Clavis Libri

Tema em Purgatório

Arte

A arte e o artista: criação, poesia, música, o lugar da arte na vida.

O tema na obra

A arte no Purgatório é três coisas ao mesmo tempo: remédio, vaidade e dívida. É remédio na primeira cornija, onde a parede de mármore ensina a humildade por imagens esculpidas com tal arte que o poeta as chama de fala visível, e o chão repete a lição ao contrário, com as quedas dos soberbos lavradas como lajes de sepultura.

Colui che mai non vide cosa nova / produsse esto visibile parlare, / novello a noi perché qui non si trova., aquele que nunca viu coisa nova produziu esta fala visível, nova para nós porque aqui não se encontra.
Cantos IX a XII: A porta e a soberba

É vaidade na boca de Oderisi, o miniaturista que confessa que não teria sido tão cortês com Franco Bolonhês enquanto vivia, pelo grande desejo da excelência, e que a glória das capacidades humanas dura pouco como o verde no topo, e basta um Giotto para escurecer um Cimabue.

Oh vana gloria de l’umane posse! / com’ poco verde in su la cima dura, / se non è giunta da l’etati grosse! / Credette Cimabue ne la pittura / tener lo campo, e ora ha Giotto il grido, / sì che la fama di colui è scura., ó vã glória das capacidades humanas! como dura pouco o verde no topo, se não é seguida por idades grosseiras! Cimabue julgou ter o campo na pintura, e agora Giotto tem o grito, de modo que a fama daquele está escura.
Cantos IX a XII: A porta e a soberba

E é dívida entre poetas, nas cenas mais longas da cântica. Estácio confessa que a Eneida foi mãe e ama de sua poesia, e que aceitaria um sol a mais na pena por ter vivido no tempo de Virgílio:

de l’Eneïda dico, la qual mamma / fummi, e fummi nutrice, poetando: / sanz’ essa non fermai peso di dramma. / E per esser vivuto di là quando / visse Virgilio, assentirei un sole / più che non deggio al mio uscir di bando, da Eneida digo, que foi mãe para mim e foi ama, poetando: sem ela eu não teria fixado peso de dracma. E por ter vivido lá quando viveu Virgílio, consentiria mais um sol do que devo à minha saída do exílio.
Cantos XVII a XXI: O amor, a acídia e a avareza

E Virgílio, sem saber, foi quem o levou à fé, com a imagem de quem leva a luz atrás e a si não aproveita:

Facesti come quei che va di notte, / che porta il lume dietro e sé non giova, / ma dopo sé fa le persone dotte, / quando dicesti: ‘Secol si rinova; / torna giustizia e primo tempo umano, / e progenïe scende da ciel nova, fizeste como quem vai de noite, que leva o lume atrás e a si não aproveita, mas depois de si faz doutas as pessoas, quando disseste: o século se renova; torna a justiça e o primeiro tempo humano, e uma nova progênie desce do céu.
Cantos XXII a XXV: Gula e a geração da alma

A mesma dívida atravessa a linha dos poetas da língua. Bonagiunta de Lucca vê, na resposta de Dante, o nó que o prendia, e a expressão que batiza o movimento sai da boca de quem ficou de fora dele:

Na cornija da gula, o poeta Bonagiunta pergunta a Dante se é ele o autor de "Donne ch'avete intelletto d'amore", e ouve de volta a definição de um método, escrever exatamente o que o amor dita por dentro, sem artifício de escola. Dante responde I’ mi son un che, quando / Amor mi spira, noto, e a quel modo / ch’e’ ditta dentro vo significando, sou um que, quando o Amor me inspira, anoto, e do modo que ele dita dentro vou dizendo. Quem nomeia a escola é o outro: Bonagiunta reconhece, na resposta, o nó que o prendia, O frate, issa vegg’ io [...] il nodo / che ’l Notaro e Guittone e me ritenne / di qua dal dolce stil novo ch’i’ odo!, ó irmão, agora vejo [...] o nó que reteve o Notário, Guittone e a mim aquém do doce estilo novo que ouço! A expressão que batiza um movimento inteiro sai da boca de quem ficou de fora dele.
Purgatório

Guinizelli passa o título adiante e diz que o outro foi melhor artífice da língua materna, e explica por que erram os que o contestam:

fu miglior fabbro del parlar materno. / Versi d’amore e prose di romanzi / soverchiò tutti; e lascia dir li stolti / che quel di Lemosì credon ch’avanzi, foi melhor artífice da língua materna. Em versos de amor e prosas de romance superou todos; e deixa dizer os tolos que acreditam que o de Limoges o supera.
Cantos XXVI a XXIX: O fogo e o Éden
A voce più ch’al ver drizzan li volti, / e così ferman sua oppinïone / prima ch’arte o ragion per lor s’ascolti, é à fama, mais que à verdade, que voltam o rosto, e assim firmam sua opinião antes que arte ou razão seja ouvida por eles.
Cantos XXVI a XXIX: O fogo e o Éden

O tema tem ainda uma face de ofício, a do poeta que fala de si. Antes da visão mais difícil, Dante invoca as Musas pelo crédito de ter sofrido por elas fome, frio e vigília:

O sacrosante Vergini, se fami, / freddi o vigilie mai per voi soffersi, / cagion mi sprona ch’io mercé vi chiami, ó sacrossantas Virgens, se jamais por vós sofri fomes, frios ou vigílias, a causa me impele a pedir-vos mercê.
Cantos XXVI a XXIX: O fogo e o Éden

No canto XXXII confessa que não saberia pintar o sono, como o pintor que pinta com modelo, e no fim da cântica diz que o freio da arte não o deixa ir adiante:

ma perché piene son tutte le carte / ordite a questa cantica seconda, / non mi lascia più ir lo fren de l’arte, mas porque estão cheias todas as páginas urdidas para esta segunda cântica, o freio da arte não me deixa ir mais adiante.
Cantos XXX a XXXIII: Beatriz

Quem o encarna

Os poetas do fogo são a arte como filiação. Estácio é a arte que salva e que se esconde. Virgílio é a arte que guia sem ver a luz. Oderisi é a vaidade dela, e Dante é quem a escreve.

Onde aparece

  • canto II: Dante pede a Casella o canto amoroso que lhe acalmava as dores, com a cautela de quem não sabe se a lei do lugar permite, e a festa dos poetas é interrompida por Catão.
  • canto X: O poeta descreve a parede de mármore em que a Anunciação, a dança de Davi e a justiça de Trajano se leem como fala visível.
  • canto XI: Oderisi diz que a honra da arte de iluminar é agora toda de Franco Bolonhês, e que o grito da fama muda de nome como o vento muda de lado.
  • canto XXI: Estácio conta que a Eneida foi mãe e ama da sua poesia e que daria um sol a mais de pena por ter vivido no tempo de Virgílio.
  • canto XXII: Estácio diz a Virgílio que o lume que ele levou atrás o fez poeta e cristão, e Virgílio responde onde moram os poetas latinos.
  • canto XXIV: Bonagiunta reconhece, na resposta de Dante, o nó que o prendeu aquém do doce estilo novo, e Dante diz que escreve o que o Amor dita por dentro.
  • canto XXVI: Guinizelli diz que o outro poeta foi melhor artífice da língua materna, e Arnaut responde em provençal.
  • canto XXIX: O poeta invoca as Musas pelo que sofreu por elas e pede o coro de Urânia para pôr em verso o que é difícil de pensar.
  • canto XXXII: Dante confessa que não sabe pintar como adormeceram os olhos de Argos e deixa a quem quiser a tarefa de fingir bem o adormecer.
  • canto XXXIII: O poeta fecha a cântica dizendo que estão cheias todas as páginas ordenadas a ela e que o freio da arte não o deixa ir adiante.

Onde as leituras divergem

A terça rima funciona como proteção contra a alteração do poema: cortar ou mudar um verso quebraria a rima encadeada de toda a sequência.

Uma leitura crítica vê na paixão política de Dante quase uma obsessão, e põe no lirismo o que, apesar dela, sustenta o poema.

Há duas leituras do canto XI. Na primeira, Oderisi fala só dos pintores e dos poetas de seu tempo, e a lição de que a fama é um sopro de vento vale para todos. Na segunda, a referência aos dois Guidos e a quem talvez já tenha nascido para tirar a glória de ambos é uma alusão do poema ao próprio autor, que a leitura corrente aponta e o texto não nomeia.