Quem é
Lisavieta Prokófievna, a generala Iepántchina, é a mulher do general Ivan Fiódorovitch Iepántchin e a última princesa da antiga e decaída família dos Míchkin, origem que ela preza e diante da qual o marido, que casou cedo com ela sem beleza nem dote, a respeita e a teme (capítulo II da Primeira Parte). É a parente distante a quem Liev Nikoláievitch Míchkin escreve da Suíça sem resposta e a primeira pessoa de Petersburgo a adotá-lo. Mãe de três filhas sem pressa de casar, Alieksandra Ivánovna Iepántchina, Adelaida Ivánovna Iepántchina e Aglaia Ivánovna Iepántchina, vive de explosões: fala antes de pensar, se arrepende no mesmo fôlego e tem, nas palavras do marido, uma cólera grande a cada três anos (capítulo IX da Segunda Parte). O que ela quer no livro inteiro são duas coisas que não cabem juntas, ter o príncipe por perto e mantê-lo longe da filha mais nova; o que teme é o ridículo, que a família seja falada, que as filhas virem niilistas (capítulo I da Terceira Parte). Sabe ler as pessoas pelo coração e desconfia dessa leitura quando ela contraria o que o mundo diria. É dela a última fala do romance (capítulo XII da Quarta Parte).
Trajetória
No capítulo V da Primeira Parte o general apresenta o príncipe à mulher como um pobre idiota, quase mendigo, para distraí-la das pérolas que comprou para Nastácia Filíppovna. Ela manda pôr um guardanapo no pescoço do visitante, vê que ele almoça e conversa bem, declara que ele nada tem de estranho e exige que conte coisas, porque quer ver como ele fala. Quando ele conta que acordou na Suíça ao ouvir zurrar um asno, ela tenta defendê-lo das filhas que riem e acaba piorando a piada:
иная из нас в осла еще влюбится [...] Это еще в мифологии было., alguma de nós ainda vai se apaixonar por um asno [...] Isso já aconteceu na mitologia.
No capítulo VI da Primeira Parte o príncipe lê os rostos da casa e diz dela que é uma criança completa, em tudo, no bom e no mau. No capítulo VII da Primeira Parte ela está encantada, porque o caráter dele é igual ao dela; examina com desdém o retrato de Nastácia Filíppovna, pergunta a Gánia se vai se casar (ele mente que não) e se despede do príncipe dizendo que Deus o trouxe a Petersburgo para ela.
No capítulo I da Segunda Parte, depois da noite do aniversário, ninguém fala do príncipe na casa por um mês, e ela declara que se enganou com ele e que a sua vida foi um erro contínuo sobre as pessoas; duas cartas da velha princesa Bielokónskaia, que o recebe em Moscou, mudam o humor da casa, e Nikolai Ardaliónovitch Ívolguin, o Kólia, a conquista por não bajular.
No capítulo VI da Segunda Parte ela vai com as filhas e o príncipe Sch. à datcha de Liébediev esperando encontrar o príncipe no leito de morte, e fica contrariada ao vê-lo sorridente e bem vestido. Chama de mentiroso o general Ardalion Alieksándrovitch Ívolguin, que diz ter carregado Aglaia no colo, e, quando a filha confirma a história do arco e da flecha em Tver, manda o velho chorar num canto e logo o chama de volta com bondade. No capítulo VII da Segunda Parte se encanta com a balada do cavaleiro pobre sem perceber a troca das letras, beija Aglaia e lhe diz baixinho que, se leu a sério, tem pena dela, e se leu por zombaria, não aprova; depois, por raiva acumulada e curiosidade, empurra o príncipe a resolver em público o caso do filho de Pavlischov. No capítulo VIII da Segunda Parte manda Kólia ler em voz alta o artigo do semanário contra o príncipe. No capítulo IX da Segunda Parte explode contra o marido, contra o príncipe, que pede perdão a quem o insultou, e contra os rapazes, que recusam a gratidão e vivem dela:
Да ведь вас до того тщеславие и гордость проели, что кончится тем, что вы друг друга переедите, это я вам предсказываю, Pois a vaidade e o orgulho já comeram vocês por dentro a tal ponto que vão acabar devorando uns aos outros, isso eu lhes profetizo.
No capítulo X da Segunda Parte Hippolit Tieriêntiev chora como criança na poltrona, e ela aperta a cabeça dele contra o peito:
Ипполит остановился почти пораженный, поднял руку, боязливо протянул ее и дотронулся до этой слезинки. Он улыбнулся какою-то детскою улыбкой, Hippolit parou quase atônito, ergueu a mão, estendeu-a com medo e tocou aquela lagrimazinha. Sorriu um sorriso de criança.
No fim do mesmo capítulo, quando a mulher da caleche grita a Ievguiêni Pávlovitch Radomski que Rogójin comprou as promissórias dele, ela o encara dois segundos e vai para casa sem dizer nada.
No capítulo XII da Segunda Parte ela entra sozinha no terraço do príncipe, avisa que não veio pedir perdão, interroga-o sobre o bilhete da Páscoa, o faz jurar que não se casou com Nastácia Filíppovna Barachkova e diz que Aglaia não será dele enquanto ela viver. No mesmo fôlego conta por que o esperava:
я всё еще верю, что сам бог тебя мне как друга и как родного брата прислал, eu ainda acredito que foi o próprio Deus quem mandou você para mim como amigo e como irmão de sangue.
Ao ler o bilhete em que Aglaia proíbe a visita, entende o contrário, uma filha ofendida porque ele não veio, e o arrasta pela mão para a datcha.
No capítulo I da Terceira Parte o narrador mostra o que a move: culpa-se pelo próprio gênio, chora de noite pela filha mais velha ainda solteira, tem em Aglaia o seu tormento e o seu ídolo, e uma carta anônima sobre cartas trocadas entre Nastácia Filíppovna e Aglaia a faz sentar o príncipe à mesa da família para arrancar dele os segredos da filha sem perguntar. Ali mesmo o defende de Radomski, contando que o principal dos rapazes, Burdóvski, escreveu ao príncipe pedindo perdão. No capítulo II da Terceira Parte, depois do escândalo no vauxhall, levanta a família e quase foge. No capítulo VIII da Terceira Parte surge no banco verde no auge da briga e ouve da filha que ela vai se casar com Gánia; no capítulo IX da Terceira Parte leva o príncipe para casa, já arrependida do interrogatório, e, diante da resposta exata dele, se despede com respeito.
Na Quarta Parte a pergunta que ela não consegue formular é se o príncipe é bom ou não presta. No capítulo V da Quarta Parte corre a Petersburgo consultar a Bielokónskaia, madrinha de Aglaia, e lê no ouriço que a filha manda ao príncipe um telegrama cifrado. No capítulo VII da Quarta Parte, quando o vaso chinês cai, diz que um pote de barro não vale o susto; no fim do discurso é a primeira a entender o que vai acontecer, e na mesma noite jura que, enquanto viver, ele não será marido de Aglaia; na manhã seguinte, quando a filha diz que nunca o considerou noivo, revolta-se contra ela e diz que teria posto os convidados para fora e ficado com ele. No capítulo VIII da Quarta Parte decide visitá-lo, porque ele está doente e não é um estranho, e lhe promete amizade como antes, pelo menos a dela, palavras que soam como despedida. No capítulo XII da Quarta Parte, na casa de Schneider, chora de todo o coração diante do príncipe que já não a reconhece, e se despede de Radomski quase com raiva:
Довольно увлекаться-то, пора и рассудку послужить. И всё это, и вся эта заграница, и вся эта ваша Европа, всё это одна фантазия, Chega de se deixar levar, é hora de servir também à razão. E tudo isso, e todo esse estrangeiro, e toda essa sua Europa, tudo isso é só uma fantasia.
Temas que encarna
Lisavieta Prokófievna é, entre os Iepántchin, a única que mede o príncipe pelo coração e pelo mundo ao mesmo tempo, e a ficha dela é a história dessa briga interna. Quanto mais o coração lhe pergunta o que falta a ele (capítulo V da Quarta Parte), mais forte ela o ataca, e a família aprende a ler isso: quanto mais ela resiste, mais concorda. É a forma doméstica da Compaixão e caridade no romance, uma compaixão que não se confessa e que só aparece de surpresa, numa lágrima (capítulo X da Segunda Parte), num chamar de volta o velho mentiroso (capítulo VI da Segunda Parte), num choro à russa diante do príncipe destruído (capítulo XII da Quarta Parte).
O príncipe a chama de criança no primeiro dia (capítulo VI da Primeira Parte) e ela reconhece nele o próprio caráter (capítulo VII da Primeira Parte); meses depois, pede a ele amizade como a um irmão (capítulo XII da Segunda Parte), a mesma palavra com que ele assinou o bilhete a Aglaia. Os dois falam sem cálculo e se envergonham depois de ter falado. A diferença é que ela tem uma família, uma posição e uma filha a proteger, e por isso cada impulso dela vem seguido de um recuo; ele não tem nada disso, e não recua. É o que torna a última fala dela, contra a fantasia, tão amarga: quem a diz é a pessoa do livro que mais se deixou levar por ele.
Leituras divergentes
O texto sustenta duas leituras da cólera dela. Numa, é o medo do ridículo e o zelo de uma casa respeitada: ela corre à Bielokónskaia, teme a sociedade, quer saber se o noivo cabe nas medidas do mundo dela (capítulo I da Terceira Parte, capítulo V da Quarta Parte). Na outra, é a forma que toma uma intuição verdadeira que ela não consegue sustentar contra o mundo: é ela quem pune os rapazes de Burdóvski pela contradição exata (capítulo IX da Segunda Parte), quem acolhe Hippolit contra a ironia dele (capítulo X da Segunda Parte) e quem, depois do ataque, diria a todos que fossem embora para ficar com ele (capítulo VII da Quarta Parte).
A frase final, contra a Europa e a fantasia (capítulo XII da Quarta Parte), também admite duas leituras: o bom senso de quem viu o desastre das ilusões, a da filha casada com um falso conde e a do príncipe devolvido à Suíça, ou a amargura de uma mãe que não tem a quem culpar e culpa o estrangeiro inteiro.
Relações
- Ivan Fiódorovitch Iepántchin, o marido, que a respeita e tem medo dela (capítulo II da Primeira Parte) e lhe esconde as pérolas compradas para Nastácia Filíppovna (capítulo V da Primeira Parte).
- Alieksandra Ivánovna Iepántchina, a filha mais velha, por quem ela chora de noite por ainda estar solteira (capítulo I da Terceira Parte).
- Adelaida Ivánovna Iepántchina, a filha do meio, noiva do príncipe Sch. (capítulo I da Segunda Parte).
- Aglaia Ivánovna Iepántchina, a filha mais nova, o seu tormento e o seu ídolo (capítulo I da Terceira Parte), que ela quer longe do príncipe e acaba perdendo para um falso conde (capítulo XII da Quarta Parte).
- Liev Nikoláievitch Míchkin, o parente distante que ela adota no primeiro dia (capítulo VII da Primeira Parte), a quem pede amizade como a um irmão (capítulo XII da Segunda Parte) e por quem chora no fim (capítulo XII da Quarta Parte).
- Hippolit Tieriêntiev, que chora no colo dela e lhe pede que salve os irmãos pequenos (capítulo X da Segunda Parte).
- Ievguiêni Pávlovitch Radomski, pretendente da filha, que ela encara sem uma palavra depois do grito da caleche (capítulo X da Segunda Parte) e a quem diz a última fala do livro (capítulo XII da Quarta Parte).