Clavis Libri

Personagem

Penélope

Quem é

Penélope é a esposa de Odisseu, filha de Icário e mãe de Telêmaco, e é a rainha que segura a casa de Ítaca durante a ausência do marido. Nobres de Ítaca e das ilhas vizinhas a cortejam e consomem a casa, e ela nem recusa o casamento nem o decide. O poema a mostra pela fidelidade e pela astúcia, a métis no feminino, o espelho do marido, e ela testa o que ouve. Chora de dia e de noite, e sabe fazer da espera um instrumento.

Trajetória

No Canto I, Penélope aparece pela primeira vez descendo do quarto, quando Fêmio canta para os pretendentes o retorno doloroso dos aqueus. Pede que ele cante outra coisa, porque o canto lhe lembra o marido, e a fidelidade dela se mostra antes de qualquer prova. Telêmaco a contradiz diante de todos e a manda de volta ao tear e à roca, e ela se espanta, obedece e chora até Atena lhe dar o sono.

τοίην γὰρ κεφαλὴν ποθέω μεμνημένη αἰεί, (1.343), pois sinto falta de uma tal cabeça, lembrando-me sempre dela.
Canto I: O concílio dos deuses e Telêmaco
μῦθος δʼ ἄνδρεσσι μελήσει / πᾶσι, μάλιστα δʼ ἐμοί· τοῦ γὰρ κράτος ἔστʼ ἐνὶ οἴκῳ. (1.358-359), a palavra será assunto dos homens, de todos, e sobretudo meu, pois meu é o poder nesta casa.
Canto I: O concílio dos deuses e Telêmaco

No Canto II, Penélope não está em cena, mas o ardil dela é contado por Antínoo: pediu aos pretendentes que esperassem até que terminasse uma mortalha para o herói Laertes, tecia de dia e desfazia de noite, e enganou os aqueus por três anos, até que uma serva os avisou e ela foi obrigada a terminar. Antínoo conta o fim com a vitória dos pretendentes, e o dado que o poema guarda é o outro, o dos três anos de adiamento. Antínoo exige que Telêmaco mande a mãe embora, e Telêmaco recusa, por causa de Icário e das Erínias da mãe.

κοῦροι ἐμοὶ μνηστῆρες, ἐπεὶ θάνε δῖος Ὀδυσσεύς, / μίμνετʼ ἐπειγόμενοι τὸν ἐμὸν γάμον, εἰς ὅ κε φᾶρος / ἐκτελέσω, μή μοι μεταμώνια νήματʼ ὄληται, / Λαέρτῃ ἥρωι ταφήιον, (2.96-99), jovens, meus pretendentes, já que morreu o divino Odisseu, esperai, ainda que apressados pelas minhas núpcias, até que eu termine um tecido, para que não se percam em vão os fios: uma mortalha para o herói Laertes.
Canto II: A assembleia de Ítaca
ὣς τὸ μὲν ἐξετέλεσσε καὶ οὐκ ἐθέλουσʼ ὑπʼ ἀνάγκης· (2.110), assim ela o concluiu, sem querer, por necessidade.
Canto II: A assembleia de Ítaca

No Canto III, ela não aparece. Nestor conta que Clitemnestra recusou Egisto no início e só cedeu quando o destino dos deuses a prendeu. O canto não faz o paralelo com Penélope, que resiste em Ítaca, e deixa o leitor fazê-lo.

ἡ δʼ ἦ τοι τὸ πρὶν μὲν ἀναίνετο ἔργον ἀεικὲς / δῖα Κλυταιμνήστρη· φρεσὶ γὰρ κέχρητʼ ἀγαθῇσι· (3.265-266), ela, a divina Clitemnestra, de início recusava a ação indecente, pois tinha bons pensamentos no ânimo.
Canto III: Telêmaco em Pilos

No Canto IV, o arauto Médon lhe conta que os pretendentes armaram uma emboscada para Telêmaco, e ela desfalece. A pergunta que faz é por que o filho foi, e a hipótese que formula é que a viagem seja para que o nome dele se apague. Acusa as servas de não a terem acordado, Euricleia confessa que sabia e a aconselha a rezar a Atena, e Penélope reza, lembrando os sacrifícios de Odisseu. Atena manda um fantasma consolá-la com a figura da irmã, que garante a volta do filho e recusa dizer se o marido vive.

κῆρυξ, τίπτε δέ μοι πάϊς οἴχεται; οὐδέ τί μιν χρεὼ / νηῶν ὠκυπόρων ἐπιβαινέμεν, αἵ θʼ ἁλὸς ἵπποι / ἀνδράσι γίγνονται, περόωσι δὲ πουλὺν ἐφʼ ὑγρήν. / ἦ ἵνα μηδʼ ὄνομʼ αὐτοῦ ἐν ἀνθρώποισι λίπηται (4.707-710), arauto, por que meu filho se foi? Não tinha necessidade de subir em naus velozes, cavalos do mar para os homens, que atravessam a vasta água. Será para que nem o seu nome fique entre os homens?
Canto IV: Telêmaco em Esparta
οὐ μέν τοι κεῖνόν γε διηνεκέως ἀγορεύσω, / ζώει ὅ γʼ ἦ τέθνηκε· κακὸν δʼ ἀνεμώλια βάζειν (4.836-837), sobre aquele homem não vou falar até o fim, se vive ou morreu; é mau dizer palavras ao vento.
Canto IV: Telêmaco em Esparta

No Canto V, Penélope não está em cena, mas é o termo de comparação da recusa mais difícil do poema. Calipso oferece a Odisseu a imortalidade, e ele responde que Penélope é inferior a ela em aparência e estatura, porque é mortal, e que ainda assim quer voltar para casa todos os dias.

πότνα θεά, μή μοι τόδε χώεο· οἶδα καὶ αὐτὸς / πάντα μάλʼ, οὕνεκα σεῖο περίφρων Πηνελόπεια / εἶδος ἀκιδνοτέρη μέγεθός τʼ εἰσάντα ἰδέσθαι· / ἡ μὲν γὰρ βροτός ἐστι, σὺ δʼ ἀθάνατος καὶ ἀγήρως. / ἀλλὰ καὶ ὣς ἐθέλω καὶ ἐέλδομαι ἤματα πάντα / οἴκαδέ τʼ ἐλθέμεναι καὶ νόστιμον ἦμαρ ἰδέσθαι (5.215-220), soberana deusa, não te irrites comigo por isto: eu mesmo sei muito bem que a prudente Penélope é inferior a ti no aspecto e na estatura, a quem a olhe de frente; pois ela é mortal, e tu és imortal e sem velhice. Mas, ainda assim, quero e desejo todos os dias voltar para casa e ver o dia do regresso.
Canto V: Calipso e a balsa

Nos Cantos VI, VII, VIII, IX, X e XII, Penélope fica fora de cena. O poema trata da viagem de Odisseu, e a espera dela volta a ser o assunto quando o Hades fala dela.

No Canto XI, a mãe de Odisseu lhe diz, no Hades, que Penélope permanece em casa com o ânimo firme, consumindo noites e dias em lágrimas. Agamêmnon, morto pela mulher, aconselha Odisseu a não revelar a ela toda a história, e logo abre uma exceção: Penélope é muito sensata e sabe bem dos planos no juízo.

ἀλλʼ οὐ σοί γʼ, Ὀδυσεῦ, φόνος ἔσσεται ἔκ γε γυναικός· / λίην γὰρ πινυτή τε καὶ εὖ φρεσὶ μήδεα οἶδε / κούρη Ἰκαρίοιο, περίφρων Πηνελόπεια. (11.444-446), mas de ti, Odisseu, a morte não virá de tua mulher: ela é muito sensata e sabe bem dos planos no juízo, a filha de Icário, a prudente Penélope.
Canto XI: A descida aos mortos

No Canto XIII, Odisseu reza para encontrar em casa a esposa irrepreensível e os seus sãos. Atena lhe descreve o estado de Penélope: chora sem parar o retorno dele, e dá esperança a todos os pretendentes, prometendo e mandando mensagens, enquanto a mente dela deseja outra coisa.

τά μοι θεοὶ Οὐρανίωνες / ὄλβια ποιήσειαν· ἀμύμονα δʼ οἴκοι ἄκοιτιν / νοστήσας εὕροιμι σὺν ἀρτεμέεσσι φίλοισιν. (13.41-43), que os deuses do céu os façam bem-aventurados para mim; possa eu, ao voltar, achar em casa a esposa irrepreensível, com os meus sãos e salvos.
Canto XIII: A chegada a Ítaca
ἡ δὲ σὸν αἰεὶ νόστον ὀδυρομένη κατὰ θυμὸν / πάντας μέν ῥʼ ἔλπει καὶ ὑπίσχεται ἀνδρὶ ἑκάστῳ, / ἀγγελίας προϊεῖσα, νόος δέ οἱ ἄλλα μενοινᾷ. (13.379-381), E ela, chorando sempre no ânimo o teu retorno, dá esperança a todos e promete a cada homem, enviando mensagens, mas sua mente deseja outra coisa.
Canto XIII: A chegada a Ítaca

No Canto XIV, ela não está em cena. Eumeu conta que os andarilhos que levam falsas notícias vão à rainha, que os acolhe e chora como é de uso, e que ele só vai à cidade quando ela o chama.

No Canto XV, Atena avisa Telêmaco de que o pai e os irmãos dela já a pressionam a casar com Eurímaco, que aumentou o dote, e justifica o aviso pelo que diz saber do coração das mulheres. O canto não confirma a generalização, porque Penélope não aparece. Telêmaco, adiante, diz que ela se mostra raras vezes aos pretendentes e tece lá em cima.

οἶσθα γὰρ οἷος θυμὸς ἐνὶ στήθεσσι γυναικός· / κείνου βούλεται οἶκον ὀφέλλειν ὅς κεν ὀπυίῃ, / παίδων δὲ προτέρων καὶ κουριδίοιο φίλοιο / οὐκέτι μέμνηται τεθνηκότος οὐδὲ μεταλλᾷ. (15.20-23), pois sabes que ânimo há no peito de uma mulher: quer aumentar a casa de quem a desposar; dos filhos de antes e do marido querido, já morto, não se lembra mais nem pergunta por eles.
Canto XV: A volta de Telêmaco

No Canto XVI, Eumeu e Telêmaco falam dela: resiste, chorando noites e dias, e Telêmaco a descreve dividida entre guardar a casa do marido e seguir o melhor pretendente. Ao saber, por Médon, que Antínoo quer matar o filho, desce velada e o repreende diante de todos, lembrando que Zeus é testemunha dos suplicantes e que o pai de Antínoo foi salvo por Odisseu.

μάργε, τίη δὲ σὺ Τηλεμάχῳ θάνατόν τε μόρον τε / ῥάπτεις, οὐδʼ ἱκέτας ἐμπάζεαι, οἷσιν ἄρα Ζεὺς / μάρτυρος; οὐδʼ ὁσίη κακὰ ῥάπτειν ἀλλήλοισιν. (16.421-423), insensato, por que preparas a Telêmaco morte e destino, sem respeitar os suplicantes, de quem Zeus é testemunha? Não é piedoso tramar males uns contra os outros.
Canto XVI: Pai e filho

No Canto XVII, abraça Telêmaco chorando, ouve o relato da viagem e a profecia de Teoclímeno, de que Odisseu já está em Ítaca. Responde com um desejo, não com crença. Ao saber que Antínoo bateu num mendigo, diz que todos os pretendentes são odiosos e ele mais que todos, e manda chamar o estrangeiro. Ri do espirro do filho e vê nele um sinal da morte dos pretendentes.

ὡς ἦ τοι Ὀδυσεὺς ἤδη ἐν πατρίδι γαίῃ, / ἥμενος ἢ ἕρπων, τάδε πευθόμενος κακὰ ἔργα, / ἔστιν, ἀτὰρ μνηστῆρσι κακὸν πάντεσσι φυτεύει· (17.157-159), que Odisseu já está na terra pátria, sentado ou andando, informado destas obras ruins, e prepara um mal para todos os pretendentes;
Canto XVII: O mendigo no palácio
μαῖʼ, ἐχθροὶ μὲν πάντες, ἐπεὶ κακὰ μηχανόωνται· / Ἀντίνοος δὲ μάλιστα μελαίνῃ κηρὶ ἔοικε. (17.499-500), mãezinha, todos são odiosos, pois tramam males; mas Antínoo, mais que todos, se parece com a Quer negra.
Canto XVII: O mendigo no palácio
οὐχ ὁράᾳς ὅ μοι υἱὸς ἐπέπταρε πᾶσιν ἔπεσσι; / τῷ κε καὶ οὐκ ἀτελὴς θάνατος μνηστῆρσι γένοιτο / πᾶσι μάλʼ, οὐδέ κέ τις θάνατον καὶ κῆρας ἀλύξει. (17.545-547), não vês que meu filho espirrou em todas as minhas palavras? Por isso a morte não seria incompleta para os pretendentes, para todos eles, e ninguém escaparia à morte e às Queres.
Canto XVII: O mendigo no palácio

No Canto XVIII, Atena lhe põe no ânimo o desejo de aparecer aos pretendentes, desejo que ela mesma estranha. Embelezada pela deusa, desce e censura Telêmaco por ter deixado um hóspede ser maltratado. Diante de Eurímaco, recorda a despedida de Odisseu, que lhe disse para casar de novo quando o filho tivesse barba, e queixa-se de que os pretendentes devoram a casa em vez de trazer presentes. Recebe os presentes que eles mandam buscar, e o narrador diz que Odisseu se alegra porque ela lhes arranca dons enquanto a mente dela pensa outra coisa.

τῇ δʼ ἄρʼ ἐπὶ φρεσὶ θῆκε θεὰ γλαυκῶπις Ἀθήνη, / κούρῃ Ἰκαρίοιο, περίφρονι Πηνελοπείῃ, / μνηστήρεσσι φανῆναι, ὅπως πετάσειε μάλιστα / θυμὸν μνηστήρων ἰδὲ τιμήεσσα γένοιτο / μᾶλλον πρὸς πόσιός τε καὶ υἱέος ἢ πάρος ἦεν. (18.158-162), nela pôs a deusa de olhos glaucos, Atena, a ideia, na filha de Icário, a prudente Penélope, de aparecer aos pretendentes, para abrir-lhes ao máximo o ânimo e para que ela fosse mais honrada pelo marido e pelo filho do que antes.
Canto XVIII: Iro e os pretendentes
αὐτὰρ ἐπὴν δὴ παῖδα γενειήσαντα ἴδηαι, / γήμασθʼ ᾧ κʼ ἐθέλῃσθα, τεὸν κατὰ δῶμα λιποῦσα. / κεῖνος τὼς ἀγόρευε· τὰ δὴ νῦν πάντα τελεῖται. (18.269-271), mas quando vires o filho já de barba, casa-te com quem quiseres, deixando a tua casa. Assim falava aquele; e agora tudo isso se cumpre.
Canto XVIII: Iro e os pretendentes
αὐτοὶ τοί γʼ ἀπάγουσι βόας καὶ ἴφια μῆλα, / κούρης δαῖτα φίλοισι, καὶ ἀγλαὰ δῶρα διδοῦσιν· / ἀλλʼ οὐκ ἀλλότριον βίοτον νήποινον ἔδουσιν. (18.278-280), eles mesmos levam bois e gordas ovelhas, banquete para os parentes da moça, e dão presentes magníficos; mas não devoram sem pagar o sustento alheio.
Canto XVIII: Iro e os pretendentes
ὣς φάτο, γήθησεν δὲ πολύτλας δῖος Ὀδυσσεύς, / οὕνεκα τῶν μὲν δῶρα παρέλκετο, θέλγε δὲ θυμὸν / μειλιχίοις ἐπέεσσι, νόος δέ οἱ ἄλλα μενοίνα. (18.281-283), assim falou, e alegrou-se o muito sofredor, divino Odisseu, porque ela lhes arrancava presentes e lhes encantava o ânimo com palavras suaves, mas a mente dela pensava outra coisa.
Canto XVIII: Iro e os pretendentes

No Canto XIX, em conversa a sós com o mendigo, Penélope conta o ardil do tear com as próprias palavras. Diz que agora não escapa ao casamento, porque os pais a pressionam e o filho se aflige com os bens devorados, e insiste em saber a linhagem do hóspede. Pede a roupa que Odisseu vestia, chora ao reconhecer os sinais e, mesmo depois do juramento do hóspede de que o marido volta neste ano, responde que o pressentimento diz o contrário. Conta o sonho dos vinte gansos e da águia que se diz o marido, e, quando o hóspede o interpreta, responde com as duas portas dos sonhos. Anuncia por fim a prova do arco.

ὣς ἐφάμην, τοῖσιν δʼ ἐπεπείθετο θυμὸς ἀγήνωρ. / ἔνθα καὶ ἠματίη μὲν ὑφαίνεσκον μέγαν ἱστόν, / νύκτας δʼ ἀλλύεσκον, ἐπεὶ δαΐδας παραθείμην. (19.148-150), assim falei, e o ânimo altivo deles se persuadiu. Então, de dia, eu tecia a grande teia, e de noite a desfazia, depois de pôr tochas ao lado.
Canto XIX: Penélope e a cicatriz
νῦν δʼ οὔτʼ ἐκφυγέειν δύναμαι γάμον οὔτε τινʼ ἄλλην / μῆτιν ἔθʼ εὑρίσκω· μάλα δʼ ὀτρύνουσι τοκῆες / γήμασθʼ, ἀσχαλάᾳ δὲ πάϊς βίοτον κατεδόντων, / γιγνώσκων· ἤδη γὰρ ἀνὴρ οἷός τε μάλιστα / οἴκου κήδεσθαι, τῷ τε Ζεὺς κῦδος ὀπάζει. (19.157-161), agora não posso escapar ao casamento nem encontro outro plano; meus pais me pressionam a casar, e o filho se aflige com os bens devorados, pois o percebe: já é homem capaz de cuidar da casa, a quem Zeus dá glória.
Canto XIX: Penélope e a cicatriz
ἀλλὰ καὶ ὥς μοι εἰπὲ τεὸν γένος, ὁππόθεν ἐσσί. / οὐ γὰρ ἀπὸ δρυός ἐσσι παλαιφάτου οὐδʼ ἀπὸ πέτρης. (19.162-163), mas ainda assim dize-me a tua linhagem, de onde és; pois não és de um carvalho de que se fala desde antigamente, nem de rocha.
Canto XIX: Penélope e a cicatriz
ὣς φάτο, τῇ δʼ ἔτι μᾶλλον ὑφʼ ἵμερον ὦρσε γόοιο, / σήματʼ ἀναγνούσῃ τά οἱ ἔμπεδα πέφραδʼ Ὀδυσσεύς. (19.249-250), assim falou, e nela despertou ainda mais o desejo de lamento, ao reconhecer os sinais que Odisseu lhe descrevera com firmeza.
Canto XIX: Penélope e a cicatriz
ἀλλά μοι ὧδʼ ἀνὰ θυμὸν ὀΐεται, ὡς ἔσεταί περ· / οὔτʼ Ὀδυσεὺς ἔτι οἶκον ἐλεύσεται, οὔτε σὺ πομπῆς / τεύξῃ, ἐπεὶ οὐ τοῖοι σημάντορές εἰσʼ ἐνὶ οἴκῳ / οἷος Ὀδυσσεὺς ἔσκε μετʼ ἀνδράσιν, εἴ ποτʼ ἔην γε, / ξείνους αἰδοίους ἀποπεμπέμεν ἠδὲ δέχεσθαι. (19.312-316), mas assim me pressente o ânimo, como há de ser: nem Odisseu voltará mais à casa, nem tu obterás escolta, porque não há na casa tais senhores como foi Odisseu entre os homens, se algum dia o foi, para despedir e receber hóspedes veneráveis.
Canto XIX: Penélope e a cicatriz
θάρσει, Ἰκαρίου κούρη τηλεκλειτοῖο· / οὐκ ὄναρ, ἀλλʼ ὕπαρ ἐσθλόν, ὅ τοι τετελεσμένον ἔσται. / χῆνες μὲν μνηστῆρες, ἐγὼ δέ τοι αἰετὸς ὄρνις / ἦα πάρος, νῦν αὖτε τεὸς πόσις εἰλήλουθα, / ὃς πᾶσι μνηστῆρσιν ἀεικέα πότμον ἐφήσω. (19.546-550), coragem, filha de Icário, de longe famosa; isto não é sonho, mas visão boa, que se cumprirá para ti. Os gansos são os pretendentes; e eu, que antes era a águia, agora vim de novo, teu marido, que a todos os pretendentes imporei um destino indigno.
Canto XIX: Penélope e a cicatriz
δοιαὶ γάρ τε πύλαι ἀμενηνῶν εἰσὶν ὀνείρων· / αἱ μὲν γὰρ κεράεσσι τετεύχαται, αἱ δʼ ἐλέφαντι· / τῶν οἳ μέν κʼ ἔλθωσι διὰ πριστοῦ ἐλέφαντος, / οἵ ῥʼ ἐλεφαίρονται, ἔπεʼ ἀκράαντα φέροντες· / οἱ δὲ διὰ ξεστῶν κεράων ἔλθωσι θύραζε, / οἵ ῥʼ ἔτυμα κραίνουσι, βροτῶν ὅτε κέν τις ἴδηται. (19.562-567), pois duas são as portas dos sonhos inconsistentes: umas feitas de chifres, outras de marfim; dos que chegam pelo marfim talhado, esses enganam, trazendo palavras que não se cumprem; os que saem pelos chifres polidos, esses realizam verdades, quando algum mortal os vê.
Canto XIX: Penélope e a cicatriz
νῦν δὲ μνηστήρεσσιν ἄεθλον τοῦτον ἐφήσω· / ὃς δέ κε ῥηΐτατʼ ἐντανύσῃ βιὸν ἐν παλάμῃσι / καὶ διοϊστεύσῃ πελέκεων δυοκαίδεκα πάντων, / τῷ κεν ἅμʼ ἑσποίμην, νοσφισσαμένη τόδε δῶμα (19.576-579), agora proporei aos pretendentes esta prova: quem armar o arco com mais facilidade nas mãos e atravessar com a flecha os doze machados, a esse eu seguiria, deixando esta casa.
Canto XIX: Penélope e a cicatriz

No Canto XX, acorda de noite, chora e reza a Ártemis para que lhe lance uma flecha ao peito ou a leve por uma tempestade, porque não quer alegrar o pensamento de um homem pior. Conta que, nessa noite, um homem igual ao marido dormiu a seu lado e que o coração se alegrou, porque julgou que era realidade. Do outro lado, Odisseu ouve o choro e imagina que ela o reconheceu.

τῇδε γὰρ αὖ μοι νυκτὶ παρέδραθεν εἴκελος αὐτῷ, / τοῖος ἐὼν οἷος ᾖεν ἅμα στρατῷ· αὐτὰρ ἐμὸν κῆρ / χαῖρʼ, ἐπεὶ οὐκ ἐφάμην ὄναρ ἔμμεναι, ἀλλʼ ὕπαρ ἤδη. (20.88-90), pois nesta noite de novo dormiu a meu lado alguém igual a ele, tal como era quando partiu com o exército; e meu coração se alegrou, porque eu julgava que não era sonho, mas já realidade.
Canto XX: Os presságios

No Canto XXI, sobe ao quarto dos tesouros, chora com o arco nos joelhos e o leva ao salão. Põe a si mesma como prêmio, a quem armar o arco e atravessar os doze machados. Quando Antínoo se opõe a que o mendigo prove, ela diz que não há boa fama para quem devora a casa de um nobre e promete roupas ao hóspede. Telêmaco a manda de volta, dizendo que o arco é assunto dos homens, e ela sobe com as servas para chorar o marido até o sono.

θήσω γὰρ μέγα τόξον Ὀδυσσῆος θείοιο· / ὃς δέ κε ῥηΐτατʼ ἐντανύσῃ βιὸν ἐν παλάμῃσι / καὶ διοϊστεύσῃ πελέκεων δυοκαίδεκα πάντων, / τῷ κεν ἅμʼ ἑσποίμην, νοσφισσαμένη τόδε δῶμα / κουρίδιον, μάλα καλόν, ἐνίπλειον βιότοιο, / τοῦ ποτὲ μεμνήσεσθαι ὀΐομαι ἔν περ ὀνείρῳ. (21.74-79), pois porei o grande arco do divino Odisseu; e quem com mais facilidade o armar nas mãos e atravessar com a flecha todos os doze machados, a esse eu seguirei, deixando esta casa de meu casamento, muito bela, cheia de bens, da qual penso que me lembrarei algum dia, mesmo em sonho.
Canto XXI: O arco
Εὐρύμαχʼ, οὔ πως ἔστιν ἐϋκλεῖας κατὰ δῆμον / ἔμμεναι οἳ δὴ οἶκον ἀτιμάζοντες ἔδουσιν / ἀνδρὸς ἀριστῆος· τί δʼ ἐλέγχεα ταῦτα τίθεσθε; (21.331-333), Eurímaco, não há como terem boa fama no povo os que desonram a casa de um homem nobre e a devoram; por que tomais essas coisas como vergonha?
Canto XXI: O arco

No Canto XXII, Penélope dorme durante a matança. Euricleia queria acordá-la para contar, e Odisseu manda não despertá-la.

No Canto XXIII, a ama sobe e anuncia que o marido está em casa, e Penélope não acredita: algum imortal matou os pretendentes, e Odisseu morreu longe. Euricleia oferece a cicatriz como sinal, e Penélope desce hesitando, pesa se o interroga de longe ou o beija, e senta diante dele em silêncio. Diante da censura do filho, responde que têm sinais que só os dois conhecem. Manda a ama mover o leito para fora do quarto, e o narrador avisa que ela o prova. Odisseu descreve a oliveira, e ela reconhece os sinais, corre a abraçá-lo e explica a demora com o medo de ser enganada, citando Helena. O alívio dela é comparado ao de um náufrago que avista terra. Depois contam um ao outro o que sofreram, e ela se deleita ouvindo a viagem inteira.

ἀλλά τις ἀθανάτων κτεῖνε μνηστῆρας ἀγαυούς, / ὕβριν ἀγασσάμενος θυμαλγέα καὶ κακὰ ἔργα. / οὔ τινα γὰρ τίεσκον ἐπιχθονίων ἀνθρώπων, / οὐ κακὸν οὐδὲ μὲν ἐσθλόν, ὅτις σφέας εἰσαφίκοιτο· / τῷ διʼ ἀτασθαλίας ἔπαθον κακόν· αὐτὰρ Ὀδυσσεὺς / ὤλεσε τηλοῦ νόστον Ἀχαιΐδος, ὤλετο δʼ αὐτός. (23.63-68), mas algum dos imortais matou os nobres pretendentes, irritado com a insolência dolorosa e as más obras. Pois não honravam homem algum da terra, nem mau nem bom, que chegasse a eles; por isso sofreram o mal por suas insolências. Quanto a Odisseu, perdeu longe o regresso à terra aqueia e ele mesmo morreu.
Canto XXIII: O leito de oliveira
ἡ δʼ ἄνεω δὴν ἧστο, τάφος δέ οἱ ἦτορ ἵκανεν· / ὄψει δʼ ἄλλοτε μέν μιν ἐνωπαδίως ἐσίδεσκεν, / ἄλλοτε δʼ ἀγνώσασκε κακὰ χροῒ εἵματʼ ἔχοντα. (23.93-95), ela ficou muito tempo calada, e o assombro lhe tomou o coração; ora o olhava de frente com a vista, ora não o reconhecia, vestido de maus trapos sobre o corpo.
Canto XXIII: O leito de oliveira
εἰ δʼ ἐτεὸν δὴ / ἔστʼ Ὀδυσεὺς καὶ οἶκον ἱκάνεται, ἦ μάλα νῶϊ / γνωσόμεθʼ ἀλλήλων καὶ λώϊον· ἔστι γὰρ ἡμῖν / σήμαθʼ, ἃ δὴ καὶ νῶϊ κεκρυμμένα ἴδμεν ἀπʼ ἄλλων. (23.107-110), se de fato é Odisseu e está em casa, certamente nos reconheceremos ainda melhor um ao outro; pois temos sinais que também nós dois conhecemos, ocultos aos outros.
Canto XXIII: O leito de oliveira
ἀλλʼ ἄγε οἱ στόρεσον πυκινὸν λέχος, Εὐρύκλεια, / ἐκτὸς ἐϋσταθέος θαλάμου, τόν ῥʼ αὐτὸς ἐποίει· / ἔνθα οἱ ἐκθεῖσαι πυκινὸν λέχος ἐμβάλετʼ εὐνήν, / κώεα καὶ χλαίνας καὶ ῥήγεα σιγαλόεντα. / ὣς ἄρʼ ἔφη πόσιος πειρωμένη· (23.177-181), Euricleia, estende-lhe o firme leito fora do sólido quarto que ele mesmo construiu; ali, depois de colocarem fora o firme leito, lançai a roupa de cama, com peles, mantos e cobertas brilhantes. Assim falou, pondo o marido à prova.
Canto XXIII: O leito de oliveira
ὣς φάτο, τῆς δʼ αὐτοῦ λύτο γούνατα καὶ φίλον ἦτορ, / σήματʼ ἀναγνούσῃ τά οἱ ἔμπεδα πέφραδʼ Ὀδυσσεύς· / δακρύσασα δʼ ἔπειτʼ ἰθὺς δράμεν, ἀμφὶ δὲ χεῖρας / δειρῇ βάλλʼ Ὀδυσῆϊ, κάρη δʼ ἔκυσʼ ἠδὲ προσηύδα· (23.205-208), assim falou, e nela os joelhos e o coração se desfizeram, ao reconhecer os sinais firmes que Odisseu lhe descrevera; chorando, correu direto a ele, lançou os braços ao pescoço de Odisseu, beijou-lhe a cabeça e falou.
Canto XXIII: O leito de oliveira
οὐδέ κεν Ἀργείη Ἑλένη, Διὸς ἐκγεγαυῖα, / ἀνδρὶ παρʼ ἀλλοδαπῷ ἐμίγη φιλότητι καὶ εὐνῇ, / εἰ ᾔδη ὅ μιν αὖτις ἀρήϊοι υἷες Ἀχαιῶν / ἀξέμεναι οἶκόνδε φίλην ἐς πατρίδʼ ἔμελλον. (23.218-221), nem a argiva Helena, nascida de Zeus, teria se unido em amor e no leito a um homem estrangeiro, se soubesse que os belicosos filhos dos aqueus um dia a levariam de volta para casa, para a pátria querida.
Canto XXIII: O leito de oliveira
ὡς δʼ ὅτʼ ἂν ἀσπάσιος γῆ νηχομένοισι φανήῃ, / ὧν τε Ποσειδάων εὐεργέα νῆʼ ἐνὶ πόντῳ / ῥαίσῃ, ἐπειγομένην ἀνέμῳ καὶ κύματι πηγῷ· / παῦροι δʼ ἐξέφυγον πολιῆς ἁλὸς ἤπειρόνδε / νηχόμενοι, πολλὴ δὲ περὶ χροῒ τέτροφεν ἅλμη, / ἀσπάσιοι δʼ ἐπέβαν γαίης, κακότητα φυγόντες· / ὣς ἄρα τῇ ἀσπαστὸς ἔην πόσις εἰσοροώσῃ, / δειρῆς δʼ οὔ πω πάμπαν ἀφίετο πήχεε λευκώ. (23.233-240), como quando a terra aparece acolhedora a nadadores cuja bem construída nau Poseidon despedaça no mar, empurrada pelo vento e pela onda pesada; poucos escapam do mar cinzento para a terra firme nadando, e muito sal lhes cobre a pele, e eles pisam a terra alegres, tendo fugido ao mal; assim era acolhedor para ela o marido que ela olhava, e do pescoço não largava de todo os braços brancos.
Canto XXIII: O leito de oliveira

No Canto XXIV, no Hades, Anfimedonte conta a Agamêmnon o ardil do pano, contado do lado dos pretendentes enganados, e como Penélope nem recusava nem concluía o casamento. Agamêmnon, ouvindo, louva o bom juízo dela e diz que a fama de sua virtude nunca perecerá, em contraste com a filha de Tíndaro, que terá canto odioso.

κοῦροι ἐμοὶ μνηστῆρες, ἐπεὶ θάνε δῖος Ὀδυσσεύς, / μίμνετʼ ἐπειγόμενοι τὸν ἐμὸν γάμον, εἰς ὅ κε φᾶρος / ἐκτελέσω, μή μοι μεταμώνια νήματʼ ὄληται, / Λαέρτῃ ἥρωϊ ταφήϊον (24.131-134), jovens, meus pretendentes, já que morreu o divino Odisseu, esperai, ainda que ansiosos pelo meu casamento, até que eu conclua o pano, para que não se percam em vão os fios, mortalha para o herói Laertes.
Canto XXIV: A paz em Ítaca
ὡς ἀγαθαὶ φρένες ἦσαν ἀμύμονι Πηνελοπείῃ, / κούρῃ Ἰκαρίου· ὡς εὖ μέμνητʼ Ὀδυσῆος, / ἀνδρὸς κουριδίου· τῷ οἱ κλέος οὔ ποτʼ ὀλεῖται / ἧς ἀρετῆς (24.194-197), que bom juízo tinha a irrepreensível Penélope, filha de Icário! Como se lembrou bem de Odisseu, seu marido legítimo! Por isso nunca perecerá a fama da sua virtude.
Canto XXIV: A paz em Ítaca

Temas que encarna

Penélope encarna a Lealdade e traição, pelo lado da lealdade: a espera dela é uma resistência ativa, feita de adiamentos, e o poema a opõe, por boca de Agamêmnon, a Clitemnestra. Encarna a Verdade e mentira, porque é tão boa em dizer uma coisa e pensar outra quanto o marido, e porque a conversa do Canto XIX é um jogo em que cada um sabe o que o outro não diz. Encarna a Identidade pelo reconhecimento, e o Lar, exílio e retorno pela casa que ela guarda. A Família aparece no filho que cresce e na pressão do pai e dos irmãos dela.

A oliveira do leito não é só o sinal que ninguém de fora poderia forjar, é a figura dela. O quarto foi construído em volta de um tronco ainda enraizado, e o que a prova exige do impostor é justamente o que ela fez por vinte anos, ficar onde estava enquanto tudo em volta se movia. A prova é inforjável porque alguém a manteve inteira, e por isso o leito não prova apenas que ele é Odisseu, prova que ela foi Penélope.

Isso muda o peso do Canto XXIII em relação aos outros reconhecimentos. A ama o reconhece pela cicatriz que viu no corpo dele, Eumeu e Filécio também a veem, e o filho aceita a explicação do disfarce. Penélope é a única que escolhe o sinal, e o escolhe de modo que dependa dos dois: sinais que só eles conhecem. Onde os outros identificam, ela reconhece. O texto sustenta ainda uma segunda leitura da demora dela, que o poema não decide: o medo de ser enganada por palavras, que ela mesma diz, ou os trapos que a impediam de ver o marido na sala.

Relações

  • Odisseu: o marido que ela espera, não reconhece a princípio e acaba por reconhecer pelo leito.
  • Telêmaco: o filho que a manda calar no primeiro canto e que, no Canto XXI, lhe diz outra vez que o arco é assunto dos homens.
  • Antínoo: o pretendente que denuncia o ardil do tear, que ela repreende e a quem odeia mais que aos outros.
  • Euricleia: a ama que sabe do segredo de Telêmaco, anuncia o marido e é a primeira a não ser crida.
  • Atena: a deusa que lhe manda o fantasma, o desejo de aparecer, a prova do arco e o sono.
  • Calipso e Helena: a deusa que a compara a si mesma quando oferece a imortalidade a Odisseu, e a mulher que ela cita para explicar o medo.
  • Laertes: o sogro para quem ela tece a mortalha.