Em A Montanha Mágica, a neve é a perfeição que mata: na seção "Neve", do capítulo VI, uma tempestade quase leva Hans Castorp, e é perdido nela que ele chega à única resposta clara do romance, a de que o amor, e não a razão, é mais forte que a morte.
No segundo inverno, Hans Castorp compra esquis para ficar a sós com os próprios pensamentos e se afasta dos caminhos batidos. Antes da tempestade, observa os flocos na manga e repara que eles são "regulares em excesso", com uma precisão que lhe parece mortal, como o mistério da própria morte. Surpreendido pela nevasca, adormece junto a um galpão e sonha: primeiro com jovens corteses à beira de um golfo, depois, dentro de um templo, com duas mulheres grisalhas que esquartejam e devoram uma criança.
Entre o sono e a vigília, recusa os dois mestres, chama Naphta e Settembrini de charlatães e decide não conceder à morte poder algum sobre os pensamentos. Mas, de volta, naquela mesma noite já não entende muito bem o que pensou.
Por isso a neve está no centro do livro. É o único lugar em que a resposta aparece, e ela aparece fora do sanatório, a um homem sozinho e semicongelado, vinda de um sonho e não de um debate. O romance dá ao personagem a frase que resolveria tudo e não o deixa ficar com ela.