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Personagem

Estácio

Quem é

Estácio é o poeta latino que o monte faz tremer. Aparece no quinto giro, atrás de Dante e de Virgílio, como Cristo apareceu aos dois do caminho, segundo Lucas, já saído do sepulcro: fala antes de ser visto e deseja paz. Jazia na pena há mais de quinhentos anos, e o terremoto e o louvor das almas são o sinal de que ele acaba de sentir livre a vontade de subir. Apresenta-se pelo nome e pelo tempo, no tempo do bom Tito, o nome que mais dura e mais honra, e logo o limita: famoso, mas ainda sem fé. Doce foi o seu espírito vocal, e Roma o atraiu, onde mereceu ornar as têmporas de mirto; cantou Tebas e depois o grande Aquiles, mas caiu no caminho com a segunda carga. A chama que lhe aqueceu o ardor veio da Eneida, que lhe foi mãe e ama. Com ele o poema mostra o contrário do Limbo de Virgílio: um poeta que o mundo tinha por pagão e que sobe, porque foi batizado em segredo, e que atribui a subida a um verso do outro. É, no resto da cântica, o terceiro caminhante e o explicador do que a razão de Virgílio já não alcança, a geração da alma, que o guia lhe entrega no canto XXV.

Trajetória

O canto XXI do Purgatório abre pela sede de Dante e pela sombra que lhe responde. Estácio vem atrás, olhando as almas deitadas, e deseja paz; Virgílio responde com um voto e lhe mostra os sinais que o anjo marcou em Dante. Pergunta por que o monte tremeu, e Estácio responde com uma explicação que é uma regra do lugar: nada ali é fora de ordem, o monte é livre de toda alteração, e só treme quando uma alma se sente limpa e se levanta para subir. A prova é o querer, e ele conta o seu caso:

E io, che son giaciuto a questa doglia / cinquecent’ anni e più, pur mo sentii / libera volontà di miglior soglia: / però sentisti il tremoto e li pii / spiriti per lo monte render lode / a quel Segnor, che tosto sù li ’nvii, e eu, que jazi nesta dor quinhentos anos e mais, só agora senti livre vontade de melhor soleira: por isso sentiste o terremoto e os espíritos pios pelo monte render louvor àquele Senhor, que logo os envie para cima.
Cantos XVII a XXI: O amor, a acídia e a avareza

Virgílio lhe pergunta quem foi, e Estácio diz o tempo e o nome, com a ressalva:

Nel tempo che ’l buon Tito, con l’aiuto / del sommo rege, vendicò le fóra / ond’ uscì ’l sangue per Giuda venduto, / col nome che più dura e più onora / era io di là», rispuose quello spirto, / «famoso assai, ma non con fede ancora, no tempo em que o bom Tito, com a ajuda do sumo rei, vingou as feridas de onde saiu o sangue por Judas vendido, com o nome que mais dura e mais honra era eu lá, respondeu aquele espírito, famoso bastante, mas ainda sem fé.
Cantos XVII a XXI: O amor, a acídia e a avareza

A sua confissão mais íntima é a dívida:

de l’Eneïda dico, la qual mamma / fummi, e fummi nutrice, poetando: / sanz’ essa non fermai peso di dramma. / E per esser vivuto di là quando / visse Virgilio, assentirei un sole / più che non deggio al mio uscir di bando, da Eneida digo, que foi mãe para mim e foi ama, poetando: sem ela eu não teria fixado peso de dracma. E por ter vivido lá quando viveu Virgílio, consentiria mais um sol do que devo à minha saída do exílio.
Cantos XVII a XXI: O amor, a acídia e a avareza

Dante não consegue calar o riso, Estácio o interroga, e então Dante diz que aquele que guia seus olhos é o Virgílio de quem Estácio tirou a força de cantar. Estácio se inclina para abraçar os pés do mestre, que o impede:

Frate, / non far, ché tu se’ ombra e ombra vedi». / Ed ei surgendo: «Or puoi la quantitate / comprender de l’amor ch’a te mi scalda, / quand’ io dismento nostra vanitate, / trattando l’ombre come cosa salda, irmão, não faças, que és sombra e sombra vês. E ele, levantando-se: agora podes compreender a quantidade do amor que por ti me aquece, quando esqueço a nossa vaidade, tratando as sombras como coisa sólida.
Cantos XVII a XXI: O amor, a acídia e a avareza

No canto XXII do Purgatório os dois poetas conversam atrás de Dante. Virgílio pergunta, como amigo, como a avareza achou lugar no peito de Estácio, e Estácio sorri e responde que foi o contrário, a prodigalidade: um verso do guia o corrigiu.

Per che non reggi tu, o sacra fame / de l’oro, l’appetito de’ mortali?’, / voltando sentirei le giostre grame. / Allor m’accorsi che troppo aprir l’ali / potean le mani a spendere, e pente’mi / così di quel come de li altri mali, por que não governas tu, ó sagrada fome do ouro, o apetite dos mortais? Rolando, sentiria as justas amargas. Então percebi que as mãos podiam abrir demais as asas para gastar, e arrependi-me disso como dos outros males.
Cantos XXII a XXV: Gula e a geração da alma

A lei da pena é a do pecado oposto, que seca junto com o que se purga, e por isso o pródigo está entre os avaros:

E sappie che la colpa che rimbecca / per dritta opposizione alcun peccato, / con esso insieme qui suo verde secca; / però, s’io son tra quella gente stato / che piange l’avarizia, per purgarmi, / per lo contrario suo m’è incontrato, e sabe que a culpa que rebate, por oposição direta, algum pecado, com ele junto seca aqui o seu verde; por isso, se estive entre aquela gente que chora a avareza, para me purgar, foi pelo seu contrário que me coube.
Cantos XXII a XXV: Gula e a geração da alma

Virgílio quer saber como ele se fez cristão, e Estácio diz que foi o primeiro a mandá-lo beber no Parnaso e o primeiro, depois de Deus, a iluminá-lo, com uma imagem que recai sobre quem a ouve:

Facesti come quei che va di notte, / che porta il lume dietro e sé non giova, / ma dopo sé fa le persone dotte, / quando dicesti: ‘Secol si rinova; / torna giustizia e primo tempo umano, / e progenïe scende da ciel nova, fizeste como quem vai de noite, que leva o lume atrás e a si não aproveita, mas depois de si faz doutas as pessoas, quando disseste: o século se renova; torna a justiça e o primeiro tempo humano, e uma nova progênie desce do céu.
Cantos XXII a XXV: Gula e a geração da alma

Confessa que foi batizado antes de levar os gregos aos rios de Tebas, mas se fez cristão fechado, por medo, e a tepidez custou-lhe mais de quatro séculos no quarto círculo.

E pria ch’io conducessi i Greci a’ fiumi / di Tebe poetando, ebb’ io battesmo; / ma per paura chiuso cristian fu’mi, / lungamente mostrando paganesmo; / e questa tepidezza il quarto cerchio / cerchiar mi fé più che ’l quarto centesmo, e antes que eu levasse os gregos aos rios de Tebas, poetando, recebi o batismo; mas por medo me fiz cristão fechado, mostrando por muito tempo paganismo; e essa tepidez me fez rodar o quarto círculo por mais de quatro centenas de anos.
Cantos XXII a XXV: Gula e a geração da alma

Pergunta depois onde estão Terêncio, Cecílio, Plauto e Varrão, e se estão condenados, e Virgílio responde sem queixa:

Costoro e Persio e io e altri assai», / rispuose il duca mio, «siam con quel Greco / che le Muse lattar più ch’altri mai, / nel primo cinghio del carcere cieco; / spesse fïate ragioniam del monte / che sempre ha le nutrice nostre seco, estes, e Pérsio, e eu, e muitos outros, estamos com aquele grego que as Musas amamentaram mais que a ninguém, no primeiro recinto do cárcere cego; muitas vezes falamos do monte que sempre tem consigo as nossas amas.
Cantos XXII a XXV: Gula e a geração da alma

No canto XXV do Purgatório Dante pergunta como se emagrece onde não há necessidade de nutrir, e Virgílio chama Estácio para ser o médico das suas feridas. Estácio descreve a geração do corpo, a vinda do intelecto e a alma que, solta da carne, leva consigo o humano e o divino. A vinda do intelecto é um sopro:

lo motor primo a lui si volge lieto / sovra tant’ arte di natura, e spira / spirito novo, di vertù repleto, / che ciò che trova attivo quivi, tira / in sua sustanzia, e fassi un’alma sola, / che vive e sente e sé in sé rigira, o primeiro motor se volta alegre para ele, sobre tanta arte da natureza, e espira espírito novo, cheio de virtude, que o que encontra ativo ali atrai para a sua substância, e faz-se uma só alma, que vive e sente e sobre si mesma se volta.
Cantos XXII a XXV: Gula e a geração da alma

E o que a alma leva é o que ainda a move:

Quando Làchesis non ha più del lino, / solvesi da la carne, e in virtute / ne porta seco e l’umano e ’l divino: / l’altre potenze tutte quante mute; / memoria, intelligenza e volontade / in atto molto più che prima agute, quando Láquesis já não tem mais do linho, solta-se da carne, e em virtude leva consigo o humano e o divino: as outras potências todas mudas; memória, inteligência e vontade em ato muito mais agudas que antes.
Cantos XXII a XXV: Gula e a geração da alma

Quando a alma forma no ar uma figura, essa figura se chama sombra:

Però che quindi ha poscia sua paruta, / è chiamata ombra; e quindi organa poi / ciascun sentire infino a la veduta. / Quindi parliamo e quindi ridiam noi; / quindi facciam le lagrime e ’ sospiri / che per lo monte aver sentiti puoi, porque daí tem depois a sua aparência, chama-se sombra; e daí organiza depois cada sentido até a vista. Daí falamos e daí rimos; daí fazemos as lágrimas e os suspiros que pelo monte podes ter ouvido.
Cantos XXII a XXV: Gula e a geração da alma

No canto XXVII do Purgatório é a ele que Virgílio pede, ao entrar no fogo, que venha atrás, e Dante atravessa entre os dois poetas. No canto XXVIII do Purgatório, quando Matelda diz que os poetas antigos talvez tenham sonhado este lugar, Dante olha para trás, e Virgílio e Estácio estão rindo:

Io mi rivolsi ’n dietro allora tutto / a’ miei poeti, e vidi che con riso / udito avëan l’ultimo costrutto, eu me voltei então todo para trás, para os meus poetas, e vi que com riso tinham ouvido o último remate.
Cantos XXVI a XXIX: O fogo e o Éden

No canto XXXII do Purgatório Estácio vai com Matelda e Dante atrás da roda do carro, e no canto XXXIII do Purgatório Matelda, depois de tomar Dante para o Eunoé, o chama com elegância: vem com ele.

Temas que encarna

Estácio encarna a Redenção como obra a dois: um poeta que se corrigiu por um verso lido e que se fez cristão por outro, e que sobe quando a vontade está livre. A Arte está nele mais que em ninguém no canto: o que o salvou foi um poema, e o que o prendeu foi a pena de quem o escondeu. O Amor passa pelas duas cenas: a afeição de Virgílio por ele, que o quis bem sem nunca o ter visto, e a de Estácio pelo mestre, que o faz esquecer a vaidade das sombras e tratá-las como coisa sólida.

O poema faz de Estácio uma resposta a Virgílio, que Virgílio só ouve aqui. Ele é o discípulo que se salva por um verso do mestre pagão, e o poema deixa ao mestre a imagem do homem que leva a luz atrás e a si não aproveita. Estácio não diz isso com amargura: diz com amor, e o amor é o motivo de ele aceitar um sol a mais na pena em troca de ter vivido no tempo de Virgílio. Dante, o terceiro, ouve os dois e aprende a poetar.

Leituras divergentes

A conversão em segredo é a anomalia que explica a demora, e Estácio a atribui à quarta écloga, que lê como profecia involuntária do nascimento de Cristo:

O séc’lo se renova, / Volta a justiça, volta a idade de ouro, / E progênie do céu descende nova. Virgílio guiou Estácio à fé sem chegar a alcançá-la ele mesmo: Hás sido, como à noite o guia insonte, / Que leva a luz, mas o seu bem não prova, diz Estácio a ele.
Purgatório

O texto sustenta duas leituras da tepidez. Na primeira, o poema é indulgente com o medo, porque o batismo valeu e o medo humano é perdoável. Na segunda, é rigoroso, porque a medida do tempo na pena, mais de quatrocentos anos, é longa para um medo. O poema dá as duas e deixa o leitor entre elas.

Relações

  • Virgílio: o poeta a quem deve a poesia e a fé, e que o recebe como a um igual.
  • Dante: o vivo que ri e revela o guia, e que ouve dele a explicação da alma.
  • Matelda: quem o chama para o Eunoé, e com quem segue atrás do carro.