O tema na obra
Em Um, Nenhum e Cem Mil a loucura é, antes de tudo, uma palavra que os outros dizem, e o romance mostra o que ela faz a quem a recebe. Vitangelo Moscarda a persegue desde o Livro I, quando nota que querer ficar sem si mesmo, com um estranho em volta, talvez já seja sinal dela, e a recebe de todos os lados depois do primeiro experimento: da multidão que grita à porta de Marco di Dio, do sócio que quer trancá-lo, da mulher que ri do passatempo, do sogro que foge da sala, do juiz que o olha como se olha um doente incurável. Nenhum desses veredictos vem de um exame. A loucura de que o acusam é a de quem para de fazer o que sempre fez, e é por isso que o veredito se repete. O que o romance faz é separar esse veredito do estado interior de quem o recebe, e dar a Vitangelo uma lucidez maior do que a de qualquer dos que o chamam de louco.
No capítulo II do Livro IV ele anuncia o resultado do primeiro experimento antes de contá-lo: o jogo havia de lhe dar não a loucura, e sim o horror da consciência da loucura.
O per dir meglio, quest’orrore: la coscienza della pazzia, fresca e chiara, signori, fresca e chiara come una mattinata d’aprile, e lucida e precisa come uno specchio., ou melhor, este horror: a consciência da loucura, fresca e clara, senhores, fresca e clara como uma manhã de abril, e lúcida e precisa como um espelho.
No capítulo IV do Livro IV, a caminho do banco para buscar os papéis, inverte a medida da razão, e a sabedoria dos outros passa a ser andar na mesma estrada sem notar:
Ma io ero pazzo perchè ne avevo appunto questa precisa e specchiante coscienza, voi che pur camminate per questa medesima strada senza volervene accorgere, voi siete savii, e tanto più quanto più forte gridate a chi vi cammina accanto, mas eu era louco justamente porque tinha esta consciência precisa e especular, os senhores, que andam por esta mesma estrada sem querer perceber, são sábios, e tanto mais quanto mais forte gritam a quem anda ao lado.
No capítulo VII do Livro IV a multidão que o chamava de usurário passa a chamá-lo de louco depois da doação, e a palavra é só um rótulo que troca:
Perchè avevo voluto dimostrare, che potevo, anche per gli altri, non essere quello che mi si credeva., porque eu quisera demonstrar que podia, também para os outros, não ser aquilo que se acreditava que eu fosse.
No capítulo VII do Livro V, ainda sem dizer, descobre a arma que a lucidez lhe dá: um olhar que mostra não ver o que o outro vê perturba qualquer segurança.
Nulla turba e sconcerta più di due occhi vani che dimostrino di non vederci, o di non vedere ciò che noi vediamo, nada perturba e desconcerta mais do que dois olhos vazios que mostrem não nos ver, ou não ver o que nós vemos.
No capítulo VII do Livro VII, na sala do bispo, vê o louco do terraço que quer voar com a coberta vermelha, e se reconhece nele quando o prelado o chama de inofensivo:
Spontaneamente, proprio senza volerlo, mi scappò detto allora: - Come me., espontaneamente, sem querer mesmo, escapou-me então dizer: Como eu.
Pirandello trata a loucura como a posição de quem enxerga o jogo e continua nele. Vitangelo não perde a razão: perde a cumplicidade com a ilusão comum, e a perda é interpretada por todos como doença. O que faz do tema um romance, e não um tratado, é que nenhum dos acusadores precisa ser cínico: cada um, a seu modo, protege alguma coisa, Firbo o crédito do banco, Dida o marido que conhece, o sogro a comodidade em que vivia, o juiz o dique da lei, e de boa-fé vê na conduta dele um perigo. A loucura, no livro, é a palavra que protege a ordem de cada um contra a pergunta de Vitangelo.
Quem o encarna
Vitangelo Moscarda é o louco lúcido. Firbo é a palavra como instrumento: pergunta se Vitangelo enlouqueceu no capítulo V do Livro IV e propõe trancá-lo ou interditá-lo no capítulo I do Livro V. O sogro, no capítulo IV do Livro VI, é a palavra como pânico, e foge berrando a cada proposta de profissão. Marco di Dio é a palavra devolvida: o homem que a cidade tinha por excêntrico grita "louco" ao que lhe dá uma casa. Anna Rosa é a palavra como qualidade: aprova as loucuras e vê em Vitangelo um homem fora do comum. Monsenhor Partanna é a palavra como classificação, e o louco do terraço fica "inofensivo" há anos.
Onde aparece
- Livro I, capítulo IV: Vitangelo adianta que querer estar sem si mesmo, com um estranho em volta, talvez já fosse sinal de loucura.
- Livro I, capítulo VII: O corpo espirra diante do espelho, e Vitangelo vê no reflexo o seu primeiro riso de louco.
- Livro III, capítulo I: As loucuras são necessárias, porque Moscarda não podia agir com coerência sem nunca ter construído um Moscarda próprio.
- Livro IV, capítulo II: O experimento dá a Moscarda o horror da consciência da loucura, clara como uma manhã de abril.
- Livro IV, capítulo V: Vitangelo injuria Firbo com a mulher trancada e se ajoelha para mostrar como todos deveriam ficar diante dos assim chamados loucos.
- Livro IV, capítulo VII: Depois da doação, Marco di Dio e a multidão gritam que Moscarda é louco.
- Livro V, capítulo I: Firbo sustenta que é preciso trancá-lo num manicômio, ou ao menos interditá-lo.
- Livro VI, capítulo IV: O sogro de Vitangelo foge da sala berrando que o genro é louco.
- Livro VII, capítulo IV: Anna Rosa conta que Dida e os sócios reuniram provas para interditá-lo, e aprova as loucuras dele.
- Livro VII, capítulo VII: O bispo chama de inofensivo o louco que quer voar no terraço, e Vitangelo diz que é como ele.
- Livro VIII, capítulo II: O juiz olha Vitangelo como se olha um doente incurável, e ele lhe mostra uma coberta verde.
Onde as leituras divergem
O romance dá duas leituras da loucura de Vitangelo, e as duas aparecem no mesmo capítulo. Numa, é lucidez: o texto diz que ele é louco justamente porque tem uma consciência precisa e especular da estrada, e que os que andam por ela sem perceber são sábios (capítulo IV do Livro IV). Na outra, é um estado que o isola e o destrói: o riso de louco do capítulo VII do Livro I é visto, não sentido, e o desfecho, em que ele entrega tudo e vive num asilo de mendicância, pode ser lido como o preço de não ter encontrado outra palavra para a sua condição. O texto sustenta as duas, e o que o fecho mostra é que a pergunta é menos se ele é louco do que quem tem o direito de dizer.
O romance conhece o risco de uma leitura romântica da loucura, a do louco que vê a verdade, e se defende dela de duas maneiras. Primeiro, Vitangelo duvida de si: no capítulo VIII do Livro V o próprio narrador desconfia da solidez do "quero" que o move. Segundo, o louco do terraço não é sábio nem profeta, é um homem que quis provar a volúpia do voo e que o bispo classifica como inofensivo. O que Vitangelo reconhece nele, no capítulo VII do Livro VII, é o fato de ambos serem tratados como inofensivos, e não de ambos terem razão.