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Personagem

Amata

Quem é

Amata é a rainha do Lácio, esposa do rei Latino e mãe de Lavínia. Quer que a filha se case com Turno, o rei dos rútulos, e rejeita o estrangeiro Enéias como genro, dizendo que ele é um exilado que levará a filha num navio. É a defensora mais ruidosa do noivado que o oráculo desfaz, e o poema a mostra em três estados: a rainha que argumenta com o marido, a mulher tomada pelo veneno da fúria Alecto, e a mãe que prefere morrer a ver o genro troiano. O papel dela na Eneida é o de dar à guerra do Lácio uma voz doméstica: o que arrasta o povo é o desejo de manter a filha e o reino com o pretendente já escolhido, e é a sua morte que empurra Turno ao último passo.

Trajetória

No Livro VII, Amata apressa as bodas de Turno com um amor extraordinário, enquanto prodígios travam o casamento. Quando os troianos chegam, a rainha já ardia, consumida por cuidados e iras. Juno, que não pode impedir o casamento de Lavínia com Enéias, manda a fúria Alecto lançar sobre Amata uma serpente que desliza entre as vestes e o peito e sopra nela uma alma de víbora.

Ille inter vestes et levia pectora lapsus / Volvitur attactu nullo, fallitque furentem, / Vipeream inspirans animam, ela, deslizando entre as vestes e o peito liso, enrola-se sem toque algum e ilude a que já se enfurece, soprando-lhe uma alma de víbora.
Livro VII: A chegada ao Lácio

Antes de o veneno dominá-la, Amata tenta convencer o marido com palavras. Pergunta se ele dará a filha a exilados, a um estrangeiro que a levará num navio, e lembra que o próprio Turno descende de gente de Micenas e portanto também é de fora. Latino não cede, e então o veneno a toma: ela corre pela cidade e foge para os montes com a filha, a pretexto de um rito de Baco, e as mulheres latinas a seguem.

Ceu quondam torto volitans sub verbere turbo, / Quem pueri magno in gyro vacua atria circum / Intenti ludo exercent; ille actus habena / Curvatis fertur spatiis: stupet inscia juxta / Impubesque manus, mirata volubile buxum: / Dant animos plagae, como às vezes um pião girando sob o açoite torcido, que meninos atentos ao jogo fazem rodar em grande círculo pelo átrio vazio; impelido pela correia, ele corre em curvas, e a turma imatura, ao lado, olha sem entender, admirada com o buxo que gira: os golpes lhe dão ânimo.
Livro VII: A chegada ao Lácio

No Livro XI, quando a notícia do avanço dos troianos interrompe o conselho, Amata sobe com as mulheres de Laurento ao templo de Palas para pedir que a deusa quebre a lança do invasor. Lavínia a acompanha, de olhos baixos, e o poema a chama de causa de tantos males.

No Livro XII, quando Turno exige selar o pacto do duelo, Amata chora e o detém: diz que ele é a única esperança dela, o repouso da velhice, e que, se ele morrer no combate, ela morrerá junto e não viverá para ver Enéias como genro. O fim vem do mal-entendido: ao ver o fogo nos tetos e nenhum exército de Turno, ela conclui que ele morreu, grita que é a causa, a culpa e a origem dos males e se enforca numa trave.

Infelix pugnae juvenem in certamine credit / Exstinctum, et subito mentem turbata dolore, / Se causam clamat crimenque caputque malorum, a infeliz crê que o jovem morreu no combate e, de repente perturbada na mente pela dor, grita que ela é a causa, a culpa e a origem dos males.
Livro XII: Turno

A morte dela chega a Turno no campo e é uma das razões que o fazem largar o carro e a irmã. Lavínia rasga os cabelos e as faces, e Latino rasga as vestes.

Temas que encarna

Amata encarna a Paixão no sentido do furor: o poema mostra o veneno de Alecto acender nela o que já queimava, e deixa em aberto onde termina uma coisa e começa a outra. Encarna a Guerra pelo lado das mulheres e do lar, que querem a guerra para proteger a filha e a palavra dada, e que são as primeiras a pagar. Encarna Destino e livre-arbítrio por ser a que tenta, com as próprias forças e a de uma deusa, impedir o que o oráculo e os fados já decidiram. E encarna o Império e colonialismo pelo lado de quem recusa o estrangeiro: a oposição dela a Enéias é a resistência de uma terra a quem chega para mudar quem a governa.

O veneno da serpente não cria o ódio de Amata. O narrador diz antes que ela já ardia, e o texto a mostra tentando primeiro convencer Latino com palavras, e só depois que ele resiste o veneno a domina. Mesmo na loucura há cálculo: ela foge com Lavínia para os bosques com um pretexto de rito, o que tira a filha dos troianos. A serpente amplia o que ela já sentia, e o poema não decide até onde ia o que era dela. O fim confirma a leitura: o enforcamento nasce de um erro, a crença de que Turno morreu, e de uma culpa que o texto não explica, que pode ser a de ter alimentado a guerra e o noivado, ou apenas a dor falando.

Relações

  • Latino: o marido, que ela não convence com argumentos e a quem as lágrimas dela depois fazem ceder.
  • Turno: o genro que ela quer, e por quem promete morrer.
  • Lavínia: a filha, que a acompanha ao templo e chora a morte dela.
  • Enéias: o estrangeiro que ela se recusa a aceitar como genro.
  • Juno: a deusa que, por Alecto, acende a fúria dela.