Quem é
Virgílio é a sombra do poeta de Mântua, autor da Eneida, que guiou Dante pelo Inferno inteiro e continua a guiá-lo na segunda cântica, desta vez como quem não conhece o caminho. No Inferno ele conhecia o caminho; aqui precisa perguntar, raciocinar em voz alta e rezar ao sol, e o poema faz disso uma lição sobre a medida do que a razão alcança. Ele é, na leitura corrente, a razão humana, e o texto lhe dá uma fala própria sobre os dois limites que a definem: a razão chega até onde vê, e o resto é de Beatriz, porque é obra de fé. É também o mestre de dois poetas, Dante e Estácio, que lhe devem o belo estilo e, no caso de Estácio, a fé; e é pagão do Limbo, de modo que acompanha uma subida de que não participa, e o que ele diz do Limbo, no canto III e no canto VII, é o que o poema deixa dele. O que o define de ponta a ponta é o ofício de guiar, e o que o Purgatório mostra é a hora em que o ofício acaba, no canto XXX do Purgatório, quando Dante se volta e o lugar está vazio.
Trajetória
No canto I do Purgatório, quando o velho guardião da praia pergunta quem fugiu da prisão eterna, é Virgílio quem faz Dante se ajoelhar e quem responde por ele. Diz que não vieram por si, que uma dama do céu mandou socorrer aquele homem, e apresenta o peregrino pelo que ele busca, não pelo que fez. Apela depois à ternura, pelo nome da esposa do velho que mora no Limbo, e a resposta o corrige:
Ma se donna del ciel ti move e regge, / come tu di’, non c’è mestier lusinghe: / bastisi ben che per lei mi richegge, mas se uma dama do céu te move e te rege, como dizes, não são precisas lisonjas: basta que em nome dela me peças.
Virgílio entende, cinge o discípulo com o junco e lava-lhe o rosto com o orvalho. No canto II do Purgatório reconhece de longe o anjo barqueiro e manda Dante ajoelhar; às almas que chegam responde que ele e o discípulo são peregrinos como elas. Quando Catão interrompe o canto de Casella, sai com Dante tão depressa quanto elas fogem. No canto III do Purgatório o remorso é dele, e não do discípulo: a pressa lhe tirou a dignidade do passo, e a consciência, que o texto diz digna e limpa, sente amargo um pequeno erro. É nesse canto que ele diz a regra que mais o diz a si:
State contenti, umana gente, al quia; / ché, se potuto aveste veder tutto, / mestier non era parturir Maria, contentai-vos, gente humana, com o quia; pois, se tivésseis podido ver tudo, não era preciso Maria parir.
Depois nomeia Aristóteles e Platão, a gente que desejou sem fruto e recebe eternamente o desejo como luto. A frase fica no meio:
io dico d’Aristotile e di Plato / e di molt’ altri»; e qui chinò la fronte, / e più non disse, e rimase turbato, digo de Aristóteles e de Platão e de muitos outros»; e aqui inclinou a fronte, e não disse mais, e ficou perturbado.
No canto IV do Purgatório mede a montanha com uma regra de peso, não de distância, e se detém no limite do próprio saber:
Ed elli a me: «Questa montagna è tale, / che sempre al cominciar di sotto è grave; / e quant’ om più va sù, e men fa male. / Però, quand’ ella ti parrà soave / tanto, che sù andar ti fia leggero / com’ a seconda giù andar per nave, esta montanha é tal que sempre, ao começar por baixo, é penosa; e quanto mais se sobe, menos mal faz. Por isso, quando ela te parecer tão suave que subir te seja leve como, a favor da corrente, descer de barco.
No canto V do Purgatório repreende o discípulo que se prende à fala dos outros, e no canto VI do Purgatório responde ao que Dante lhe pergunta sobre a oração: a escrita dele é clara, e a esperança das almas não falha. Quando chega ao limite do que a razão dele alcança, nomeia pela primeira vez a mulher que virá depois:
Non so se ’ntendi: io dico di Beatrice; / tu la vedrai di sopra, in su la vetta / di questo monte, ridere e felice, não sei se entendes: falo de Beatriz; tu a verás lá em cima, no cume deste monte, rindo e feliz.
O abraço de Sordello, que se ergue ao nome de Mântua, é o de um patrício. O canto VII do Purgatório é o canto em que Virgílio diz o próprio nome, e o abraço passa a ser o de um discípulo:
«O gloria di Latin», disse, «per cui / mostrò ciò che potea la lingua nostra, / o pregio etterno del loco ond’ io fui, ó glória dos latinos, disse, por quem a nossa língua mostrou o que podia, ó louvor eterno do lugar de onde fui.
É ali também que diz a perda que o define:
Non per far, ma per non fare ho perduto / a veder l’alto Sol che tu disiri / e che fu tardi per me conosciuto, não por fazer, mas por não fazer perdi o poder ver o alto Sol que tu desejas e que por mim foi conhecido tarde.
Pede ao mantuano um indício do lugar em que o Purgatório começa de verdade, ouve que lugar certo não há posto, e vê o vale dos príncipes sem poder entrar nele: a escuridão, diz Sordello, embaraça a vontade com o não poder. No canto VIII do Purgatório, ao anoitecer, é ele quem explica o céu a Dante, as quatro estrelas de manhã e as três que subiram agora, e é nas costas dele que o discípulo se aperta quando Sordello anuncia a serpente. No canto IX do Purgatório conta o que o sono escondeu: Luzia levou Dante dormindo, e ele seguiu os passos dela.
venne una donna, e disse: “I’ son Lucia; / lasciatemi pigliar costui che dorme; / sì l’agevolerò per la sua via”., veio uma mulher e disse: eu sou Luzia; deixai-me pegar este que dorme, que assim lhe facilito o caminho.
Nos cantos da soberba Virgílio é o guia prático. No canto X do Purgatório manda usar um pouco de arte para acompanhar a fenda que se move; no canto XI do Purgatório pede às almas a escada mais curta e explica que o companheiro, ainda de carne, é lento para subir, contra a vontade dele; no canto XII do Purgatório interrompe a solidariedade de Dante com Oderisi com uma frase de náutica e depois lhe manda olhar o chão como remédio.
Di pari, come buoi che vanno a giogo, / m’andava io con quell’ anima carca, / fin che ’l sofferse il dolce pedagogo. / Ma quando disse: «Lascia lui e varca; / ché qui è buono con l’ali e coi remi, / quantunque può, ciascun pinger sua barca»;, lado a lado, como bois que vão ao jugo, eu andava com aquela alma carregada, enquanto o doce pedagogo o consentiu. Mas quando ele disse: deixa-o e segue; pois aqui é bom, com asas e com remos, quanto se pode, cada um impelir a sua barca.
Na cornija da inveja é ele que reza ao sol, porque não tem outro guia à vista, com uma cláusula de cautela que o torna modesto:
«O dolce lume a cui fidanza i’ entro / per lo novo cammin, tu ne conduci», / dicea, «come condur si vuol quinc’ entro. / Tu scaldi il mondo, tu sovr’ esso luci; / s’altra ragione in contrario non ponta, / esser dien sempre li tuoi raggi duci»., ó doce luz, em quem confio ao entrar neste caminho novo, conduz-nos, dizia, como aqui dentro se quer ser conduzido. Tu aqueces o mundo, tu brilhas sobre ele; se outra razão não pesa em contrário, teus raios devem ser sempre guias.
Explica as vozes, que são o açoite feito de amor, e no canto XIV do Purgatório interpreta as duas vozes do freio com a imagem do céu que gira e do olho que só vê a terra:
Chiamavi ’l cielo e ’ntorno vi si gira, / mostrandovi le sue bellezze etterne, / e l’occhio vostro pur a terra mira; / onde vi batte chi tutto discerne»., o céu vos chama e gira em torno de vós, mostrando-vos as suas belezas eternas, e o vosso olho só olha para a terra; por isso vos bate quem tudo discerne.
No canto XV do Purgatório responde à pergunta sobre os bens que a companhia não reduz com duas imagens de luz e de espelho, e reconhece o limite:
E quanta gente più là sù s’intende, / più v’è da bene amare, e più vi s’ama, / e come specchio l’uno a l’altro rende. / E se la mia ragion non ti disfama, / vedrai Beatrice, ed ella pienamente / ti torrà questa e ciascun’ altra brama., e quanta mais gente lá em cima se entende, mais há ali para bem amar, e mais se ama, e como espelho um ao outro devolve. E se a minha razão não te sacia, verás Beatriz, e ela plenamente te tirará esta e qualquer outra fome.
No canto XVI do Purgatório oferece o ombro a Dante cego pela fumaça. O centro do poema, o canto XVII do Purgatório, é seu: a lição do amor, em que o amor natural nunca erra e o de ânimo erra por mau objeto, por pouco ou por demasiado vigor. Ele a dá como quem demonstra, por exclusão, e começa por um princípio que põe o criador e a criatura no mesmo enunciado:
Né creator né creatura mai», / cominciò el, «figliuol, fu sanza amore, / o naturale o d’animo; e tu ’l sai, nem criador nem criatura, filho, jamais foi sem amor, natural ou de ânimo; e tu o sabes.
Lo naturale è sempre sanza errore, / ma l’altro puote errar per malo obietto / o per troppo o per poco di vigore, o natural é sempre sem erro, mas o outro pode errar, por mau objeto ou por demasiado ou por pouco vigor.
No canto XVIII do Purgatório completa a lição com a imagem da cera e do selo, e responde à objeção de Dante com o poder de reter o amor, que Beatriz chamará de nobre virtude, o livre-arbítrio. É nesse canto que traça o limite com a frase mais lembrada dele:
Quanto ragion qui vede, / dir ti poss’ io; da indi in là t’aspetta / pur a Beatrice, ch’è opra di fede, quanto a razão aqui vê, posso dizer-te; dali em diante espera só por Beatriz, pois é obra de fé.
No canto XIX do Purgatório dá a Dante o modo de sair da sereia do sonho. Rasga as vestes dela, mostra o ventre e acorda o discípulo pelo cheiro, e depois o manda bater os calcanhares no chão e olhar o chamariz que o Rei eterno gira. No canto XXI do Purgatório responde à saudação de Estácio com um voto, que a corte verdadeira o ponha em paz entre os bem-aventurados, ela que o relega ao exílio eterno. Quando Estácio se abaixa para lhe abraçar os pés, recusa com uma razão:
Frate, / non far, ché tu se’ ombra e ombra vedi». / Ed ei surgendo: «Or puoi la quantitate / comprender de l’amor ch’a te mi scalda, / quand’ io dismento nostra vanitate, / trattando l’ombre come cosa salda, irmão, não faças, que és sombra e sombra vês. E ele, levantando-se: agora podes compreender a quantidade do amor que por ti me aquece, quando esqueço a nossa vaidade, tratando as sombras como coisa sólida.
Ouve de Estácio o que ele sabe do próprio poema:
de l’Eneïda dico, la qual mamma / fummi, e fummi nutrice, poetando: / sanz’ essa non fermai peso di dramma. / E per esser vivuto di là quando / visse Virgilio, assentirei un sole / più che non deggio al mio uscir di bando, da Eneida digo, que foi mãe para mim e foi ama, poetando: sem ela eu não teria fixado peso de dracma. E por ter vivido lá quando viveu Virgílio, consentiria mais um sol do que devo à minha saída do exílio.
O canto XXII do Purgatório é o canto em que Virgílio recebe do outro lado a medida do que fez. Ele começa pelo elogio da chama que acende outra chama, e Estácio devolve a imagem mais dura de todas, a do homem que carrega a luz atrás e a si não aproveita:
Amore, / acceso di virtù, sempre altro accese, / pur che la fiamma sua paresse fore, o amor, aceso de virtude, sempre outro acendeu, contanto que a sua chama parecesse por fora.
Facesti come quei che va di notte, / che porta il lume dietro e sé non giova, / ma dopo sé fa le persone dotte, / quando dicesti: ‘Secol si rinova; / torna giustizia e primo tempo umano, / e progenïe scende da ciel nova, fizeste como quem vai de noite, que leva o lume atrás e a si não aproveita, mas depois de si faz doutas as pessoas, quando disseste: o século se renova; torna a justiça e o primeiro tempo humano, e uma nova progênie desce do céu.
A resposta de Virgílio quando Estácio pergunta onde estão os poetas latinos é sem queixa, e diz o Limbo como uma conversa:
Costoro e Persio e io e altri assai», / rispuose il duca mio, «siam con quel Greco / che le Muse lattar più ch’altri mai, / nel primo cinghio del carcere cieco; / spesse fïate ragioniam del monte / che sempre ha le nutrice nostre seco, estes, e Pérsio, e eu, e muitos outros, estamos com aquele grego que as Musas amamentaram mais que a ninguém, no primeiro recinto do cárcere cego; muitas vezes falamos do monte que sempre tem consigo as nossas amas.
No canto XXIII do Purgatório Dante o nomeia a Forese e diz que o acompanhará até onde estiver Beatriz, e que dali Virgílio fica de fora:
Tanto dice di farmi sua compagna / che io sarò là dove fia Beatrice; / quivi convien che sanza lui rimagna. / Virgilio è questi che così mi dice, tanto diz que me fará sua companhia, que eu serei lá onde estiver Beatriz; ali convém que sem ele eu fique. Este que assim me diz é Virgílio.
No canto XXV do Purgatório, perguntado por Dante sobre a magreza das sombras, dá duas imagens e entrega a resposta a Estácio, médico das feridas do discípulo.
O canto XXVII do Purgatório é a última e maior cena dele. Diante do muro de fogo, usa três argumentos de razão, a chama é tormento e não morte, Gerião já foi atravessado, a barra do manto não queima, e nenhum move o discípulo. Muda de tom, um pouco perturbado, e usa o único que lhe resta:
Or vedi, figlio: / tra Bëatrice e te è questo muro, vê agora, filho: entre Beatriz e ti está este muro.
Entra primeiro no fogo, pede a Estácio que venha atrás, vai falando de Beatriz para confortar o discípulo e promete no dia seguinte o doce pomo que busca o cuidado dos mortais. Na última fala, no topo da escada, abre mão do ofício:
Tratto t’ho qui con ingegno e con arte; / lo tuo piacere omai prendi per duce; / fuor se’ de l’erte vie, fuor se’ de l’arte, trouxe-te até aqui com engenho e com arte; toma agora o teu prazer por guia; estás fora dos caminhos íngremes, estás fora dos estreitos.
Non aspettar mio dir più né mio cenno; / libero, dritto e sano è tuo arbitrio, / e fallo fora non fare a suo senno: / per ch’io te sovra te corono e mitrio, não esperes mais minha palavra nem meu aceno; livre, reto e são é o teu arbítrio, e seria erro não agir segundo o seu querer: por isso eu te coroo e mitro sobre ti mesmo.
Depois não fala mais. No canto XXVIII do Purgatório ri com Estácio quando Matelda diz que os poetas antigos talvez tenham sonhado este lugar; no canto XXIX do Purgatório olha com espanto igual ao de Dante as luzes da procissão. No canto XXX do Purgatório Dante, que se voltara a ele como o menino à mãe para dizer que reconhece a antiga chama, acha o lugar vazio:
Ma Virgilio n’avea lasciati scemi / di sé, Virgilio dolcissimo patre, / Virgilio a cui per mia salute die’mi, mas Virgílio nos tinha deixado privados de si, Virgílio doce pai, Virgílio a quem me dei para minha salvação.
Temas que encarna
Virgílio encarna o alcance da razão, e o Purgatório faz do seu limite um tema. O tema da Redenção passa por ele no avesso: guia de quem sobe, ele próprio não sobe, e diz isso sem queixa, pelo que não fez e não pelo que fez. Destino e livre-arbítrio é a doutrina que o canto XVII e o canto XVIII desenvolvem pela boca dele, e que entrega a Beatriz no ponto em que a razão cessa. A Arte é o campo em que a dívida de Estácio e a de Dante o fazem cair no meio de dois poemas: ele é o poeta que acende a chama e o guia que não vê a luz que passa a outros.
Em nenhum canto o poema o rebaixa. Ele erra de caminho, se impacienta, se perturba, e mesmo assim a sua palavra é a mais confiável do monte, porque diz a verdade até onde a razão vê e diz onde isso termina. O que a cântica faz com ele é quase um luto antecipado, que Dante conta a Forese antes de acontecer e chora quando acontece.
Leituras divergentes
Duas leituras do que Virgílio sente quando se cala, no canto III: ele fala só dos mestres que conheceu no Limbo, ou fala também de si, e o baixar da fronte sustenta a segunda. Duas leituras da imagem de Estácio, no canto XXII: homenagem a quem o fez poeta e cristão, ou constatação sem amargura de que o guia ficou fora da luz que passou a outros. O poema oferece as duas, e o texto não escolhe.
Relações
- Dante: o discípulo que ele leva até o topo da escada, a quem diz que é livre, reto e são, e de quem se despede sem dizer adeus.
- Estácio: o poeta que lhe deve a fé e a poesia, e que fala por ele quando a explicação ultrapassa o que a razão alcança.
- Beatriz: a mulher que o mandou ao socorro de Dante e que ele nomeia ao chegar ao limite do que sabe.
- Sordello: o patrício de Mântua, que se ergue ao nome da terra e se abaixa ao nome do poeta.
- Catão: o guardião que não cede à ternura mas cede à autoridade da dama do céu.
- Virgílio: o mesmo guia na primeira cântica, onde conhecia o caminho.