eunoé, e não opera se antes não for provado de um lado e do outro.
O sabor do Eunoé, diz, está acima de todos os outros. Dá a Dante um corolário por graça: os que poetaram a idade do ouro talvez tenham sonhado este lugar no Parnaso. Dante se volta a Virgílio e a Estácio, e eles estão rindo:
Io mi rivolsi ’n dietro allora tutto / a’ miei poeti, e vidi che con riso / udito avëan l’ultimo costrutto, eu me voltei então todo para trás, para os meus poetas, e vi que com riso tinham ouvido o último remate.
No canto XXIX do Purgatório ela canta como enamorada, e continua o fim das palavras com um versículo de salmo. Move-se contra a corrente, subindo pela margem, e Dante a segue pequeno passo com pequeno passo. Quando um clarão corre pela floresta, é ela quem manda olhar e escutar, e a repreensão que faz é a única:
Perché pur ardi / sì ne l’affetto de le vive luci, / e ciò che vien di retro a lor non guardi, por que ardes tanto no afeto pelas luzes vivas e não olhas o que vem atrás delas.
No canto XXXI do Purgatório, depois da confissão, Dante cai vencido e, quando volta a si, a vê sobre ele, que o puxou no rio até a garganta e o arrasta atrás de si, leve como uma lançadeira. O Asperges me soa perto da riva:
La bella donna ne le braccia aprissi; / abbracciommi la testa e mi sommerse / ove convenne ch’io l’acqua inghiottissi, a bela dama abriu os braços; abraçou-me a cabeça e me submergiu onde foi preciso que eu engolisse a água.
Ela o entrega à dança das quatro damas, que o levam a Beatriz. No canto XXXII do Purgatório, ao despertar, Dante a vê de pé, e é ela quem lhe responde onde está Beatriz:
E tutto in dubbio dissi: «Ov’ è Beatrice?». / Ond’ ella: «Vedi lei sotto la fronda / nova sedere in su la sua radice, e todo em dúvida eu disse: onde está Beatriz? Ela então: vê-la sob a fronde nova, sentada sobre a sua raiz.
No canto XXXIII do Purgatório a dama aparece pelo nome. Quando Dante pergunta a Beatriz que água é aquela, é remetido a Matelda, que responde como quem se livra de culpa:
detto mi fu: «Priega / Matelda che ’l ti dica». E qui rispuose, / come fa chi da colpa si dislega, foi-me dito: pede a Matelda que te diga. E aqui respondeu, como faz quem se livra de culpa.
Beatriz acolhe a defesa dela com um talvez, e a manda levar Dante ao Eunoé. Matelda, como a alma gentil que faz sua vontade da vontade alheia assim que é aberta por um sinal, o toma e chama Estácio: vem com ele.
Temas que encarna
Matelda encarna o lugar perdido e restituído, e a Redenção passa por ela em duas cenas físicas: o Lete, que apaga a memória do pecado e a faz submergir Dante, e o Eunoé, que devolve a do bem feito. A Arte está na hipótese dela de que os poetas antigos sonharam este lugar, e o Amor na maneira como canta: como enamorada, cantando, escolhendo flor de flor. O poema a põe entre Virgílio, que se retira, e Beatriz, que chega: a mediadora que cumpre ordens e as explica.
Ela é a face prática do Éden. Beatriz julga, a procissão simboliza, Matelda faz: leva, segura, mergulha, diz onde está e para onde ir. A esquiva de nome durante cinco cantos tem uma consequência: quem a lê pelo texto só a conhece pelo que ela faz, e é esse o retrato.
Leituras divergentes
O texto sustenta duas leituras da comparação com Prosérpina. Uma é a gentileza de quem fala a uma dama desconhecida. A outra é o primeiro eco, na boca do peregrino, de que o Éden é lugar de que o homem foi expulso. A mesma ambiguidade vale para o riso: o riso honesto de que ela mesma diz que o homem o trocou por pranto e fadiga, e o riso que, no outro lado do rio, ela mostra ao peregrino. O poema não decide.