Clavis Libri

Personagem

Beatriz

Quem é

Beatriz é a mulher que o Purgatório promete desde o sexto canto e entrega no trigésimo: a que Virgílio nomeia ao chegar ao limite do que a razão dele alcança, a que desce de uma nuvem de flores à margem do rio no Paraíso Terrestre e a que, em vez de consolar o peregrino que acaba de perder o guia, o chama pelo nome e o acusa. A cena tem três movimentos: reconhecer, julgar e mandar escrever. Dante a reconhece antes dos olhos, por uma virtude oculta que sai dela, e é ela quem diz o nome dele, a única vez em que o poema o faz. Julga em voz alta, primeiro aos anjos e depois a ele, com o gesto de um almirante que vai à popa e à proa animar a gente dos outros navios: não acolhe, comanda. E quando o réu confessa e é lavado, manda-o olhar o carro e, de volta ao mundo que vive mal, escrever o que viu. A identificação com Beatrice Portinari, a florentina que Dante teria conhecido em criança e que morreu jovem, vem da tradição biográfica dos primeiros comentadores, não do poema: dentro da Commedia ela nunca recebe sobrenome nem biografia verificável, e o que o poema dá é a personagem, guia e símbolo da teologia na leitura corrente.

Trajetória

Antes de aparecer, Beatriz é anunciada, e cada anúncio lhe dá um papel. No Inferno, é ela quem desce ao Limbo para mandar Virgílio socorrer o peregrino perdido na selva, e a mensagem que o guia repete de memória é a de quem desce por amor:

I’ son Beatrice che ti faccio andare; / vegno del loco ove tornar disio; / amor mi mosse, che mi fa parlare, eu sou Beatriz, a que te faz ir; venho do lugar aonde desejo voltar; amor me moveu, que me faz falar.
Cantos I a IV: A selva e a porta

Na montanha, a primeira vez em que Virgílio diz o nome dela é no canto VI do Purgatório, ao chegar ao limite do que a razão dele alcança. Dante lhe perguntava se a oração dobra o decreto do céu, e o guia, em vez de explicar, remete a quem pode:

Non so se ’ntendi: io dico di Beatrice; / tu la vedrai di sopra, in su la vetta / di questo monte, ridere e felice, não sei se entendes: falo de Beatriz; tu a verás lá em cima, no cume deste monte, rindo e feliz.
Cantos V a VIII: Os que se arrependeram tarde

No canto XV do Purgatório o anúncio vem com a mesma modéstia: se a razão de Virgílio não sacia, ela tirará esta e qualquer outra fome.

E quanta gente più là sù s’intende, / più v’è da bene amare, e più vi s’ama, / e come specchio l’uno a l’altro rende. / E se la mia ragion non ti disfama, / vedrai Beatrice, ed ella pienamente / ti torrà questa e ciascun’ altra brama., e quanta mais gente lá em cima se entende, mais há ali para bem amar, e mais se ama, e como espelho um ao outro devolve. E se a minha razão não te sacia, verás Beatriz, e ela plenamente te tirará esta e qualquer outra fome.
Cantos XIII a XVI: Inveja e ira

No canto XVIII do Purgatório Virgílio entrega a ela o termo que a filosofia só alcança até certo ponto, o livre-arbítrio, que ela entenderá por nobre virtude, e a obra é de fé:

Quanto ragion qui vede, / dir ti poss’ io; da indi in là t’aspetta / pur a Beatrice, ch’è opra di fede, quanto a razão aqui vê, posso dizer-te; dali em diante espera só por Beatriz, pois é obra de fé.
Cantos XVII a XXI: O amor, a acídia e a avareza
Onde, poniam che di necessitate / surga ogne amor che dentro a voi s’accende, / di ritenerlo è in voi la podestate. / La nobile virtù Beatrice intende / per lo libero arbitrio, e però guarda / che l’abbi a mente, s’a parlar ten prende, daí que, suponhamos que por necessidade surja todo amor que em vós se acende, de retê-lo está em vós o poder. A nobre virtude, Beatriz a entende por livre arbítrio, e por isso cuida de tê-la na mente, se ela te falar disso.
Cantos XVII a XXI: O amor, a acídia e a avareza

No canto XXIII do Purgatório é o próprio Dante quem diz a Forese que será companheiro de Virgílio até o lugar em que ela estiver, e que ali convém ficar sem ele:

Tanto dice di farmi sua compagna / che io sarò là dove fia Beatrice; / quivi convien che sanza lui rimagna. / Virgilio è questi che così mi dice, tanto diz que me fará sua companhia, que eu serei lá onde estiver Beatriz; ali convém que sem ele eu fique. Este que assim me diz é Virgílio.
Cantos XXII a XXV: Gula e a geração da alma

No canto XXVII do Purgatório, o nome dela é o único argumento que move o peregrino diante do muro de fogo: Virgílio tenta três razões e nenhuma o convence, e então diz o que ainda não tinha tentado.

Or vedi, figlio: / tra Bëatrice e te è questo muro, vê agora, filho: entre Beatriz e ti está este muro.
Cantos XXVI a XXIX: O fogo e o Éden

Dante se volta ao nome como Píramo moribundo se volta ao de Tisbe, e entra no fogo. Dentro dele, Virgílio vai conversando sobre ela, como quem já vê os olhos.

O canto XXX do Purgatório abre com a procissão parada diante do carro e cem ministros do céu que lançam flores. Dentro da nuvem aparece-lhe uma mulher de véu branco, cingida de oliva, sob um manto verde, vestida da cor de chama viva, e o espírito de Dante sente a potência do amor antigo antes de os olhos reconhecerem:

sanza de li occhi aver più conoscenza, / per occulta virtù che da lei mosse, / d’antico amor sentì la gran potenza, sem mais conhecimento dos olhos, por uma virtude oculta que se moveu dela, sentiu a grande potência do amor antigo.
Cantos XXX a XXXIII: Beatriz

Ao se voltar, como o menino que corre à mãe, para dizer isso a Virgílio, acha o lugar vazio:

Ma Virgilio n’avea lasciati scemi / di sé, Virgilio dolcissimo patre, / Virgilio a cui per mia salute die’mi, mas Virgílio nos tinha deixado privados de si, Virgílio doce pai, Virgílio a quem me dei para minha salvação.
Cantos XXX a XXXIII: Beatriz

A primeira palavra de Beatriz é o nome do peregrino, e é uma ordem de não chorar ainda:

Dante, perché Virgilio se ne vada, / non pianger anco, non piangere ancora; / ché pianger ti conven per altra spada, Dante, porque Virgílio se vai, não chores ainda, não chores ainda; pois te convém chorar por outra espada.
Cantos XXX a XXXIII: Beatriz

Só então ela se apresenta, duas vezes, e a pergunta que faz tem uma ironia no verbo:

Guardaci ben! Ben son, ben son Beatrice. / Come degnasti d’accedere al monte? / non sapei tu che qui è l’uom felice, olha-nos bem! Sou eu, sou eu mesma, Beatriz. Como te dignaste a subir ao monte? Não sabias que aqui o homem é feliz?
Cantos XXX a XXXIII: Beatriz

Esta Beatriz rompe a convenção do trovador, para quem a mulher amada é objeto do canto e não tem voz.

Dante olha para a fonte e, vendo-se nela, desvia os olhos para a relva. A mãe parece altiva ao filho, diz o poeta, como Beatriz lhe pareceu, porque sente o gosto do amargo na piedade áspera. O que derrete o gelo do coração dele não é a acusação dela, é a compaixão dos anjos:

lo gel che m’era intorno al cor ristretto, / spirito e acqua fessi, e con angoscia / de la bocca e de li occhi uscì del petto, o gelo que me estava apertado em volta do coração tornou-se espírito e água, e com angústia saiu do peito pela boca e pelos olhos.
Cantos XXX a XXXIII: Beatriz

Beatriz então dirige as palavras aos anjos para que Dante, que chora do outro lado, entenda a medida de culpa e dor. Diz que ele teve na vida nova tal virtude que todo hábito bom lhe teria dado prova admirável, que ela o sustentou algum tempo com o rosto e o levou consigo voltado à via reta, e o que veio depois:

Quando di carne a spirto era salita, / e bellezza e virtù cresciuta m’era, / fu’ io a lui men cara e men gradita, quando eu tinha subido de carne a espírito, e beleza e virtude tinham crescido em mim, fui menos cara e menos grata a ele.
Cantos XXX a XXXIII: Beatriz

Ele seguiu imagens falsas de bem, as inspirações que ela lhe obteve não valeram, e só restava um recurso:

Tanto giù cadde, che tutti argomenti / a la salute sua eran già corti, / fuor che mostrarli le perdute genti, tão fundo caiu que todos os argumentos para a sua salvação já eram curtos, exceto mostrar-lhe as gentes perdidas.
Cantos XXX a XXXIII: Beatriz

Por isso ela visitou a porta dos mortos e dirigiu, chorando, suas preces ao guia. O Lete não seria passado sem alguma cota de arrependimento que derrame lágrimas.

No canto XXXI do Purgatório ela volta a palavra para Dante, pela ponta, e exige a confissão: diz, diz se isto é verdade, que a tão grande acusação convém que a confissão se junte. Interroga sobre o motivo, pelos desejos dela que o levavam ao bem além do qual nada há, e Dante, entre suspiro e lábios a custo, diz uma frase:

Le presenti cose / col falso lor piacer volser miei passi, / tosto che ’l vostro viso si nascose, as coisas presentes, com o seu falso prazer, voltaram meus passos, assim que o vosso rosto se escondeu.
Cantos XXX a XXXIII: Beatriz

Mesmo sabida a culpa pelo juiz, a acusação que sai da própria face faz, na corte dela, a roda voltar contra o fio. Mas ela pede que Dante leve vergonha agora e, quando ouvir as sereias outra vez, seja mais forte, e então dá o argumento do corpo, o mais duro e o mais íntimo do canto:

Mai non t’appresentò natura o arte / piacer, quanto le belle membra in ch’io / rinchiusa fui, e che so’ ’n terra sparte, nunca natureza ou arte te apresentou prazer como as belas membras em que estive encerrada, e que estão espalhadas na terra.
Cantos XXX a XXXIII: Beatriz

Se o maior prazer lhe faltou com a morte, nenhuma coisa mortal devia atraí-lo; ao primeiro dardo, devia ter-se levantado atrás dela. Manda-o levantar a barba, e terá mais dor olhando. Quando ele consegue, o que vê é o rosto dela voltado à fera de duas naturezas, e ela, sob o véu e além do rio, parece vencer a si mesma, antiga, mais do que vencia as outras quando estava aqui. O arrependimento o pica como a urtiga:

Di penter sì mi punse ivi l’ortica, / che di tutte altre cose qual mi torse / più nel suo amor, più mi si fé nemica, de arrepender-me tanto me picou ali a urtiga que, de todas as outras coisas, a que mais me desviou para o seu amor mais se fez minha inimiga.
Cantos XXX a XXXIII: Beatriz

Ele cai vencido, é recolhido por Matelda e submerso no Lete. Levado depois pelas quatro damas aos olhos dela, vê neles o sol no espelho:

Come in lo specchio il sol, non altrimenti / la doppia fiera dentro vi raggiava, / or con altri, or con altri reggimenti, como o sol no espelho, não de outro modo a dupla fera nele raiava, ora sob um modo, ora sob outro.
Cantos XXX a XXXIII: Beatriz

As três damas do outro lado pedem que ela desvele a boca ao seu fiel, para que discirna a segunda beleza que esconde, e o canto fecha com a pergunta do poeta, que fica sem resposta, sobre quem teria pensamento firme diante dela quando se desvelou no ar aberto.

O canto XXXII do Purgatório começa no outro extremo da escala: depois de dez anos de sede, Dante olha com os olhos fixos até as deusas o desviarem à força para a esquerda. Ao acordar do sono sob a árvore nova, a pergunta é pela ausente:

E tutto in dubbio dissi: «Ov’ è Beatrice?». / Ond’ ella: «Vedi lei sotto la fronda / nova sedere in su la sua radice, e todo em dúvida eu disse: onde está Beatriz? Ela então: vê-la sob a fronde nova, sentada sobre a sua raiz.
Cantos XXX a XXXIII: Beatriz

Ela está sozinha sobre a terra verdadeira, guarda deixada junto ao carro, cercada pelas sete ninfas. Promete e manda no mesmo fôlego:

Qui sarai tu poco tempo silvano; / e sarai meco sanza fine cive / di quella Roma onde Cristo è romano. / Però, in pro del mondo che mal vive, / al carro tieni or li occhi, e quel che vedi, / ritornato di là, fa che tu scrive, aqui serás pouco tempo silvano, e serás comigo sem fim cidadão daquela Roma de que Cristo é romano. Por isso, em proveito do mundo que vive mal, mantém agora os olhos no carro, e o que vires, de volta lá, faz que escrevas.
Cantos XXX a XXXIII: Beatriz

Então Dante vê a águia ferir o carro, a raposa entrar nele (Beatriz a repreende de feias culpas e a põe em fuga), a águia voltar a descer e deixá-lo emplumado de si, o dragão arrancar parte do fundo e o carro, coberto de pluma, brotar cabeças. Sobre o carro assim mudado aparece-lhe:

Sicura, quasi rocca in alto monte, / seder sovresso una puttana sciolta / m’apparve con le ciglia intorno pronte, segura, quase fortaleza em alto monte, sentada sobre ele uma prostituta solta me apareceu, com os olhos prontos em volta.
Cantos XXX a XXXIII: Beatriz

No canto XXXIII do Purgatório ela ouve as ninfas cantar o salmo do lamento e, suspirosa e piedosa, responde com palavras do Evangelho de João: um pouco, e não me vereis; outra vez um pouco, e me vereis. Quando Dante chega perto, ela desfaz o medo e a vergonha com que ele fala, e dá a profecia, que ela mesma chama de obscura:

nel quale un cinquecento diece e cinque, / messo di Dio, anciderà la fuia / con quel gigante che con lei delinque, no qual um quinhentos dez e cinco, enviado de Deus, matará a ladra com aquele gigante que com ela delinque.
Cantos XXX a XXXIII: Beatriz

Manda que ele anote, e que marque aos vivos, cuja vida é um correr à morte, o que viu da árvore agora duas vezes roubada. Quando Dante diz que não se lembra de ter se afastado dela, usa o Lete contra ele:

E se tu ricordar non te ne puoi», / sorridendo rispuose, «or ti rammenta / come bevesti di Letè ancoi; / e se dal fummo foco s’argomenta, / cotesta oblivïon chiaro conchiude / colpa ne la tua voglia altrove attenta, e se não podes te lembrar, respondeu sorrindo, lembra agora como hoje bebeste do Lete; e se da fumaça se infere o fogo, esse esquecimento conclui claramente culpa na tua vontade atenta a outra parte.
Cantos XXX a XXXIII: Beatriz

Daí em diante as palavras serão nuas. Dante pergunta pelas águas, e ela o remete a quem lhe é indicada:

detto mi fu: «Priega / Matelda che ’l ti dica». E qui rispuose, / come fa chi da colpa si dislega, foi-me dito: pede a Matelda que te diga. E aqui respondeu, como faz quem se livra de culpa.
Cantos XXX a XXXIII: Beatriz

Beatriz acolhe a defesa de Matelda com um talvez, manda levar o peregrino ao Eunoé e, no gesto da dama que faz da vontade alheia a sua, confirma que a cena termina como começou: com uma ordem dela que outra cumpre.

Temas que encarna

Beatriz encarna o Amor que julga. O que Virgílio explicou pela razão nos cantos XVII e XVIII ela o aplica a um caso, o de Dante: o desejo mal dirigido que se voltou a coisas presentes com falso prazer logo que o rosto dela se escondeu. A Culpa não vem de fora, é a que o próprio peregrino confessa, e o remédio que a faz sair é a vergonha. A Redenção chega a Dante em duas etapas que ela mesma estabelece, a confissão e o banho nas duas águas, o esquecimento do pecado e a memória do bem feito.

Beatriz muda de função a cada canto da última parte. No canto XXX, juíza; no canto XXXI, mestra do desejo, que usa o próprio corpo como argumento; no canto XXXII, guarda do carro e autora da ordem de escrever; no canto XXXIII, profeta obscura. A mesma mulher é juíza, mestra, guarda e profeta. O que a une é que em cada uma ela fala a Dante como a quem pode responder, e o poema lhe devolve a voz que a lírica anterior negava à mulher amada.

Leituras divergentes

O texto sustenta duas leituras da dureza dela. A primeira é severidade de juíza, que não deixa o réu escapar pela dor alheia, e o gelo só derrete quando os anjos intervêm. A segunda é a dor de quem esperou, que fala em terceira pessoa aos anjos porque não consegue falar a ele de outro modo. O argumento do corpo no canto XXXI também tem duas: severidade de quem fala do próprio corpo sem pudor, ou fidelidade ao que o poeta viveu. O poema não decide.

Relações

  • Dante: o réu a quem ela dá o nome, a acusação, a ordem de escrever e a promessa de uma cidadania.
  • Virgílio: o guia que ela convocou no Limbo e que sai no instante em que ela chega.
  • Matelda: a dama que ela manda levar Dante ao Eunoé e a quem remete a pergunta sobre as águas.
  • Estácio: o poeta que Matelda chama para ir com Dante ao Eunoé.
  • Beatriz: a mesma personagem, vista nas três cânticas.