O tema na obra
A redenção é o que o Purgatório existe para fazer, e o poema a define no primeiro canto não por um lugar nem por uma pena, mas por duas ações do espírito: purgar-se e tornar-se digno de subir. A mudança vem antes da subida e é a condição dela.
e canterò di quel secondo regno / dove l’umano spirito si purga / e di salire al ciel diventa degno, e cantarei aquele segundo reino onde o espírito humano se purga e se torna digno de subir ao céu.
O resto da cântica mostra como essa mudança acontece, e o faz em três registros. O primeiro é o da demora. No Antepurgatório quem chegou tarde ao arrependimento espera fora da porta, e a espera é medida em tempo: Belacqua adiou os bons suspiros até o fim e agora tem de ver o céu girar fora dele tanto quanto durou a demora em vida, a menos que a oração de um coração em graça o ajude; Manfredi, excomungado, espera trinta vezes o tempo em que foi presunçoso. O segundo registro é o do corpo e da vontade. Na montanha, o pecado é escrito na testa em sete P e é apagado a cada cornija; o peso que se sente no começo alivia à medida que se sobe, até que subir seja tão leve quanto descer de barco, e Estácio diz que a prova de que uma alma está limpa é só o querer, que a surpreende e lhe vale.
E io, che son giaciuto a questa doglia / cinquecent’ anni e più, pur mo sentii / libera volontà di miglior soglia: / però sentisti il tremoto e li pii / spiriti per lo monte render lode / a quel Segnor, che tosto sù li ’nvii, e eu, que jazi nesta dor quinhentos anos e mais, só agora senti livre vontade de melhor soleira: por isso sentiste o terremoto e os espíritos pios pelo monte render louvor àquele Senhor, que logo os envie para cima.
O terceiro registro é o do esquecimento e da memória. No alto, o Lete tira a lembrança do pecado e o Eunoé devolve a de todo bem feito, e o segundo só opera se o primeiro foi provado antes. A redenção de Dante passa pelos três: ele é lavado e cingido na praia, marcado com os P na porta e libertado deles a cada cornija, e termina, depois da confissão a Beatriz, lavado de novo e renovado como planta nova.
E se tu ricordar non te ne puoi», / sorridendo rispuose, «or ti rammenta / come bevesti di Letè ancoi; / e se dal fummo foco s’argomenta, / cotesta oblivïon chiaro conchiude / colpa ne la tua voglia altrove attenta, e se não podes te lembrar, respondeu sorrindo, lembra agora como hoje bebeste do Lete; e se da fumaça se infere o fogo, esse esquecimento conclui claramente culpa na tua vontade atenta a outra parte.
O poema trata também da redenção que fica pela metade. Virgílio guia até onde pode e se retira sem subir, e o que ele diz do Limbo é que perdeu o céu não por fazer, mas por não fazer. A cântica deixa, a cada giro, a distância entre o que a razão leva e o que só a graça completa, e o último verso a resolve do lado de Dante: puro e disposto a subir às estrelas.
O último verso no original, que fecha a cântica na mesma palavra com que fecham as outras duas:
puro e disposto a salire a le stelle., puro e disposto a subir às estrelas.
Quem o encarna
Dante é a redenção em curso, de ponta a ponta. Estácio é a que acaba de ser concluída, e o monte treme por isso. Manfredi é a que se obteve no último instante, e Forese Donati é a que a oração dos vivos encurtou. Beatriz é quem a exige e a conduz, e Matelda quem a executa nas águas.
Onde aparece
- canto I: O poeta define o Purgatório como o segundo reino em que o espírito humano se purga e se torna digno de subir ao céu, e Catão manda cingir Dante com um junco e lavar-lhe o rosto.
- canto III: Manfredi conta que se rendeu chorando àquele que perdoa de bom grado e que a espera de quem morre em contumácia da Igreja é trinta vezes o tempo da presunção.
- canto IV: Belacqua explica que o céu tem de girar fora dele tanto quanto durou a demora em vida, a menos que prece de coração em graça o ajude.
- canto V: Os mortos à força dizem que uma luz do céu os fez dar-se conta e que saíram da vida arrependidos e perdoando, pacificados com Deus.
- canto IX: O anjo da porta escreve na testa de Dante sete P e lhe manda lavá-los quando estiver dentro, e lembra que volta para fora quem olha para trás.
- canto XII: Virgílio explica que, quando os P estiverem todos apagados como já está um, os pés serão vencidos pelo bom querer, e Dante descobre com os dedos que lhe restam seis.
- canto XXI: Estácio diz que depois de mais de quinhentos anos sentiu livre a vontade de um limiar melhor, e por isso o monte tremeu.
- canto XXIII: Forese conta que as preces e o pranto de Nella o tiraram da encosta da espera e o libertaram dos outros giros.
- canto XXVII: Virgílio faz Dante atravessar o muro de fogo pelo nome de Beatriz e, no topo da escada, declara livre, reto e são o arbítrio do discípulo.
- canto XXXI: Dante confessa a Beatriz e é submerso no Lete por Matelda, que o abraça pela cabeça e o faz engolir a água.
- canto XXXIII: Dante volta do Eunoé renovado como plantas novas, puro e disposto a subir às estrelas.
Onde as leituras divergem
Northrop Frye cita a carta de Dante a Cangrande, que lê a saída do Egito em quatro níveis, e a redenção do monte corresponde ao terceiro, o sentido moral, a conversão da alma que sai do peso do pecado para o estado de graça:
Se examinamos apenas a letra, o que se apresenta para nós é a partida dos filhos de Israel nos tempos de Moisés; na alegoria, é a redenção pelo Cristo; no sentido moral, a conversão da alma que sai do peso e da miséria do pecado para o estado de graça; e, no sentido anagógico, a partida da santa alma, dessa corrupta escravidão, para a liberdade da glória eterna.(cap. 8, carta de Dante a Cangrande citada por Frye)
O texto sustenta duas leituras do que, no monte, faz a purgação. Na primeira, é a pena: o peso, o fogo, a fome, a curvatura, e Forese chama a mesma coisa de consolo no verso em que a chama de pena. Na segunda, é o querer: Estácio diz que a prova da limpeza é só o querer, e Virgílio, no topo, entrega a Dante o arbítrio. O poema não decide, e deixa a pena e o querer lado a lado, como Forese, que corrige a própria palavra no meio da frase.