Clavis Libri

Tema em O Cortiço

Corrupção e decadência

O apodrecimento de uma pessoa, de uma instituição ou de uma civilização: corrupção, decadência, declínio.

O tema na obra

O livro anda em duas direções ao mesmo tempo. O dono do cortiço sobe por atos que o texto mostra um a um: a carta de liberdade forjada (capítulo I), as garrafas tomadas ao velho Libório (capítulo XVIII) e a escrava devolvida ao senhor (capítulo XXI, capítulo XXIII). Os que ficam descem: Jerônimo, que perde a energia e entra na emboscada que mata Firmo (capítulo IX, capítulo XV); Piedade, que bebe, é despejada e é abusada na cozinha (capítulo XIX, capítulo XX, capítulo XXII); Pombinha, que casa, se cansa e vira cocote (capítulo XXII).

O narrador conta as quedas pelo vocabulário do meio, e dá às pessoas a parte que o clima lhe tira da escolha: a virada de Jerônimo vem das imposições do meio (capítulo XV), e a de Piedade, de uma natureza que lhe roubou o homem (capítulo XVI). O incêndio do capítulo XVII e a ruína do Cabeça-de-Gato (capítulo XXII) dão a decadência das coisas ao lado da das pessoas.

Em volta dos protagonistas, a decadência tem também rostos menores. Marciana é posta para fora do número 12 e levada ao xadrez a pedido de Romão (capítulo X); a Bruxa, contagiada pela loucura dela, tenta incendiar o cortiço (capítulo XI) e morre sepultada no incêndio do número 88, que realiza o seu sonho de louca (capítulo XVII).

O desfecho deixa o dono sem castigo: o último quadro é a honraria (capítulo XXIII), e a decadência fica distribuída entre os que o ajudaram a subir. O texto sustenta duas leituras que não se excluem. Numa, a queda é obra do lugar, uma engrenagem que não escolhe quem engole (capítulo XX). Na outra, cada um participa do que lhe acontece, como Jerônimo, que sabe que está errado e não paga o colégio da filha (capítulo XIX), ou Pombinha, que protege a filha de Piedade com a simpatia que Léonie teve por ela (capítulo XXII). O livro não decide entre as duas.

Onde aparece

  • Capítulo I: A carta de liberdade que Romão lê a Bertoleza é obra dele, e a estalagem nasce das economias dela e de material furtado.
  • Capítulo IX: Jerônimo perde a energia, troca o vinho pela aguardente e a cama da mulher pela rede, enquanto Piedade recorre à Bruxa e a banhos para recuperá-lo.
  • Capítulo X: Romão manda esvaziar o número 12, onde Marciana, sem fala, fica sentada na rua até um polícia levá-la ao xadrez a pedido dele.
  • Capítulo XI: A Bruxa, contagiada pela loucura de Marciana, tenta incendiar o cortiço com palha no número 12.
  • Capítulo XV: Jerônimo ajuda a matar Firmo na praia, paga os companheiros, fica com a navalha e propõe a Rita partirem juntos, deixando à mulher as economias e o colégio da filha.
  • Capítulo XVI: Piedade culpa a natureza que lhe roubou o homem, e a briga com Rita vira rolo entre brasileiros e portugueses.
  • Capítulo XVII: O incêndio no número 88 realiza o sonho da Bruxa, que morre sepultada; quem arriscava a vida em navalhada guarda colchão e cama velha.
  • Capítulo XVIII: Romão arranca de Libório moribundo as garrafas de dinheiro, diz que teria sido um ato de justiça tomá-las antes e usa o resto nas obras.
  • Capítulo XIX: Piedade bebe parati para enganar os pesares; Jerônimo promete pagar o colégio da filha e não paga.
  • Capítulo XX: Piedade, bêbada, dança para arremedar Rita, e o Pataca, depois de censurá-la, abusa dela na cozinha.
  • Capítulo XXI: Romão descobre que pode restituir Bertoleza ao dono e entrega o serviço a Botelho por duzentos mil-réis.
  • Capítulo XXII: Pombinha, depois de dois anos de casada, vai morar com Léonie; Piedade é despejada e se refugia no Cabeça-de-Gato, que se acanalha à medida que o São Romão se engrandece.
  • Capítulo XXIII: Bertoleza entende a mentira da carta e se fere com a faca; Romão cobre o rosto e logo recebe o diploma de sócio benemérito.

Passagens

O narrador explica a virada de Jerônimo pelo meio.

cedendo às imposições mesológicas, enfarava a esposa, sua congênere, e queria a mulata
Capítulos XV a XVII: Morte de Firmo, briga de Piedade e incêndio

Piedade volta a revolta contra a terra, e não contra o marido.

Parecia rebelar-se contra aquela natureza alcoviteira, que lhe roubara o seu homem para dá-lo a outra, porque a outra era gente do seu peito e ela não.
Capítulos XV a XVII: Morte de Firmo, briga de Piedade e incêndio

O incêndio realiza um desejo antigo da Bruxa.

A Bruxa conseguira afinal realizar o seu sonho de louca: o cortiço ia arder
Capítulos XV a XVII: Morte de Firmo, briga de Piedade e incêndio

Libório prefere rolar moribundo a largar a trouxa.

Libório, por única resposta, arregaçou os beiços, mostrando as gengivas sem dentes e tentando morder a mão que o vendeiro estendia já sobre as garrafas.
Capítulos XVIII a XX: Libório, as obras e a queda de Piedade

Jerônimo sabe que está errado e não paga.

só a ideia de separar-se da amante punha-lhe logo o sangue doido e apagava-se-lhe de novo a luz dos raciocínios
Capítulos XVIII a XX: Libório, as obras e a queda de Piedade

A cadeia continua na filha de Piedade.

A cadeia continuava e continuaria interminavelmente; o cortiço estava preparando uma nova prostituta naquela pobre menina desamparada, que se fazia mulher ao lado de uma infeliz mãe ébria.
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão

Bertoleza entende que a carta era uma mentira.

adivinhou que tinha sido enganada; que a sua carta de alforria era uma mentira, e que o seu amante, não tendo coragem para matá-la, restituía-a ao cativeiro.
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão

Romão não suporta ver o que encomendou.

João Romão fugira até ao canto mais escuro do armazém, tapando o rosto com as mãos.
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão