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Personagem

Lukian Timofêievitch Liébediev

Quem é

Lukian Timofêievitch Liébediev é o funcionário de nariz vermelho que sabe tudo de todos e entra na conversa do trem, no capítulo I da Primeira Parte, ao ouvir falar da herança de Rogójin. Viúvo recente (a mulher morreu no parto cinco semanas antes da volta do príncipe), mora no bairro de Peski com a filha Vera, de vinte anos, que cuida da irmã recém-nascida, mais dois filhos e um sobrinho que o despreza; virou advogado de causas pequenas e interpreta o Apocalipse há quinze anos (capítulo II da Segunda Parte). Tem também uma datcha em Pávlovsk, que aluga ao príncipe e onde passa a maior parte do romance (capítulo VI da Segunda Parte). É bajulador, intrigante, espião, autor de cartas anônimas, e ao mesmo tempo o único personagem que diz ao príncipe, com toda a franqueza, que nele a mentira e a verdade andam juntas (capítulo XI da Segunda Parte). O livro o usa como coro: é quem comenta, cita a Escritura de través e acerta, quase sempre, pelo lado errado.

Trajetória

No capítulo I da Primeira Parte gruda em Parfen Semeónovitch Rogójin pela herança, mostra que conhece a história de Nastácia Filíppovna, ouve a ameaça de ser açoitado se disser uma palavra contra ela, repete o louco de Deus de Rogójin para agradar e acaba seguindo com o bando. No capítulo X da Primeira Parte é ele quem aconselha Rogójin a se voltar para Nastácia Filíppovna com o dinheiro:

Настасья Филипповна! — вскричал он, глядя на нее, как полоумный, робея и вдруг ободряясь до дерзости: — вот восемнадцать тысяч! — и он шаркнул пред ней на столик пачку в белой бумаге, обернутую накрест шнурками. — вот! И… и еще будет!, Nastácia Filíppovna! (gritou ele, olhando para ela como um meio louco, intimidado e de repente se encorajando até a insolência) aqui estão dezoito mil! (e largou diante dela, na mesinha, um maço embrulhado em papel branco e amarrado em cruz com cordões) Aqui! E... e ainda vai haver mais!
Primeira Parte: A chegada

Na festa, no capítulo XV da Primeira Parte, ri da declaração de amor do príncipe e espia por cima do ombro de Ptítzin a carta da herança. No capítulo XVI da Primeira Parte responde por Rogójin que vão a Iecateringof, e quando o pacote vai para o fogo rasteja de joelhos pedindo para entrar na lareira, por causa dos treze filhos.

No capítulo II da Segunda Parte, quando o príncipe volta de Moscou e vai à casa dele, encontra-o discursando para a família e defendendo-se do sobrinho Doktorenko, que conta que o tio reza à noite pela alma da condessa Du Barry. Liébediev explica por quê:

И вот за эту-то минуточку ей, может, господь и простит, ибо дальше этакого мизера с человеческою душой вообразить невозможно, E por esse minutinho, quem sabe, o Senhor a perdoe, porque não se pode imaginar miséria maior para uma alma humana.
Segunda Parte: O quadro

Perguntado pelo nome, dá o patronímico ao contrário, Timofiéi Lukiánovitch, e explica que foi por autodepreciação. Conta que Nastácia Filíppovna fugiu de Rogójin e veio pedir que ele a escondesse, e o que leu com ela:

мы при третьем коне, вороном, и при всаднике, имеющем меру в руке своей, так как всё в нынешний век на мере и на договоре, и все люди своего только права и ищут, estamos no tempo do terceiro cavalo, o preto, e do cavaleiro que tem a balança na mão, porque no século de agora tudo é medida e contrato, e todos os homens só procuram o próprio direito.
Segunda Parte: O quadro

O príncipe desconfia de que a carta de Liébediev que o trouxe a Petersburgo foi escrita só para descargo de consciência, e mesmo assim lhe aluga a datcha de Pávlovsk, que Liébediev cede na hora, calculando uma reviravolta inteira. No capítulo V da Segunda Parte, quando Kólia leva o príncipe ferido depois do ataque na escada, antecipa a mudança, e no capítulo VI da Segunda Parte já estão todos na datcha, enfeitada com laranjeiras e jasmins comprados num leilão para cobrar mais do inquilino. Ali ele vigia o príncipe, escuta atrás da porta, afasta as filhas, e abriga o general Ardalion Alieksándrovitch Ívolguin; quando o general diz a Aglaia que a carregou no colo e, por acaso, é verdade, Liébediev comenta:

Вот что значит хоть раз в жизни правду сказать, — до слез подействовало!, Eis o que é dizer a verdade ao menos uma vez na vida: fez chorar!
Segunda Parte: O quadro

No capítulo VII da Segunda Parte aparece com a sua edição de Púchkin para vender e avisa que os rapazes de Burdovski foram além dos niilistas; no capítulo VIII da Segunda Parte é ele quem passa a Lisavieta Prokófievna o semanário com o artigo contra o príncipe, e no capítulo X da Segunda Parte Keller revela que Liébediev corrigiu o artigo. No capítulo XI da Segunda Parte, depois de falar mal de Keller, que acabava de confessar ao príncipe que chorara para arrancar dinheiro, faz a mesma confissão:

и слова, и дело, и ложь, и правда — всё у меня вместе, и совершенно искренно, tanto as palavras quanto o ato, tanto a mentira quanto a verdade, está tudo junto em mim, e com toda a sinceridade.
Segunda Parte: O quadro

Admite ter tido parte, indiretamente, na caleche de Nastácia Filíppovna diante dos Iepántchin, e quando começa a dizer que a verdade envolve Aglaia, o príncipe o cala. No capítulo IV da Terceira Parte, na festa de aniversário do príncipe, bêbado, sustenta que a estrela Absinto do Apocalipse é a rede das ferrovias, conta a história do canibal do século XII que se entregou ao clero e tira dela uma conclusão:

Стало быть, было же нечто сильнейшее костров и огней и даже двадцатилетней привычки!, Logo, havia algo mais forte que as fogueiras e as chamas, e até que um hábito de vinte anos!
Terceira Parte: A explicação

E fecha o sermão contra o seu século:

И осмельтесь сказать, наконец, что не ослабели, не помутились источники жизни под этою «звездой», под этою сетью, опутавшею людей [...] Богатства больше, но силы меньше; связующей мысли не стало; всё размягчилось, всё упрело и все упрели! Все, все, все мы упрели!, E ousem dizer, enfim, que as fontes da vida não se enfraqueceram, não se turvaram sob essa estrela, sob essa rede que enredou os homens. [...] Há mais riqueza, porém menos força; a ideia que unia acabou; tudo amoleceu, tudo apodreceu e todos apodreceram! Todos, todos, todos nós apodrecemos!
Terceira Parte: A explicação

No capítulo VII da Terceira Parte, dono da casa, exige a pistola de Hippolit e ameaça chamar a polícia; depois do tiro sem cápsula, duvida do esquecimento. No capítulo IX da Terceira Parte conta ao príncipe que perdeu quatrocentos rublos do bolso da sobrecasaca na noite da festa, que os suspeitos são o general, Keller e Fierdischenko, e defende o general enquanto o conduz até a suspeita:

Лжет он беспрерывно, по слабости, но человек высочайших чувств, человек при этом малосмысленный-с, внушающий полнейшее доверие своею невинностью, Mente sem parar, por fraqueza, mas é homem dos mais altos sentimentos, homem, além disso, de pouco juízo, senhor, que inspira a mais completa confiança pela sua inocência.
Terceira Parte: A explicação

Despede-se jurando com a mão no peito:

спросите всякого даже подлеца, не только низкого человека: с кем ему лучше дело иметь, с таким ли, как он, подлецом или с наиблагороднейшим человеком, как вы, искреннейший князь? Он ответит, что с наиблагороднейшим человеком, и в том торжество добродетели!, pergunte a qualquer um, até a um canalha, não só a um homem baixo: com quem ele prefere ter negócio, com um canalha como ele ou com o homem mais nobre, como o senhor, sinceríssimo príncipe? Ele vai responder que com o homem mais nobre, e nisso está o triunfo da virtude!
Terceira Parte: A explicação

No capítulo III da Quarta Parte, depois de dois dias bebendo e chorando abraçado com o general, conta ao príncipe, entre risinhos, que achou a carteira e a deixou aparecer e sumir, até reaparecer na aba do próprio casaco, e que anda com ela batendo nas pernas à vista do velho. Ao príncipe, indignado, responde:

Не мучаю, князь, не мучаю, — с жаром подхватил Лебедев; — я искренно его люблю-с и… уважаю-с; а теперь, вот верьте не верьте, он еще дороже мне стал-с; еще более стал ценить-с!, Não torturo, príncipe, não torturo, emendou Liébediev com fervor; eu o amo sinceramente, senhor, e... o respeito, senhor; e agora, acredite ou não, ele ficou ainda mais caro para mim, senhor; passei a dar-lhe ainda mais valor, senhor!
Quarta Parte: O desfecho

No capítulo IV da Quarta Parte sabe-se que respondeu à história do general como pajem de Napoleão dizendo que perdera uma perna em 1812, ainda criança, e a enterrara no cemitério de Vagánkovo, com lápide e missa anual. No capítulo VI da Quarta Parte confessa ao príncipe, quase bêbado, que é o autor das cartas anônimas a Lisavieta Prokófievna sobre Nastácia Filíppovna e que levou à generala um bilhete de Aglaia a Gánia, tirado às escondidas da filha Vera; e à porta ainda mostra com as mãos como se abre uma carta. À noite chora junto ao leito do general como por um irmão, acusa-se em voz alta, e Nina Alieksándrovna lhe responde:

ну, бог с вами, ну, не плачьте, ну, бог вас простит!, ora, Deus esteja com o senhor, ora, não chore, ora, Deus há de perdoá-lo!
Quarta Parte: O desfecho

Daí até a morte do general quase não sai da casa. No capítulo IX da Quarta Parte cuida, com Keller, dos preparativos do casamento do príncipe; no capítulo X da Quarta Parte procura o general Iepántchin, um jurista e um médico para pôr o príncipe sob curatela, fracassa e vem se confessar na véspera, como faz com todos contra quem intriga. Quando a noiva foge, aplica ao príncipe uma palavra do Evangelho:

Утаил от премудрых и разумных и открыл младенцам, я это говорил еще и прежде про него, но теперь прибавляю, что и самого младенца бог сохранил, спас от бездны, он и все святые его!, Escondeu dos sábios e entendidos e revelou aos pequeninos, isso eu já dizia antes dele, mas agora acrescento que Deus também guardou o próprio pequenino, salvou-o do abismo, Ele e todos os seus santos!
Quarta Parte: O desfecho

No capítulo XII da Quarta Parte, chamado pela viúva do professor e por Dária Alieksêievna, está entre os que abrem o apartamento de Rogójin diante da polícia, e depois segue como era.

Temas que encarna

Liébediev é o tema de Verdade e mentira em estado de ofício: diz a verdade como quem mente e mente com toda a sinceridade, e sabe disso (capítulo XI da Segunda Parte). Por isso as melhores verdades sobre os outros, no livro, saem da boca dele de lado: a do general que chora por ter dito a verdade uma vez (capítulo VI da Segunda Parte), a do general que mente por fraqueza e inspira confiança pela inocência (capítulo IX da Terceira Parte), a do século em que todos só procuram o próprio direito (capítulo II da Segunda Parte), a do príncipe guardado como os pequeninos a quem se revela o que se esconde dos sábios (capítulo X da Quarta Parte). A frase que ele mesmo usa para si, a de que nasceu Talleyrand e ficou Liébediev (capítulo X da Quarta Parte), diz o tamanho da ambição e o da queda.

O que o move não é o dinheiro, embora ele nunca deixe de calculá-lo (as laranjeiras, a datcha, a edição de Púchkin): é ter importância junto de quem importa. Intriga quando o príncipe o afasta dos seus segredos (capítulo VI da Quarta Parte), e confessa a intriga quando o afastamento acaba, para ganhar de volta o lugar. O roubo dos quatrocentos rublos mostra isso melhor que tudo: o general passa a lhe ser mais caro depois de roubá-lo (capítulo III da Quarta Parte), porque agora há entre os dois um segredo que dá a Liébediev o poder de perdoar ou de torturar, e ele faz as duas coisas.

É também o leitor do Apocalipse no romance, e a leitura dele não é só farsa. A estrela Absinto como rede que enredou os homens (capítulo IV da Terceira Parte) e o canibal que se entrega por uma ideia mais forte que o medo da fogueira preparam, entre risos, a Explicação de Hippolit e a Fé posta à prova logo depois; Liébediev se inclui no apodrecimento que denuncia, e é a mistura de verdade e farsa que faz dele o porta-voz que ninguém leva a sério.

Leituras divergentes

O livro deixa abertas, em quase toda fala dele, duas leituras: a reza pela Du Barry pode ser piedade de quem se sabe tão pecador quanto ela ou teatro diante de uma plateia que ri (capítulo II da Segunda Parte); a defesa do general no caso dos quatrocentos rublos pode ser proteção do amigo ou o modo de fazer o príncipe dizer o nome que ele mesmo não diz (capítulo IX da Terceira Parte). O príncipe, no capítulo XI da Segunda Parte, nota que Keller e Liébediev parecem se gabar dos pensamentos duplos, e que Liébediev fez deles um ofício.

A divergência se resolve menos pela escolha de uma das leituras do que pelo reconhecimento de que ele vive das duas, e o romance o premia por isso de um modo estranho: é a ele que Nina Alieksándrovna perdoa sem saber o quê (capítulo VI da Quarta Parte), e é ele quem, citando mal, acerta que a fuga da noiva salvou o príncipe de um abismo (capítulo X da Quarta Parte), sem imaginar o abismo que vem no dia seguinte. Contra a leitura cínica vale o choro sincero junto ao general; contra a leitura indulgente, as cartas anônimas e a curatela tramada na véspera do casamento.

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