Clavis Libri

Personagem

Ardalion Alieksándrovitch Ívolguin

Quem é

Ardalion Alieksándrovitch Ívolguin, o general Ívolguin, é o pai de Gavrila Ardaliónovitch Ívolguin, de Varvara Ardaliónovna Ívolguina e de Nikolai Ardaliónovitch Ívolguin, marido de Nina Alieksándrovna, general reformado de cinquenta e cinco anos ou mais, gordo, de sobrecasaca puída, cheirando a vodca e de maneiras estudadas (capítulo VIII da Primeira Parte). Arruinado, dorme num cubículo junto à cozinha com o filho caçula, que o vigia, pede dinheiro a cada visita e mantém, segundo Gánia, uma amante, a viúva de um capitão (capítulo XI da Primeira Parte). O traço que o define é a mentira: inventa um passado inteiro de amizades, duelos, balas no peito e encontros históricos, e mente sobretudo para si, para conservar o mundo em que ainda é alguém. O que ele quer é respeito; o que teme é ser visto como é; o que sabe, e o narrador insiste nisso, é que no fundo ninguém acredita nele (capítulo IV da Quarta Parte). Na noite do aniversário do príncipe, na Terceira Parte, tira quatrocentos rublos de Liébediev, e a vergonha desse roubo, que ele não consegue confessar, o derruba: morre de um segundo ataque (capítulo X da Quarta Parte).

Trajetória

No capítulo VIII da Primeira Parte ele entra no quarto do príncipe recém-chegado e diz que o carregou no colo, que esteve apaixonado pela mãe dele e que quase se mataram em duelo ele e o pai do príncipe, até chorarem os dois com as pistolas encostadas no peito. Quando o príncipe conta que o pai morreu no hospital, sob processo, o general explica o caso como testemunha e membro da comissão:

Но ровно через полгода, на бригадном смотру, рядовой Колпаков, как ни в чем ни бывало, оказывается в третьей роте второго баталиона Новоземлянского пехотного полка, той же бригады и той же дивизии!, mas, exatamente meio ano depois, numa revista da brigada, o soldado Kolpakov, como se nada tivesse acontecido, aparece na terceira companhia do segundo batalhão do regimento de infantaria de Novozemliansk, da mesma brigada e da mesma divisão!
Primeira Parte: A chegada

Nina Alieksándrovna o poupa da palavra mentira: diz que ele se engana, e pede ao príncipe que pague o aluguel a ela, e não ao marido. No mesmo capítulo ele anuncia a tragédia doméstica, o casamento do filho com uma mulher ambígua, que só entrará naquela casa passando por cima dele.

No capítulo IX da Primeira Parte entra de fraque e bigode pintado na sala onde está Nastácia Filíppovna Barachkova, no dia em que Gánia queria afastá-lo de tudo. Ela o estimula, e ele floresce:

С Иваном Федоровичем Епанчиным я действительно бывал в большой дружбе [...] Я, он и покойный князь Лев Николаевич Мышкин, сына которого я обнял сегодня после двадцатилетней разлуки, мы были трое неразлучные, так сказать, кавалькада: Атос, Портос и Арамис. Но увы, один в могиле, сраженный клеветой и пулей, другой перед вами и еще борется с клеветами и пулями…, com Ivan Fiódorovitch Iepántchin eu de fato tive grande amizade [...] Eu, ele e o falecido príncipe Liev Nikoláievitch Míchkin, cujo filho abracei hoje depois de vinte anos de separação, éramos os três inseparáveis, por assim dizer, uma cavalgada: Athos, Porthos e Aramis. Mas, ai, um está no túmulo, abatido pela calúnia e por uma bala, o outro está diante da senhora e ainda luta contra as calúnias e as balas...
Primeira Parte: A chegada

A cavalgada é a de I tre moschettieri, e no meio dela ele troca o nome do pai do príncipe, corrigido horas antes. Conta as balas que traz no peito desde Kars e por que rompeu com o general Iepántchin: num trem, uma senhora inglesa jogou pela janela o charuto dele, e ele jogou atrás a cadelinha dela. Nastácia Filíppovna ri e lembra que leu a mesmíssima história no Indépendance Belge cinco ou seis dias antes; ele cora, Kólia aperta a cabeça com as mãos, Gánia o agarra pelo ombro. No capítulo X da Primeira Parte, quando Rogójin sobe o lance, o general protesta e todos riem dele.

No capítulo XII da Primeira Parte espera o príncipe num café com bilhar, embolsa a nota de vinte e cinco rublos que devia trocar e transforma o pedido de ir à festa de Nastácia Filíppovna numa campanha de pai contra ela. Pede uma garrafa e outra, fala das treze balas no peito e de Pirogov, que teria telegrafado a Paris por ele, e para à porta do velho amigo Sokolóvitch, onde está escrito outro nome:

Кулаков… Кулаков ничего не доказывает. Квартира Соколовича, и я звоню к Соколовичу; наплевать на Кулакова…, Kulakov... Kulakov não prova nada. O apartamento é de Sokolóvitch, e eu estou tocando para Sokolóvitch; que se dane o Kulakov...
Primeira Parte: A chegada

Termina o dia na casa da capitã Marfa Borísovna, que o recebe gritando que é um bárbaro e um tirano e que lhe roubou tudo; ele lhe dá os vinte e cinco rublos do príncipe e dorme no sofá. Kólia revela que o pai nunca esteve na casa de Nastácia Filíppovna e, mesmo assim, diz que ele lhe parece honesto no fundo e lhe dá pena.

No capítulo I da Segunda Parte, nos seis meses de ausência do príncipe, ele vai parar na prisão por dívidas, levado pela própria capitã, a quem assinara promissórias. No capítulo VI da Segunda Parte está abrigado na datcha de Lukian Timofêievitch Liébediev, com quem discute assuntos eruditos. Para puxar conversa com Aglaia Ivánovna Iepántchina, diz que a carregou no colo, como diz a todos os jovens; Ielisavieta Prokófievna Iepántchina o chama de mentiroso, e Aglaia confirma: em Tver, quando ela tinha seis anos, ele lhe fez um arco e uma flecha e os dois mataram um pombo. O velho, que esquecera que desta vez era verdade, se lembra de tudo e se comove:

Вот что значит хоть раз в жизни правду сказать, — до слез подействовало!, Eis o que é dizer a verdade ao menos uma vez na vida: fez chorar!
Segunda Parte: O quadro

No capítulo IV da Terceira Parte preside o debate da festa de aniversário do príncipe, protesta contra a anedota do canibal e compara o sermão de Liébediev aos de um verdadeiro intérprete do Apocalipse que diz ter conhecido. No capítulo IX da Terceira Parte, depois da noite, acorda Kólia às seis da manhã, ainda bêbado, para avisar que diante de Fierdischenko é preciso cuidado com o que se diz; Liébediev, que perdeu quatrocentos rublos do bolso da sobrecasaca, conta que o general abriu o peito no meio da rua exigindo ser revistado e depois contou que, na juventude, foi acusado de roubar quinhentos mil rublos, salvou o acusador de um incêndio e casou com Nina Alieksándrovna. Liébediev o define:

Лжет он беспрерывно, по слабости, но человек высочайших чувств, человек при этом малосмысленный-с, внушающий полнейшее доверие своею невинностью, Mente sem parar, por fraqueza, mas é homem dos mais altos sentimentos, homem, além disso, de pouco juízo, senhor, que inspira a mais completa confiança pela sua inocência.
Terceira Parte: A explicação

No capítulo I da Quarta Parte a casa está em guerra por causa dele: há uma semana anda fora de si, foi à casa dos Iepántchin queixar-se da família e pedir emprego, e Gánia sabe o motivo: o pai roubou os quatrocentos rublos, ao que parece para a capitã. No capítulo II da Quarta Parte Hippolit Tieriêntiev diz em voz alta que talvez um certo capitão Ieropiegov, de quem o velho lhe falava, nunca tenha existido, Gánia confirma, e o general, que suportou ofensas muito piores, desaba:

по чрезвычайной странности сердца человеческого, случилось так, что именно подобная обида, как сомнение в Еропегове, и должна была переполнить чашу., por uma estranheza extraordinária do coração humano, aconteceu que fosse justamente uma ofensa como essa, a dúvida sobre Ieropiegov, que fizesse transbordar o copo.
Quarta Parte: O desfecho

Sai de casa com o saco de viagem carregado por Kólia e lança da rua a maldição sobre a casa, enquanto Gánia fecha a janela resmungando que até isso ele faz em tom de teatro. No capítulo III da Quarta Parte o narrador volta atrás: depois de dois dias inseparáveis com Liébediev, bebendo e chorando abraçados, os dois brigam; Liébediev achou a carteira, deixou-a onde o general pudesse devolvê-la, e ela reapareceu na aba do casaco de Liébediev. O general aborda o príncipe, fala em respeito e em direitos, chora e pede para o dia seguinte uma hora de conversa que chama de hora do destino. Liébediev, acusado de torturá-lo, responde:

Не мучаю, князь, не мучаю, — с жаром подхватил Лебедев; — я искренно его люблю-с и… уважаю-с; а теперь, вот верьте не верьте, он еще дороже мне стал-с; еще более стал ценить-с!, Não torturo, príncipe, não torturo, emendou Liébediev com fervor; eu o amo sinceramente, senhor, e... o respeito, senhor; e agora, acredite ou não, ele ficou ainda mais caro para mim, senhor; passei a dar-lhe ainda mais valor, senhor!
Quarta Parte: O desfecho

No capítulo IV da Quarta Parte, na hora marcada, chega contido e digno, e em vez de confessar conta ao príncipe que, aos dez anos, foi pajem de Napoleão Bonaparte em Moscou, ouviu de noite o choro do imperador, aconselhou-o a voltar para casa e recebeu dele, no álbum da irmã, o conselho de nunca mentir. O príncipe, para escapar do rubor, o elogia, e o general vai mais longe; à porta se despede:

Вы до того добры, до того простодушны, что мне становится даже вас жаль иногда. Я с умилением смотрю на вас; о, благослови вас бог! Пусть жизнь ваша начнется и процветет… в любви. Моя же кончена!, O senhor é tão bom, tão simples, que às vezes chego a ter pena do senhor. Olho para o senhor com ternura; oh, Deus o abençoe! Que a sua vida comece e floresça... no amor. A minha está acabada!
Quarta Parte: O desfecho

O narrador o classifica:

это был один из того разряда лгунов, которые хотя и лгут до сладострастия и даже до самозабвения, но и на самой высшей точке своего упоения всё-таки подозревают про себя, что ведь им не верят, да и не могут верить., era um daqueles mentirosos que, embora mintam até a volúpia e até o esquecimento de si, mesmo no ponto mais alto do êxtase ainda desconfiam, no íntimo, de que não lhes dão crédito, nem podem dar.
Quarta Parte: O desfecho

À noite o general manda ao príncipe um bilhete rompendo com ele: não aceita sinais de compaixão que humilham. Volta à casa dos Iepántchin, assusta a generala com insinuações sobre Gánia e é posto para fora; na rua, com Kólia, mistura Gógol e as Almas mortas, quer na lápide que ali jaz uma alma morta, chora por Nina, que chama de alma angélica, abençoa o filho por respeitar um velho caído e sobe num alpendre alheio para lhe contar ao ouvido o segredo. Só diz o rei de Roma e o nome de Mária Petrovna, e cai: é um ataque.

No capítulo VI da Quarta Parte está em perigo, reanimado mas sem voltar a si, na casa de Nina Alieksándrovna; Gánia não ousa subir ao quarto, e Liébediev chora junto dele como por um irmão e o chama de genial. No capítulo VIII da Quarta Parte o príncipe conta a Kólia o roubo do pai com toda a delicadeza: talvez o que mata o velho seja o horror da própria falta, de que nem todos seriam capazes. No capítulo X da Quarta Parte ele morre de um segundo ataque, uns oito dias depois do primeiro, e Kólia o enterra.

Temas que encarna

O general Ívolguin é a Verdade e mentira do romance em escala doméstica, e a Quarta Parte o usa como um pequeno modelo do livro inteiro: um velho que roubou, mente para não se ver e cai no instante em que ia confessar, tratado pelo príncipe com uma delicadeza que alivia e, ao mesmo tempo, humilha. As mentiras dele não enganam ninguém e não pedem nada; são a casa onde ele ainda é general, amigo de Iepántchin, pajem de Napoleão. Por isso a ofensa que o derruba não é a acusação do roubo, é a dúvida sobre um capitão inventado (capítulo II da Quarta Parte): negar Ieropiegov é tirar a ele o passado que construiu.

As duas únicas verdades que ele diz no livro o desarmam mais do que todas as mentiras. A do arco e da flecha, que ele dizia por hábito e que por acaso era verdadeira, o faz chorar (capítulo VI da Segunda Parte); a do roubo, que ele nunca consegue dizer, o mata (capítulo IV da Quarta Parte, capítulo X da Quarta Parte). O conselho de nunca mentir, que ele põe na boca de Napoleão, está no centro da maior mentira que conta: ele sabe o que deveria fazer e só consegue dizê-lo como lenda.

Ele é também o espelho do príncipe no modo de tratar a fantasia. O príncipe acompanha o general diante da porta de Kulakov sem desmenti-lo (capítulo XII da Primeira Parte) e ouve o pajem de Napoleão sem rir (capítulo IV da Quarta Parte); a pena com que faz isso é o que o velho não suporta, e o bilhete do rompimento diz exatamente isso. A compaixão, aqui, vira humilhação para quem a recebe, como já tinha virado com Hippolit.

Relações