Clavis Libri

Tema em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Aparência e realidade

O que parece e o que é: hipocrisia, fingimento, máscara social, ilusão, percepção enganada.

O tema na obra

A distância entre o que se mostra e o que se é aparece cedo. No capítulo XV, Marcela diz que vendera muita vez as aparências e guardava a realidade para poucos; no capítulo XXIV, Brás Cubas confessa que da Universidade só decorou fórmulas e vocabulário e que refletia as opiniões de um cabeleireiro de Módena.

O adultério com Virgília vive de manter a fachada. No capítulo LXV, Brás passa em revista a floresta de olheiros e escutas; no capítulo LXXXII, o trocadilho do cirurgião Garcez mostra que o caso era público; no capítulo XCVI, Virgília chama de calúnia a carta anônima diante do marido; no capítulo CXII, Brás julga que Lobo Neves tem medo da opinião.

O livro também desfaz a aparência pela doença e pelo tempo: no capítulo XLI, Brás vê o rosto de Virgília comido pelas bexigas que devastaram o de Marcela; no capítulo CXXVII, o véu turco da gravura descobre a cara inteira; no capítulo CXXXIV, aos cinquenta anos, a rejuvenescência está nos outros.

Outras cenas mostram a aparência fabricada de propósito. No capítulo XXXV, Eugênia diz a Brás que ele faz bem em fugir ao ridículo de casar com ela e não acredita nos juramentos que ele faz. No capítulo XXXVIII, Brás reencontra Marcela velha, marcada pelas bexigas e dona de uma ourivesaria, e ela lhe oferece joias a preço baixo depois de reconhecê-lo. No capítulo LVIII, depois de confessar a Brás a falta de glória pública, Lobo Neves recebe dois deputados e um chefe político com alegria, e em meia hora ninguém diria que ele não é o mais afortunado dos homens. No capítulo LXXXVII, Jacó Tavares, o homem mais probo que Brás conheceu, nega estar em casa ao importuno Dr. B. e defende a mentira social, dizendo que a paz das cidades custa embaçadelas recíprocas.

Quase toda aparência no livro é combinada: Marcela vende a dela, Lobo Neves a veste de alegria diante dos visitantes, Jacó Tavares a defende como condição da paz das cidades. Brás conta essas aparências como quem as pratica, e o texto sustenta duas leituras do cinismo de defunto, a de lucidez e a de cumplicidade. Quando a realidade irrompe, vem sem aviso, como na alucinação das bexigas, e ele a afasta com uma teoria.

Onde aparece

  • Capítulo XV: Marcela desmente a história da cruz de ouro e protesta contra os presentes de Brás, mas fica com o colar que dizia não querer, depois de tentar jogá-lo à rua.
  • Capítulo XXIV: Brás confessa que da Universidade só decorou fórmulas e vocabulário e que refletia as opiniões de um cabeleireiro de Módena, que se distinguia por não ter nenhuma.
  • Capítulo XXXV: Eugênia diz a Brás que ele faz bem em fugir ao ridículo de casar com ela e não acredita nos juramentos que ele faz.
  • Capítulo XXXVIII: Brás reencontra Marcela velha, marcada pelas bexigas e dona de uma ourivesaria, e ela lhe oferece joias a preço baixo depois de reconhecê-lo.
  • Capítulo XLI: Brás vê de repente o rosto de Virgília comido pelas bexigas, como o de Marcela, faz um gesto de repulsa e logo a vê inteira outra vez.
  • Capítulo LVIII: Depois de confessar a Brás a falta de glória pública, Lobo Neves recebe dois deputados e um chefe político com alegria, e em meia hora ninguém diria que ele não é o mais afortunado dos homens.
  • Capítulo LXV: Brás passa em revista quem desconfia dele e de Virgília, a baronesa, o Viegas, o primo Luís Dutra, algumas senhoras e os criados, e chama o conjunto de floresta de olheiros e escutas.
  • Capítulo LXX: Brás inventa para Dona Plácida uma novela de amores anteriores ao casamento de Virgília, que ela aceita inteira, e em seis meses quem os visse juntos diria que ela era sogra dele.
  • Capítulo LXXXII: Brás espalha que vai ao Norte como secretário, e os ouvintes sorriem com malícia, pois o trocadilho do cirurgião Garcez entre Virgílio e Virgília mostra que o caso era público.
  • Capítulo LXXXVII: Jacó Tavares, o homem mais probo que Brás conheceu, nega estar em casa ao importuno Dr. B. e defende a mentira social, dizendo que a paz das cidades custa embaçadelas recíprocas.
  • Capítulo XCVI: Lobo Neves recebe uma carta anônima que denuncia os dois amantes, e Virgília a chama de calúnia diante do marido e se safa.
  • Capítulo CXII: Brás julga que Lobo Neves tem medo da opinião, e não de Brás, de si, do código ou da consciência, e que ela o obriga a simular a ignorância de antes.
  • Capítulo CXXVII: Brás liga o desabafo de Damasceno a uma gravura de damas de Constantinopla, de véu tão fino que descobre o rosto inteiro, e elogia a Formalidade.
  • Capítulo CXXXIV: Aos cinquenta anos, Brás remoça no baile, mas às quatro da manhã acha os cinquenta anos no fundo do carro e imagina um morcego dizer que a rejuvenescência estava nos outros.

Passagens

Marcela separa o que vende do que guarda.

Vendera muita vez as aparências, mas a realidade, guardava-a para poucos.
Capítulos X a XVI: Infância e Marcela

Brás descreve a opinião que tinha por emprestada.

eu refletia as opiniões de um cabeleireiro, que achei em Módena, e que se distinguia por não as ter absolutamente
Capítulos XVII a XXIV: Coimbra e a morte da mãe

O sorriso contido vira flor à vista de todos.

a princípio, o contentamento, sendo interior, era por assim dizer o mesmo sorriso, mas abotoado; andando o tempo, desabotoou-se em flor, e apareceu aos olhos do próximo. Simples questão de botânica
Capítulos LXXVII a LXXXVII: A presidência e o cimo da montanha

Jacó Tavares defende a mentira como condição da paz social.

a veracidade absoluta era incompatível com um estado social adiantado, e que a paz das cidades só se podia obter à custa de embaçadelas recíprocas
Capítulos LXXVII a LXXXVII: A presidência e o cimo da montanha

Brás atribui ao marido o medo da opinião.

tinha medo - não medo de mim, nem de si, nem do código, nem da consciência; tinha medo da opinião
Capítulos CI a CXVI: O muro, a solda e as folhas velhas

O véu que descobre a cara inteira.

um véu tenuíssimo, que simulava descobrir somente os olhos, e na realidade descobria a cara inteira
Capítulos CXVII a CXXXVI: O Humanitismo, Nhã-loló e os cinquenta anos