Clavis Libri

Tema em Um, Nenhum e Cem Mil

Deus e o divino

Deus, os deuses e a ação divina: providência, teofania, intervenção dos deuses, o divino que age na história.

O tema na obra

Deus entra tarde em Um, Nenhum e Cem Mil, no Livro VII, e entra de um modo particular: como o nome que Vitangelo Moscarda dá ao ponto vital que o riso de Dida feriu. Até ali o livro tinha falado de nariz, de espelho, de banco e de cem mil Moscardas, sem recorrer a nenhuma instância acima dos homens. No capítulo V do Livro VII, passeando a cadela Bibi nas igrejas de Richieri, recorda que ela queria entrar a todo custo, e que ele lhe explicava que lá dentro há o mais respeitável dos sentimentos humanos. Disso tira a distinção que organiza o tema: há um Deus de dentro, o sentimento que cada um tem ao seu modo, e um Deus de fora, o que tem casa, servidores zelosos e poderes constituídos no mundo. Os homens constroem uma casa para o sentimento porque não lhes basta tê-lo no coração, e querem tocá-lo. O que o romance mostra em seguida é o que acontece quando o Deus de dentro precisa pedir ajuda ao de fora.

No capítulo V do Livro VII, depois de explicar à cadela por que os homens têm igrejas, Vitangelo dá nome ao que sentiu na sala de casa, quando Dida riu:

Quel punto vivo che s’era sentito ferire in me quando mia moglie aveva riso nel sentirmi dire che non volevo più mi si tenesse in conto d’usurajo a Richieri, era Dio senza alcun dubbio: Dio che s’era sentito ferire in me, Dio che in me non poteva più tollerare che gli altri a Richieri mi tenessero in conto d’usurajo., aquele ponto vital que se sentira ferir em mim, quando minha mulher rira ao me ouvir dizer que eu não queria mais ser tido na conta de usurário em Richieri, era Deus, sem dúvida alguma: Deus que se sentira ferido em mim, Deus que em mim já não podia tolerar que os outros, em Richieri, me tivessem na conta de usurário.
Livro VII: O revólver e o bispo

A casa que ele tinha explicado à cadela não tem só a função de abrigar:

Non basta loro averli dentro, nel cuore, i sentimenti: se li vogliono vedere anche fuori, toccarli; e costruiscono loro una casa., não lhes basta tê-los dentro, no coração, os sentimentos: querem vê-los também fora, tocá-los; e constroem para eles uma casa.
Livro VII: O revólver e o bispo

O plano que nasce é prático: o Deus de dentro, que a todos parecerá louco, vai visitar o Deus de fora para pedir proteção.

Bisognava invece che il Dio di dentro, questo Dio che in me sarebbe a tutti ormai apparso pazzo, andasse quanto più contritamente gli fosse possibile a far visita e a chiedere ajuto e protezione al saggissimo Dio di fuori, a quello che aveva la casa e i suoi fedelissimi e zelantissimi servitori e tutti i suoi poteri sapientemente e magnificamente costituiti nel mondo per farsi amare e temere., era preciso, ao contrário, que o Deus de dentro, este Deus que em mim a todos pareceria agora louco, fosse, o mais contritamente possível, fazer uma visita e pedir ajuda e proteção ao sapientíssimo Deus de fora, aquele que tinha a casa e os seus fidelíssimos e zelosíssimos servidores e todos os seus poderes sábia e magnificamente constituídos no mundo para fazer-se amar e temer.
Livro VII: O revólver e o bispo

No capítulo VI do Livro VII ele escolhe como interlocutor um bispo que não é cômodo, e entende por que:

Un vescovo così non è comodo per tutti coloro che han voluto mettere fuori di sè il sentimento di Dio costruendogli una casa fuori, tanto più bella quanto maggiore il bisogno di farsi perdonare., um bispo assim não é cômodo para todos aqueles que quiseram pôr fora de si o sentimento de Deus, construindo para ele uma casa fora, tanto mais bela quanto maior a necessidade de se fazer perdoar.
Livro VII: O revólver e o bispo

No capítulo VII do Livro VII reconhece, na sala do bispo, que o Deus que ele sente não pode ser dito ali, porque seria mais uma prova de loucura, e que o tem de calar:

Il Dio che in me voleva riavere il danaro della banca perchè io non fossi più chiamato usurajo, era un Dio nemico di tutte le costruzioni., o Deus que em mim queria reaver o dinheiro do banco para que eu não fosse mais chamado de usurário era um Deus inimigo de todas as construções.
Livro VII: O revólver e o bispo

No capítulo III do Livro VIII o cônego Sclepis arma a salvação possível, a da penitência pública, e o próprio Vitangelo vê nele a medida de quanto o Deus de fora consegue: alguém que vive inteiro para a casa de Deus.

Ecco: per sè, nessuno., eis: para si, ninguém.
Livro VIII: Sem nome e sem conclusão

O tema não é religioso no sentido doutrinário. Pirandello não pergunta se Deus existe; mostra o que um homem faz do que sente quando precisa de uma razão alta para uma decisão que o mundo chama de loucura. Vitangelo chama de Deus o ponto que não tem outro nome, e o bispo o enquadra como escrúpulo de consciência, o que mostra a distância entre as duas formas: o sentimento que não cabe em nenhuma casa e a casa que não tem lugar para o sentimento. O romance deixa os dois lados sem juízo: o Deus de fora protege Vitangelo da interdição, e a proteção custa o dinheiro, que é o preço da casa.

Quem o encarna

Vitangelo Moscarda é o Deus de dentro, aquele sentimento que cabe no peito e não numa casa, e que a ele parece inimigo de todas as construções. Monsenhor Partanna é o Deus de fora na sua forma mais séria: o bispo austero que aposenta a carruagem e exige das freiras e dos cônegos a observância de todos os deveres. O cônego Dom Antonio Sclepis, diretor do Colégio dos Oblatos, é o servidor zeloso, e o texto o descreve como alguém que exerce a vontade com arte fina, não por proveito próprio, mas pelo mérito que viria à casa de Deus, de quem é servidor fidelíssimo. Vitangelo vê nele o orgulho do próprio poder e do próprio saber, e conclui que querer ser um para si, distinto dos outros, ainda é querer ser alguém. Anna Rosa é quem leva Vitangelo ao bispo: sabe da visita à Abadia e quer que ele fale com Monsenhor a tempo de impedir a interdição (capítulo IV do Livro VII).

Onde aparece

  • Livro VII, capítulo III: As freiras velhas da Abadia acodem piando ao tiro, com um terror que é pela chegada do bispo, não pela ferida.
  • Livro VII, capítulo IV: Anna Rosa sabia que Monsenhor Partanna visitaria as freiras naquela manhã e queria que Vitangelo falasse com ele.
  • Livro VII, capítulo V: O ponto vital ferido em Vitangelo era Deus, que não podia tolerar que o tivessem por usurário.
  • Livro VII, capítulo VI: O bispo austero, a pé, que despede os criados e aposenta a carruagem, é um incômodo para quem construiu a casa de Deus para se fazer perdoar.
  • Livro VII, capítulo VII: O Deus de dentro, inimigo de todas as construções, pede ajuda ao Deus de fora, que constrói, e só a obtém se o dinheiro servir a uma casa para a caridade.
  • Livro VIII, capítulo III: Sclepis planeja a penitência pública e a entrega de tudo a um asilo de mendicância.
  • Livro VIII, capítulo IV: Ao fim, os sinos tocam longe, fora dele, por quem ainda precisa pensar na morte e rezar.

Onde as leituras divergem

O Deus de que Vitangelo fala tem duas leituras, e o texto as deixa de pé. Na primeira, ele sente de fato que Deus se feriu nele, e a decisão de fechar o banco e largar a vida que o sustentava é uma resposta a isso. Na segunda, escolhe esse nome porque não tem outro para o que sente, e porque precisa de uma razão alta para a decisão que o resto do mundo chama de loucura. A leitura do Deus de fora também se divide: para uns, é o poder que tem a casa, os servidores e os meios de proteger Vitangelo; para outros, é um aparato que só acolhe o que cabe em seu cálculo e que traduz o ponto vital em escrúpulo e o dinheiro em obra.

O Deus de dentro de Vitangelo não inventa uma pessoa do nada, como o Matias de O Falecido Matias Pascal tenta fazer: desfaz as que os outros inventaram. Por isso ele é "inimigo de todas as construções", enquanto Matias é um construtor. O ponto em que os dois se aproximam é o último, quando Vitangelo, sem nome e sem espelho, deixa de ter quem lhe dê existência e passa a existir nas coisas. É uma versão do divino sem Deus de fora, e o fim do livro não diz se é a que o romance recomenda.