Clavis Libri

Personagem

Anna Rosa

Quem é

Anna Rosa é uma moça órfã de pai e de mãe, amiga de Dida, que mora com uma velha tia na casa que parece esmagada pelos muros altíssimos da Badìa Grande, o antigo castelo onde ainda vivem as poucas freiras velhas da cidade (capítulo II do Livro VII). Uma dessas freiras, Suor Celestina, é tia dela, irmã do pai, e dizem que é meio louca. Vitangelo Moscarda a conhece pouco, e a ouve nomeada de passagem nos primeiros capítulos (capítulo III do Livro I), até que, no Livro VII, ela passa a ser a pessoa de quem tudo depende: é ela quem o chama, quem lhe conta o que Dida e os sócios do banco armam e quem, no fim, atira nele. Quer que Vitangelo vá até o fim como um perfeito louco, e orgulha-se de ter intuído nele um homem fora do comum (capítulo VIII do Livro VII). O que a move é a impaciência com tudo o que dura, e já teve a tentação de experimentar contra si o revólver que achou no colete do pai (capítulo IV do Livro VII). Sabe o que Dida pensa do marido e o que o banco prepara (capítulo IV do Livro VII). Onde se engana, e por quê: toma o experimento dele por espetáculo de que pode participar sem pagar, e só no instante em que se vê arrastada pelo que ele lhe diz percebe o que aquilo lhe pede.

Trajetória

No capítulo I do Livro VII chega a Vitangelo o bilhetinho dela, convidando-o a ir logo à casa. Ele pesa as razões possíveis, sabendo que ela recusou vários casamentos vantajosos por desprezo ao dinheiro, e conclui que ela não poderia ser a advogada da vantagem de Dida; é um raciocínio exato que o impede de ver a razão do convite.

Per questo “vantaggio„ da salvare Anna Rosa non poteva esser dunque l’avvocato più adatto., para essa “vantagem” a salvar, Anna Rosa não podia ser, portanto, o advogado mais adequado.
Livro VII: O revólver e o bispo

No capítulo II do Livro VII, na casa dela, a criada manda-o à Abadia, onde Anna Rosa está com a tia monja, e ele sente o aviso do que virá. O narrador, que conhece o fim, adianta ao leitor, como já disse aos juízes, de quem foi a culpa:

Nessuna colpa da parte sua. Fui io, o piuttosto ciò che finora è stato materia di queste mie tormentose considerazioni, se l’improvvisa e inopinata avventura a cui quasi senza volerlo mi lasciai andare per un ultimo disperatissimo esperimento, rischiò d’avere una tal fine., nenhuma culpa da parte dela. Fui eu, ou melhor, aquilo que até agora foi a matéria destas minhas considerações atormentadas, que fez a súbita e inesperada aventura a que quase sem querer me deixei levar, por um último e desesperadíssimo experimento, correr o risco de ter tal fim.
Livro VII: O revólver e o bispo

No capítulo III do Livro VII, no parlatório escuro, ele imagina num relâmpago Anna Rosa na horta que não vê, como nunca a viu. Ela abre de repente a porta, de rosto em fogo, os braços cheios de flores, corre pelo corredor e, ao subir um degrau, deixa cair a bolsinha: o revólver dispara e fere o pé dela. Ele a carrega nos braços até a casa dela, sem lhe passar pela cabeça que ela trouxesse o revólver por causa dele.

Mi folgorò in quel bujo il sole che doveva esserci in quell’orto della badìa, che non sapevo dove fosse, ma che certo doveva essere verdissimo; e d’improvviso mi s’illuminò in mezzo a quel verde la figura d’Anna Rosa come non l’avevo mai veduta, tutta un fremito di grazia e di malizia. Fu un baleno., fulminou-me, naquela escuridão, o sol que devia haver naquela horta da abadia, que eu não sabia onde ficava, mas que certamente devia ser verdíssima; e de repente se iluminou, no meio daquele verde, a figura de Anna Rosa como eu nunca a vira, toda um frêmito de graça e de malícia. Foi um relâmpago.
Livro VII: O revólver e o bispo

No capítulo IV do Livro VII ela explica o revólver: achou-o no colete do pai, morto seis anos antes, pequeno, de cabo de madrepérola, e em momentos de sobressalto teve a tentação de experimentá-lo contra si; que tenha mordido o pé e não a têmpora lhe causa um estranho desgosto, e ela chama a arma de má. Explica também o convite: sabia que o bispo visitaria as freiras naquela manhã e queria que Vitangelo falasse com ele a tempo de impedir a interdição, para a qual Firbo, Quantorzo, o pai de Dida e a própria Dida reuniram provas e testemunhas, entre elas Turolla e Marco di Dio. Aprova as loucuras dele, a maior a de largar o banco e uma mulher que sempre lhe foi inimiga, e conta que há tempo tenta fazer Dida entender que ele não é o tolo que ela imagina. Dida, por sua vez, tinha lhe confiado, sorrindo, que o Gengè nutria uma simpatia ardente por Anna Rosa, e foi dessa atribuição que Vitangelo tirou a lei geral:

Perchè, se ci pensate bene, questo è il meno che possa seguire dalle tante realtà insospettate che gli altri ci dànno. Superficialmente, noi sogliamo chiamarle false supposizioni, erronei giudizii, gratuite attribuzioni. Ma tutto ciò che di noi si può immaginare è realmente possibile, ancorchè non sia vero per noi. Che per noi non sia vero, gli altri se ne ridono. È vero per loro. Tanto vero, che può anche capitare che gli altri, se non vi tenete forte alla realtà che per vostro conto vi siete data, possono indurvi a riconoscere che più vera della vostra stessa realtà è quella che vi dànno loro. Nessuno più di me ha potuto farne esperienza., porque, se pensarem bem, isto é o mínimo que pode decorrer das tantas realidades insuspeitadas que os outros nos dão. Superficialmente, costumamos chamá-las suposições falsas, juízos errôneos, atribuições gratuitas. Mas tudo o que se pode imaginar de nós é realmente possível, ainda que não seja verdadeiro para nós. Que não seja verdadeiro para nós, os outros riem. É verdadeiro para eles. Tão verdadeiro que pode até acontecer que os outros, se vocês não se agarrarem firmemente à realidade que por conta própria se deram, os induzam a reconhecer que mais verdadeira do que a sua própria realidade é a que eles lhes dão. Ninguém mais do que eu pôde fazer essa experiência.
Livro VII: O revólver e o bispo

E foi ouvindo-a falar de Dida que ele viu uma Dida diferente da sua, e igualmente verdadeira:

Insomma un’altra Dida; una Dida veramente nemica. Eppure, sono certo certissimo che col suo Gengè ella non fingeva: era col suo Gengè quale poteva essere per lui, perfettamente intera e sincera. Fuori poi della vita che poteva avere con lui, diventava un’altra: quell’altra che ora le conveniva o le piaceva o veramente sentiva di essere per Anna Rosa., enfim, outra Dida; uma Dida verdadeiramente inimiga. E no entanto tenho certeza certíssima de que com o seu Gengè ela não fingia: era com o seu Gengè como podia ser para ele, perfeitamente inteira e sincera. Fora da vida que podia ter com ele, tornava-se outra: aquela outra que agora lhe convinha ou lhe agradava ou que de verdade sentia ser para Anna Rosa.
Livro VII: O revólver e o bispo

No capítulo VIII do Livro VII ela está na cama, com o pé enfaixado e a palidez que lhe deu uma graça nova. Impaciente com tudo o que dura, só do corpo ela se compraz, e se prova diante do espelhinho como uma atriz. Quando ela estuda um sorriso piedoso e o refaz para ele, Vitangelo reage, e lhe diz que não é o espelho dela: para se ver, a vida precisa parar, posar, virar estátua.

Perchè bisogna che lei fermi un attimo in sè la vita, per vedersi. Come davanti a una macchina fotografica. Lei s’atteggia. E atteggiarsi è come diventare statua per un momento. La vita si muove di continuo, e non può mai veramente vedere se stessa. - E allora io, viva, non mi sono mai veduta? - Mai, come posso vederla io. Ma io vedo un’immagine di lei che è mia soltanto; non è certo la sua. Lei la sua, viva, avrà forse potuto intravederla appena in qualche fotografia istantanea che le avranno fatta. Ma ne avrà certo provato un’ingrata sorpresa. Avrà fors’anche stentato a riconoscersi, lì scomposta, in movimento., porque a senhora precisa deter por um instante em si a vida, para se ver. Como diante de uma máquina fotográfica. A senhora posa. E posar é como virar estátua por um momento. A vida se move continuamente, e nunca pode ver verdadeiramente a si mesma. E então eu, viva, nunca me vi? Nunca, como eu posso vê-la. Mas eu vejo uma imagem da senhora que é só minha; certamente não é a sua. A sua, viva, a senhora talvez tenha podido entrever apenas numa fotografia instantânea que lhe tenham feito. Mas certamente terá sentido uma ingrata surpresa. Talvez até tenha custado a reconhecer-se ali, desfeita, em movimento.
Livro VII: O revólver e o bispo

A lição vai até onde a assusta:

Lei non può conoscersi che atteggiata: statua: non viva. Quando uno vive, vive e non si vede. Conoscersi è morire. Lei sta tanto a mirarsi in codesto specchio, in tutti gli specchi, perchè non vive; non sa, non può o non vuol vivere. Vuole troppo conoscersi, e non vive., a senhora só pode se conhecer posando: estátua, não viva. Quando alguém vive, vive e não se vê. Conhecer-se é morrer. A senhora passa tanto tempo se mirando nesse espelho, em todos os espelhos, porque não vive; não sabe, não pode ou não quer viver. Quer demais se conhecer, e não vive.
Livro VII: O revólver e o bispo

Ela pensa longo tempo, e para os dois se abre a visão da solidão irremediável. Pede que ele continue falando, e na incerteza dele acha graça. Quando a diversão passa a uma grande piedade, ele lhe diz palavras de que já não se lembra, nas quais ela sente a ânsia de doar toda a vida que há nele para ser um como ela quisesse e, para si, ninguém. Ela estende os braços e o atrai. Pouco depois ele rola da cama, ferido pelo revólver que ela guardava sob o travesseiro.

Da quel letto poco dopo rotolai, cieco, ferito al petto mortalmente dalla piccola rivoltella ch’ella teneva sotto il guanciale., daquela cama, pouco depois, rolei, cego, ferido no peito mortalmente pelo pequeno revólver que ela mantinha sob o travesseiro.
Livro VII: O revólver e o bispo

No capítulo I do Livro VIII ela confessa ao juiz, sob juramento, que não houve agressão nenhuma, só o fascínio que as considerações dele sobre a vida exerceram sobre ela, e Vitangelo, que dá ao juiz uma versão de acidente, ouve que a justiça já tem a confissão dela:

se Anna Rosa stessa non avesse assicurato con giuramento il giudice che non c’era stata veramente nessuna aggressione da parte mia, ma solo quel tale fascino involontariamente esercitato su lei con le mie curiosissime considerazioni sulla vita: fascino da cui ella s’era lasciata prendere così fortemente, da ridursi a commettere quella pazzia., se a própria Anna Rosa não tivesse assegurado ao juiz, sob juramento, que não houvera de fato nenhuma agressão da minha parte, mas apenas aquele tal fascínio exercido involuntariamente sobre ela pelas minhas curiosíssimas considerações sobre a vida: fascínio de que ela se deixara tomar tão fortemente que chegou a cometer aquela loucura.
Livro VIII: Sem nome e sem conclusão

No capítulo III do Livro VIII o cônego Sclepis fala dela como da moça exaltada aos olhos de quem Vitangelo teria querido se fazer belo, ao protestar que não queria mais ser chamado de usurário. No capítulo IV do Livro VIII ela é absolvida, e Vitangelo acredita que a absolvição se deveu em parte ao riso que se espalhou pelo tribunal quando ele apareceu de boné, tamancos e camisão do asilo.

Temas que encarna

Anna Rosa é a pessoa que leva a sério a tese de Vitangelo e a testa em si. A Aparência e realidade é nela uma pose: o espelhinho e a gaveta de fotografias do capítulo VIII do Livro VII, a coqueteria que prova atitudes, a vida que ela só conhece posando. Quando ele lhe diz que conhecer-se é morrer, não está explicando uma teoria, está dizendo o que ela faz todos os dias. Por isso ela encarna também a Solidão e isolamento: no capítulo VIII do Livro VII a visão que se abre para os dois é a da solidão irremediável, e é o ponto em que o romance deixa de ser sobre ele e passa a ser sobre dois. A Loucura é, para ela, qualidade: aprova as loucuras e vê em Vitangelo um homem fora do comum.

Ela é a única que lhe devolve uma imagem que não o fere: a de um homem fora do comum, capaz de ir às últimas consequências. É a imagem mais confortável que alguém lhe dá no livro, e é também a que exige que ele seja, para ela, alguém. O romance não diz que é por isso que o tiro vem, mas põe as duas coisas no mesmo capítulo.

Leituras divergentes

O texto dá duas razões para o tiro e deixa as duas de pé. A primeira é a de Anna Rosa, que o narrador chama de verdadeira: o horror instintivo e súbito do ato a que se sentia arrastada pelo fascínio do que ele lhe disse. Nessa leitura ela atira contra si mesma, ou contra o impulso, e Vitangelo é o corpo que estava na linha. A segunda, que o texto permite sem afirmar, é que o que a assusta é a vida inteira que ele lhe oferece para ser um como ela quisesse, a entrega sem resto, e o tiro é a recusa. A primeira versão da justiça seria uma terceira, a de agressão brutal por parte dele, e Anna Rosa a desmente sob juramento (capítulo I do Livro VIII).

O que separa as duas leituras é o gesto de estender os braços. Se é o de quem se compadece, o tiro vem de um susto diante do próprio gesto, e a primeira basta. Se é o de quem aceita receber a vida inteira que ele oferece, o tiro vem do peso da oferta: ninguém pode ser um para outra pessoa sem que o outro seja ninguém para si, e é isso que Vitangelo acaba de descrever no mesmo capítulo. A pergunta que o livro deixa é se ela atirou por ter entendido a lição ou por ter se sentido incapaz de segui-la.

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