Clavis Libri

Personagem

Os poetas do fogo

Quem é

Guido Guinizelli e Arnaut são os dois poetas do amor que Dante encontra no último fogo da montanha, a cornija da luxúria, e o poema os apresenta juntos, um passando ao outro o elogio que acabou de receber. Guinizelli é o primeiro a falar. Interpela Dante como quem pede resposta, porque arde em sede e em fogo, e quando o vivo lhe responde diz o próprio nome e que já se purga por ter chorado bem o pecado antes do fim. Dante o chama de pai, e dele, e dos outros melhores, diz que usaram rimas de amor doces e graciosas. Arnaut é a sombra que Guinizelli aponta com o dedo, e que responde na língua em que cantou, o provençal, o único trecho da Comédia inteira em outro idioma românico. O que os une é a língua: Guinizelli chama Dante de irmão e diz que o outro foi melhor artífice da língua materna, e Arnaut só diz o nome, o choro, o canto e a alegria que espera. O que o poema mostra neles é uma poesia que se reconhece maior do que a sua e uma dor que não se fecha, e é por isso que os dois se purgam entre as chamas.

Trajetória

Tudo acontece no canto XXVI do Purgatório. Dante e Virgílio andam em fila pela borda da cornija, entre o precipício e o fogo, e as sombras reparam que ele projeta sombra. Uma delas lhe pede resposta, e os dois bandos que se cruzam se beijam depressa e gritam cada um o exemplo do próprio erro, uns Sodoma e Gomorra, outros que Pasífae entra na vaca. Quem fala a Dante explica o grito como pena e dá a regra comum:

Nostro peccato fu ermafrodito; / ma perché non servammo umana legge, / seguendo come bestie l’appetito, nosso pecado foi hermafrodita; mas porque não observamos a lei humana, seguindo o apetite como bestas.
Cantos XXVI a XXIX: O fogo e o Éden

Diz que nomes não pode dar, que não há tempo e não saberia, e dá só o seu: é Guido Guinizelli. Dante reage como os filhos que correm a rever a mãe na dor de Ligurgo, embora sem tanto ímpeto, e o diz assim:

quand’ io odo nomar sé stesso il padre / mio e de li altri miei miglior che mai / rime d’amore usar dolci e leggiadre, quando ouço nomear a si mesmo o pai meu e dos outros meus melhores que jamais usaram rimas de amor doces e graciosas.
Purgatório

Sem ouvir nem falar, vai pensativo um bom tempo olhando-o, sem se aproximar por causa do fogo, e depois de saciar o olhar se oferece inteiro ao serviço dele. A resposta mede o afeto pelo rio do esquecimento:

Tu lasci tal vestigio, / per quel ch’i’ odo, in me, e tanto chiaro, / che Letè nol può tòrre né far bigio, tu deixas tal rastro em mim, pelo que ouço, e tão claro, que o Lete não pode tirá-lo nem deixá-lo cinzento.
Cantos XXVI a XXIX: O fogo e o Éden

Guinizelli desconfia do elogio e pergunta por que Dante o tem tão caro. Dante diz que são as doces falas dele, que, enquanto durar o uso moderno, farão caras ainda as suas tintas. Guinizelli aponta uma sombra à frente e passa o título adiante:

fu miglior fabbro del parlar materno. / Versi d’amore e prose di romanzi / soverchiò tutti; e lascia dir li stolti / che quel di Lemosì credon ch’avanzi, foi melhor artífice da língua materna. Em versos de amor e prosas de romance superou todos; e deixa dizer os tolos que acreditam que o de Limoges o supera.
Cantos XXVI a XXIX: O fogo e o Éden

Explica por que erram os que preferem o outro, o de Limoges:

A voce più ch’al ver drizzan li volti, / e così ferman sua oppinïone / prima ch’arte o ragion per lor s’ascolti, é à fama, mais que à verdade, que voltam o rosto, e assim firmam sua opinião antes que arte ou razão seja ouvida por eles.
Cantos XXVI a XXIX: O fogo e o Éden

Faz de Guittone o exemplo: muitos antigos lhe deram o prêmio de grito em grito, até que a verdade o venceu com mais gente. Pede então a Dante, que tem tamanho privilégio de ir ao claustro onde Cristo é abade do colégio, um pai-nosso, quanto basta a eles neste mundo, onde poder pecar já não é deles. Depois, talvez para dar lugar ao seguinte, desaparece no fogo, como o peixe vai ao fundo pela água. Dante se adianta até o que lhe foi mostrado e diz que seu desejo prepara um lugar gracioso ao nome dele. A sombra responde com livre vontade, e em provençal:

Guinizelli aponta adiante quem foi o melhor artífice da língua materna, e esse poeta, ao ser interpelado, responde na língua em que cantou, não em italiano. A escolha é gesto de cortesia, porque o pedido de Dante foi cortês, e o poema lhe cede o espaço de falar por si mesmo. Tan m’abellis vostre cortes deman, / qu’ieu no me puesc ni voill a vos cobrire. / Ieu sui Arnaut, que plor e vau cantan; / consiros vei la passada folor, / e vei jausen lo joi qu’esper, denan, tanto me agrada o vosso cortês pedido que não posso nem quero me encobrir a vós; eu sou Arnaut, que choro e vou cantando; pensativo vejo a loucura passada e vejo, alegre, a alegria que espero, adiante.
Purgatório

Pede, em tempo, que Dante se lembre da dor dele, e se esconde no fogo que o refina. Antes, no canto XXIV do Purgatório, Bonagiunta de Lucca já tinha dito a Dante o que separava a escola dele do estilo novo, e a conversa do fogo continua o mesmo assunto, a poesia de amor, noutra cornija:

Na cornija da gula, o poeta Bonagiunta pergunta a Dante se é ele o autor de "Donne ch'avete intelletto d'amore", e ouve de volta a definição de um método, escrever exatamente o que o amor dita por dentro, sem artifício de escola. Dante responde I’ mi son un che, quando / Amor mi spira, noto, e a quel modo / ch’e’ ditta dentro vo significando, sou um que, quando o Amor me inspira, anoto, e do modo que ele dita dentro vou dizendo. Quem nomeia a escola é o outro: Bonagiunta reconhece, na resposta, o nó que o prendia, O frate, issa vegg’ io [...] il nodo / che ’l Notaro e Guittone e me ritenne / di qua dal dolce stil novo ch’i’ odo!, ó irmão, agora vejo [...] o nó que reteve o Notário, Guittone e a mim aquém do doce estilo novo que ouço! A expressão que batiza um movimento inteiro sai da boca de quem ficou de fora dele.
Purgatório

Temas que encarna

Os dois encarnam a Arte como filiação. Dante os chama de pai e diz que usaram rimas de amor doces e graciosas; eles passam o título adiante. O Amor tem em suas bocas a forma dupla da cornija: o fogo que refina, o grito que envergonha, o choro que arrepende. A Redenção é a do poeta que chorou bem o pecado antes do fim: Guinizelli se purga por isso, e Arnaut vê, pensativo, a loucura passada e, alegre, a alegria que espera.

O encontro mede a distância entre admirar um autor e sentar ao lado dele em chamas. Dante fica muito tempo a olhar o pai, e só o fogo o impede de se aproximar, e a frase com que se oferece ao serviço dele é um juramento que faz crer. O que o poema acrescenta é que a admiração é correspondida e que o objeto do elogio responde com a modéstia de passar o título adiante.

Leituras divergentes

O texto sustenta duas leituras do gesto de Guinizelli. Uma é a modéstia: o poeta que acaba de ser chamado de mestre aponta outro e diz que aquele foi o melhor artífice. A outra é a convicção: o critério dele, julgar pelo verso e não pela voz, o obriga a dizer quem escreveu melhor, mesmo que seja outro. O canto não escolhe. A mudança de língua em Arnaut diz o mesmo: Dante reconhece, dentro da própria obra, que existe uma poesia maior fora do italiano, e cede a ela o espaço de falar por si.

Relações

  • Dante: o discípulo que chama Guinizelli de pai e se oferece ao serviço de ambos.
  • Virgílio: o guia que, na cornija do fogo, assiste ao encontro e lhe dá lugar.
  • Matelda: a dama que Dante encontra logo depois da escada, no jardim, e que, no canto XXVIII, diz que os poetas antigos talvez tenham sonhado o jardim.