O tema na obra
O narrador dá nome ao método de Julien Sorel já no capítulo 5 do Livro I, e chama a palavra de horrível: hipocrisia. Julien decora o Novo Testamento em latim e o livro de Maistre sobre o papa sem acreditar num nem noutro, porque memória e encenação são as armas que tem, e a recitação lhe vale o título de senhor na casa do prefeito (cap. 6). Verrières inteira vive do que se vê: a tirania da opinião abre o romance (cap. 1), e o jovem bispo de Agde ensaia bênçãos diante do espelho (cap. 18).
O amor também começa como papel. Julien vai ao quarto da Madame de Rênal pensando no personagem que deve representar (cap. 15) e, no dia seguinte, estuda cada gesto do almoço (cap. 16). Ela aprende a fingir para salvá-lo e dita o plano da carta anônima falsa que desvia a suspeita do marido para Valenod (caps. 20 e 21). No seminário a hipocrisia deixa de ser escolha e vira sistema: ali uma cara de fé cega vale mais que saber, e Julien compõe uma personalidade inteira (cap. 26), sem conseguir esconder a lógica que lhe vale o apelido de Martinho Lutero (cap. 27).
Paris profissionaliza a máscara. Korasoff ensina a fazer sempre o contrário do que esperam (Livro II, cap. 7) e depois entrega o cerco pronto, com seis maços de cartas de amor (cap. 24); Julien as copia para a marechala de Fervaques sem pensar no sentido (cap. 27), e ela responde sem notar que não há relação entre uma carta e outra (cap. 29). Mathilde de La Mole, do outro lado, ama por um modelo que imita (cap. 16).
O livro não opõe a máscara a um rosto verdadeiro que estaria sempre por baixo dela. Mostra que os raros momentos reais de Julien acontecem quando ele se esquece de fingir, sob a tília (Livro I, cap. 9) e na gruta (cap. 12), e que o fim só chega quando a máscara já não serve para nada: na prisão ele passa em revista a religião e a hipocrisia (Livro II, cap. 44), recusa a conversão com alarde que lhe renderia clemência e conta à sra. de Rênal todas as suas fraquezas (cap. 45). A hipocrisia lhe deu a carreira; o que ela lhe custou foi a única coisa que ele descobre ter querido.
Onde aparece
- Livro I, capítulo 1: Uma cidadezinha: O narrador fala da tirania da opinião nas cidadezinhas, e os muros do jardim de Rênal existem para merecer o respeito dos vizinhos.
- Livro I, capítulo 5: Uma negociação: O narrador introduz a palavra hipocrisia como resultado de um raciocínio: Julien decora o Novo Testamento em latim e o livro de Maistre sem acreditar num nem noutro.
- Livro I, capítulo 6: O tédio: A recitação da Bíblia em latim diante dos criados e dos notáveis vale a Julien o título de senhor, e Verrières em peso vai à casa do prefeito ver a maravilha.
- Livro I, capítulo 9: Uma noite no campo: Na noite sob a tília, Julien esquece de fingir e por isso agrada às duas amigas; no dia seguinte pede à sra. de Rênal que lhe traga do colchão, sem olhar, a caixa com o retrato de Napoleão, e a queima.
- Livro I, capítulo 12: Uma viagem: Na gruta ele se sente livre porque ali a hipocrisia não o alcança, e para recusar Fouqué invoca a vocação para o santo ministério.
- Livro I, capítulo 15: O canto do galo: Vai ao quarto dela com o papel de sedutor a pesar-lhe, esquece os planos ao cair em lágrimas e, de volta, pergunta-se se representou bem o papel de homem acostumado a ser brilhante com as mulheres.
- Livro I, capítulo 16: O dia seguinte: No almoço seguinte, estuda cada gesto como um papel e conduz a cena com uma prudência de obra-prima.
- Livro I, capítulo 18: Um rei em Verrières: Julien surpreende o jovem bispo de Agde ensaiando bênçãos diante do espelho antes de mostrar a relíquia ao rei.
- Livro I, capítulo 20: As cartas anônimas: A sra. de Rênal dita o plano da carta anônima falsa, feita de palavras recortadas e coladas em papel vindo da casa de Valenod.
- Livro I, capítulo 21: Diálogo com um mestre: Ela engana o marido com a segunda carta e desvia a fúria dele para Valenod, e Rênal pesa o escândalo pelo que lhe custaria diante de Verrières.
- Livro I, capítulo 22: Maneiras de agir em 1830: Para mostrar à cidade o que é um padre, Julien constrói uma estante para os livros de Chélan e recita o Novo Testamento no almoço de Valenod.
- Livro I, capítulo 25: O seminário: O exame de entrada revela larga ciência da Escritura, ignorância dos Padres da Igreja e o livro de Maistre sobre o papa recitado de cor.
- Livro I, capítulo 26: O mundo ou o que falta ao rico: Julien descobre que uma cara de fé cega vale mais que saber e passa a compor uma personalidade nova, até no modo de olhar e de comer.
- Livro I, capítulo 27: Primeira experiência da vida: Mal progride na hipocrisia de gestos, e a lógica que o distingue lhe vale o apelido de Martinho Lutero.
- Livro I, capítulo 30: Um ambicioso: Julien entra de madrugada no quarto da sra. de Rênal e só a faz ceder anunciando, com frieza calculada, que parte para sempre.
- Livro II, capítulo 2: Ingresso na sociedade: O sapateiro registra o recém-chegado como sr. Julien de Sorel, e o marquês manda que compre mais vinte e duas camisas.
- Livro II, capítulo 4: A mansão de La Mole: No salão vale a regra de não falar de política nem de nada que seja estabelecido, e a conversa se sustenta pela maledicência.
- Livro II, capítulo 5: A sensibilidade e uma grande piedade: No espírito de Julien a ideia de religião está ligada à hipocrisia e à esperança de ganhar dinheiro, e o conde Altamira, liberal e devoto, o surpreende.
- Livro II, capítulo 6: Modo de pronunciar: O homem que insulta Julien no café usa os cartões que roubou do patrão, e Beauvoisis encobre o ridículo do duelo com o boato de que Julien é filho natural de um fidalgo.
- Livro II, capítulo 7: Uma crise de gota: Korasoff lhe ensina a fazer sempre o contrário do que esperam, e o traje azul muda o lugar de Julien na casa a cada noite.
- Livro II, capítulo 16: Uma hora da manhã: Na noite da escada, o entusiasmo de Mathilde é deliberado: o amor apaixonado ainda é um modelo que ela imita.
- Livro II, capítulo 24: Estrasburgo: Korasoff dá a receita do cerco, mostrar-se o contrário do que esperam, e entrega seis maços de cartas de amor prontas.
- Livro II, capítulo 25: O ministério da virtude: D. Diego Bustos empresta a Julien quatro cartas da marechala de Fervaques para que ele conheça o estilo dela.
- Livro II, capítulo 26: O amor moral: Diante da marechala, Julien fala muito bem, mas só para atingir a alma de Mathilde, e segue à risca o roteiro de entrega das cartas.
- Livro II, capítulo 27: Os melhores cargos da Igreja: Julien copia as cartas sem pensar no sentido e percebe que as da própria marechala são igualmente vagas.
- Livro II, capítulo 28: Manon Lescaut: Julien elogia o balé de Manon Lescaut só por achá-lo insignificante, e uma carta copiada sem atenção conserva Londres e Richmond no lugar de Paris e Saint-Cloud.
- Livro II, capítulo 29: O tédio: A marechala responde às cartas copiadas sem notar que não há relação entre elas, e Mathilde encontra na gaveta de Julien oito ou dez cartas dela não abertas.
- Livro II, capítulo 31: Amedrontá-la: Julien força duas horas de leitura das Memórias de Santa Helena até decidir amedrontá-la, e disfarça um deslize de ternura dizendo que aquelas frases foram feitas para outra mulher.
- Livro II, capítulo 32: O tigre: Julien só se entrega à felicidade quando Mathilde não pode ler seu olhar, e cumpre a regra de lhe dizer de vez em quando uma palavra dura.
- Livro II, capítulo 35: Uma tormenta: A carta da sra. de Rênal ao marquês acusa Julien de ter subido pela mais consumada hipocrisia e pela sedução de uma mulher fraca.
- Livro II, capítulo 43: Julien descobre que a carta ao marquês foi escrita pelo jovem padre confessor da sra. de Rênal, e um padre intrigante reza ladainhas na lama à porta da prisão diante da multidão.
- Livro II, capítulo 44: Sozinho na cela, Julien passa em revista a religião e a hipocrisia e conclui que os salões vivem de crimes iguais aos dos galerianos.
Passagens
O nome do método, apresentado pelo narrador como resultado de um raciocínio:
Antes disso, no mesmo capítulo, vem a explicação do método:A palavra surpreende os leitores? Até chegar a essa palavra horrível, a alma do jovem camponês teve de percorrer um bom caminho.
O momento em que a máscara cai, e Julien agrada exatamente por isso:
Cap. IX. Na noite no jardim, depois de segurar a mão da sra. de Rênal:— Para falar a verdade, estou me sentindo um pouco indisposta, mas o ar fresco me faz bem. Essas palavras confirmaram a felicidade de Julien, que nesse momento era extrema: falou, esqueceu de fingir, pareceu um homem amabilíssimo às duas amigas que o escutavam.
No seminário, a regra do lugar, descoberta com amargura:
Julien percebe que seus primeiros passos foram equivocados: a ciência e a lógica, que o distinguiram em Verrières, aqui não valem, e o momento em que ele entende a regra do lugar está nesta constatação amarga:Então a ciência não vale nada aqui? [...] Meu único mérito consistia em [...] captar essas baboseiras. [...] E eu era tolo em me orgulhar!
O que Korasoff chama de grande princípio do século:
lembre-se do grande princípio do século: mostre-se o contrário do que esperam do senhor. Aja exatamente tal como agia oito dias antes de ser honrado com seus favores.
E o lado de Mathilde, que também imita:
Na verdade, seu entusiasmo era um pouco deliberado. O amor apaixonado, mais do que uma realidade, ainda era um modelo que se imitava.