Clavis Libri

Tema em Dom Quixote

Aparência e realidade

O que parece e o que é: hipocrisia, fingimento, máscara social, ilusão, percepção enganada.

O tema na obra

No romance a aparência não é um engano ocasional, é uma disputa entre quem vê e quem nomeia. Dom Quixote vê o que os livros lhe ensinaram a ver, Sancho Pança diz o nome e o uso das coisas, e o narrador, que sabe o que havia, ora dá razão a um, ora ao outro, ora a ninguém. A disputa tem três tempos. Na Primeira Parte, o fidalgo vê gigantes, exércitos, elmos de ouro e castelos, o escudeiro vê moinhos, rebanhos, bacias e estalagens, e a derrota é sempre explicada por um inimigo encantador. No meio da Segunda, Sancho inverte o jogo: é ele que fabrica a aparência, a camponesa que apresenta como Dulcineia, e o amo, para quem o encanto sempre foi a regra, passa a sofrê-lo na própria visão. No fim, são os duques e os artistas de feira que montam aparências de propósito, e a pergunta deixa de ser o que o fidalgo vê para ser o que cada um quer que os outros vejam.

No capítulo VIII da Primeira Parte, nos moinhos de vento, a disputa aparece inteira em uma cena: o fidalgo anuncia trinta gigantes.

ves allí, amigo Sancho Panza, donde se descubren treinta, o pocos más, desaforados gigantes, con quien pienso hacer batalla y quitarles a todos las vidas, olha ali, amigo Sancho Pança, onde se descobrem trinta, ou pouco mais, desaforados gigantes, com quem penso fazer batalha e tirar a todos a vida.
Primeira Parte: O fidalgo e os moinhos

O escudeiro responde com as peças e o uso do que vê.

aquellos que allí se parecen no son gigantes, sino molinos de viento, y lo que en ellos parecen brazos son las aspas, que, volteadas del viento, hacen andar la piedra del molino, aqueles que ali se veem não são gigantes, e sim moinhos de vento, e o que neles parecem braços são as pás, que, tocadas pelo vento, fazem girar a pedra do moinho.
Primeira Parte: O fidalgo e os moinhos

E o fidalgo fecha o sistema com o mago que explica a derrota sem corrigir a visão.

aquel sabio Frestón que me robó el aposento y los libros ha vuelto estos gigantes en molinos por quitarme la gloria de su vencimiento: tal es la enemistad que me tiene, aquele sábio Frestón que me roubou o aposento e os livros mudou estes gigantes em moinhos para me privar da glória de os vencer: tal é a inimizade que me tem.
Primeira Parte: O fidalgo e os moinhos

No capítulo XVIII da Primeira Parte, nos rebanhos, o narrador diz com todas as letras o que se passa: ele vê em sua imaginação o que não vê nem há.

viendo en su imaginación lo que no veía ni había, vendo em sua imaginação o que não via nem havia.
Primeira Parte: Marcela e a estalagem

Sancho, ao lado, diz o que ouve.

No oigo otra cosa -respondió Sancho- sino muchos balidos de ovejas y carneros, não ouço outra coisa, respondeu Sancho, senão muitos balidos de ovelhas e carneiros.
Primeira Parte: Marcela e a estalagem

No capítulo XXI da Primeira Parte, no elmo de Mambrino, o narrador explica o mecanismo: o fidalgo acomoda tudo o que vê a seus pensamentos cavaleirescos.

todas las cosas que veía, con mucha facilidad las acomodaba a sus desvariadas caballerías y malandantes pensamientos, todas as coisas que via, com muita facilidade as acomodava a suas desvairadas cavalarias e malandantes pensamentos.
Primeira Parte: Os galeotes e a serra

A inversão vem no capítulo X da Segunda Parte. Sancho, sem saber como cumprir o recado que não levou, resolve apresentar ao amo a primeira lavradora que encontrar como Dulcineia, e quando o amo só vê três camponesas sobre três jumentas, a única explicação que lhe resta é a de sempre.

ya que el maligno encantador me persigue, y ha puesto nubes y cataratas en mis ojos, y para sólo ellos y no para otros ha mudado y transformado tu sin igual hermosura y rostro en el de una labradora pobre, si ya también el mío no le ha cambiado en el de algún vestiglo, para hacerle aborrecible a tus ojos, já que o maligno encantador me persegue, pôs nuvens e cataratas nos meus olhos e, só para eles e não para outros, mudou e transformou a tua sem-igual formosura e rosto no de uma lavradora pobre, se é que também o meu não mudou no de algum monstrengo, para me fazer aborrecível aos teus olhos.
Segunda Parte: O livro impresso

O único dado dos sentidos que ele admite contra a ilusão, o cheiro de alho cru, vira prova de que os encantadores tiraram à dama também o bom odor.

Y has también de advertir, Sancho, que no se contentaron estos traidores de haber vuelto y transformado a mi Dulcinea, sino que la transformaron y volvieron en una figura tan baja y tan fea como la de aquella aldeana, y juntamente le quitaron lo que es tan suyo de las principales señoras, que es el buen olor, por andar siempre entre ámbares y entre flores. Porque te hago saber, Sancho, que cuando llegé a subir a Dulcinea sobre su hacanea, según tú dices, que a mí me pareció borrica, me dio un olor de ajos crudos, que me encalabrinó y atosigó el alma, e hás também de notar, Sancho, que esses traidores não se contentaram em ter mudado e transformado a minha Dulcineia, mas a transformaram numa figura tão baixa e tão feia como a daquela aldeã, e juntamente lhe tiraram o que é tão próprio das senhoras principais, que é o bom cheiro, por andarem sempre entre âmbares e entre flores. Porque te faço saber, Sancho, que quando cheguei a subir Dulcineia na sua hacanea, como tu dizes, que a mim me pareceu burra, deu-me um cheiro de alhos crus que me atordoou e envenenou a alma.
Segunda Parte: O livro impresso

No capítulo XI da Segunda Parte, diante do carro das Cortes da Morte, que ele tomou por grande aventura e era uma companhia de comediantes, o fidalgo faz uma concessão.

así como vi este carro, imaginé que alguna grande aventura se me ofrecía; y ahora digo que es menester tocar las apariencias con la mano para dar lugar al desengaño, quando vi este carro, imaginei que me aparecia alguma grande aventura; e agora digo que é forçoso apalpar as aparências para dar lugar ao desengano.
Segunda Parte: Espelhos, leões e Camacho

No capítulo XIV da Segunda Parte, quando derruba o Cavaleiro dos Espelhos e desata o elmo, vê o rosto mesmo do bacharel Sansão Carrasco, e o atribui à magia.

Vio, dice la historia, el rostro mesmo, la misma figura, el mesmo aspecto, la misma fisonomía, la mesma efigie, la pespetiva mesma del bachiller Sansón Carrasco, viu, diz a história, o rosto mesmo, a mesma figura, o mesmo aspecto, a mesma fisionomia, a mesma efígie, a perspectiva mesma do bacharel Sansão Carrasco.
Segunda Parte: Espelhos, leões e Camacho

No capítulo XXIII da Segunda Parte, na gruta de Montesinos, o fidalgo se apalpa para provar que estava desperto, e o teste só mostra que está desperto enquanto se examina.

vi que no dormía, sino que realmente estaba despierto [...] me certificaron que yo era allí entonces el que soy aquí ahora, vi que não dormia, e sim que estava realmente desperto [...] me certificaram de que eu era ali naquele momento o que sou aqui agora.
Segunda Parte: Montesinos e o retábulo

No capítulo XXVI da Segunda Parte, no retábulo de mestre Pedro, ele acomete as figuras de pasta. O dono do teatro grita que os mouros que ele derruba não são mouros verdadeiros.

estos que derriba, destroza y mata no son verdaderos moros, sino unas figurillas de pasta. ¡Mire, pecador de mí, que me destruye y echa a perder toda mi hacienda!, estes que derruba, destroça e mata não são mouros verdadeiros, e sim umas figurinhas de pasta. Olhe, pobre de mim, que me destrói e me arruína toda a fazenda!
Segunda Parte: Montesinos e o retábulo

O fidalgo responde com a teoria do encantador que põe as figuras como são e logo as muda.

estos encantadores que me persiguen no hacen sino ponerme las figuras como ellas son delante de los ojos, y luego me las mudan y truecan en las que ellos quieren [...] que Melisendra era Melisendra, don Gaiferos don Gaiferos, Marsilio Marsilio, y Carlomagno Carlomagno, estes encantadores que me perseguem não fazem senão pôr-me as figuras como elas são diante dos olhos e depois mudá-las e trocá-las nas que eles querem [...] que Melisendra era Melisendra, dom Gaiferos dom Gaiferos, Marsílio Marsílio e Carlos Magno Carlos Magno.
Segunda Parte: Montesinos e o retábulo

No capítulo XXIX da Segunda Parte, no barco encantado, ele concede a Sancho a aparência e lhe tira o valor.

todas las cosas trastruecan y mudan de su ser natural los encantos. No quiero decir que las mudan de en uno en otro ser realmente, sino que lo parece, como lo mostró la experiencia en la transformación de Dulcinea, único refugio de mis esperanzas, todas as coisas trastrocam e mudam de seu ser natural os encantos. Não quero dizer que as mudem de um ser em outro realmente, mas que o parece, como mostrou a experiência na transformação de Dulcineia, único refúgio de minhas esperanças.
Segunda Parte: Montesinos e o retábulo

No capítulo XLI da Segunda Parte, depois do voo do Cravelenho, a verdade vira troca: o fidalgo aceita a mentira do céu de Sancho em troca de que ele aceite a gruta de Montesinos.

Sancho, pues vos queréis que se os crea lo que habéis visto en el cielo, yo quiero que vos me creáis a mí lo que vi en la cueva de Montesinos; y no os digo más, Sancho, pois vós quereis que se vos creia o que vistes no céu, eu quero que vós me creiais a mim o que vi na gruta de Montesinos; e não vos digo mais.
Segunda Parte: Os duques e o Cravelenho

O livro dá três respostas ao que fazer com uma aparência que não se acredita. A de Sancho é nomear: dizer moinho, bacia, rebanho. A do narrador é descrever o mecanismo sem condenar quem o usa: ele "acomodava as coisas". A do fidalgo é a teoria do encantador, que no capítulo XXIX da Segunda Parte chega à sua forma final, em que o que se vê é o que se vê e o encanto é justamente isso. Nenhuma das três vence, e o que o livro faz é pô-las em cena umas contra as outras até que a de Sancho se transforme em instrumento da do amo. Duas leituras: o riso do livro está em ver a teoria se aperfeiçoar a cada refutação; ou o que a teoria ganha em solidez ela perde em necessidade, porque uma aparência que o próprio amo concede já não o ameaça.

Quem o encarna

Dom Quixote é quem vê a mais, e é também quem, no capítulo XI da Segunda Parte, admite que é preciso apalpar as aparências. Sancho é o outro lado, o que vê a menos: no capítulo IX da Segunda Parte, na noite do Toboso, ele solta ao amo, a meio caminho de brincadeira, que a vista e a resposta que trouxe também foram de ouvir dizer, porque sabe quem é Dulcineia como sabe dar um soco no céu, e o amo o mantém preso à mentira antiga.

también fue de oídas la vista y la respuesta que le truje; porque, así sé yo quién es la señora Dulcinea como dar un puño en el cielo, também foi de ouvir dizer a vista e a resposta que lhe trouxe; porque eu sei quem é a senhora Dulcineia como sei dar um soco no céu.
Segunda Parte: O livro impresso

Dulcineia del Toboso é a aparência por excelência: nunca aparece em cena, e quem a conhece, como filha de Lorenzo Corchuelo, é Sancho. O fidalgo a ama de ouvido, sem a ter visto, como diz a Sancho na mesma noite.

¿no te he dicho mil veces que en todos los días de mi vida no he visto a la sin par Dulcinea, ni jamás atravesé los umbrales de su palacio, y que sólo estoy enamorado de oídas y de la gran fama que tiene de hermosa y discreta?, não te disse mil vezes que em todos os dias da minha vida não vi a sem-par Dulcineia, nem jamais atravessei os umbrais do seu palácio, e que só estou enamorado de ouvir dizer e da grande fama que ela tem de formosa e discreta?
Segunda Parte: O livro impresso

Onde aparece

Onde as leituras divergem

Otto Maria Carpeaux vê na oposição entre aparência e realidade a própria substância do gênero romance, e chama por isso o Quixote de romance dos romances.

o contraste entre as aparências e a realidade é a própria substância do gênero "romance". Nesse sentido é o Don Quijote "o romance dos romances".
Carpeaux, História da Literatura Ocidental

Erich Auerbach resiste a que se faça dessa oposição uma profundidade: lida no texto, a cena da Dulcineia encantada é uma brincadeira, e subjugantemente cômica.

Sobre a própria cena da Dulcinéia, Auerbach recusa qualquer profundidade oculta: se ela parece triste ou trágica, é porque foi apresentada assim de propósito por quem a resume; lida no texto de Cervantes, é uma brincadeira. Mas se simplesmente lemos o texto de Cervantes, lemos uma brincadeira, e ela é subjugantemente cômica.
Auerbach, Mimesis

As duas posições têm razão sobre cenas diferentes. A de Carpeaux serve para a Primeira Parte, em que a distância entre o que o fidalgo vê e o que há é o próprio mecanismo do livro e decide o efeito de cada capítulo. A de Auerbach serve para o capítulo X da Segunda Parte, em que a distância é fabricada por Sancho, está à vista do leitor e pede riso antes de pedir sentido. O que as duas deixam de lado é a Segunda Parte depois do capítulo XXIX da Segunda Parte, em que a aparência é negociada: o fidalgo concede, o escudeiro inventa, os duques encenam, e a verdade é aquilo em que as partes acordam por ora.