Quem é
Varvara Ardaliónovna Ívolguina, a Vária, é a irmã de Gavrila Ardaliónovitch Ívolguin e de Nikolai Ardaliónovitch Ívolguin, filha do general Ardalion Alieksándrovitch Ívolguin e de Nina Alieksándrovna. Tem vinte e três anos quando o romance começa e é, diz o narrador, ainda mais enérgica que a mãe (capítulo VIII da Primeira Parte). Com a mãe, sustenta a casa alugando quartos mobiliados; é cortejada por Ptítzin, um rapaz sério que empresta dinheiro a juros, e casa com ele seis meses depois (capítulo I da Segunda Parte). O que ela quer é tirar a família da humilhação sem se humilhar: por isso se recusa a receber Nastácia Filíppovna Barachkova como cunhada e, ao mesmo tempo, trabalha um inverno inteiro para casar o irmão com Aglaia Ivánovna Iepántchina. O que teme é a desonra; o que sabe é ler as pessoas melhor do que o irmão, e é ela quem explica por que ele perdeu Aglaia (capítulo I da Quarta Parte). Onde se engana é na medida do próprio cálculo: o narrador a põe, com Gánia e Ptítzin, entre as pessoas comuns inteligentes, que desconfiam da própria mediania e não se conformam.
Trajetória
No capítulo VIII da Primeira Parte ela declara, diante da mãe e de Gánia, que, se aquela mulher entrar na casa, ela sai; Gánia se volta contra ela, e ela o enfrenta com um olhar calado que sabe tirá-lo do sério. No capítulo IX da Primeira Parte Nastácia Filíppovna entra de surpresa, e as duas trocam um olhar estranho; quando Gánia ameaça a irmã com os olhos, ela sorri de leve. No capítulo X da Primeira Parte, depois do leilão de Rogójin, Vária grita se ninguém vai pôr para fora aquela sem-vergonha, e ouve a resposta, dirigida ao irmão:
Это меня-то бесстыжею называют! [...] а я-то как дура приехала их к себе на вечер звать! Вот как ваша сестрица меня третирует, Гаврила Ардалионович!, é a mim que chamam de sem-vergonha! [...] e eu, feito uma tola, vim convidá-los para a minha festa! Veja como a sua irmãzinha me trata, Gavrila Ardaliónovitch!
Gánia a agarra pelo braço para que peça perdão, e ela cospe na cara dele. Quando ele ergue a mão para bater nela, o príncipe a segura no ar, se põe entre os dois e leva a bofetada no lugar dela:
О, как вы будете стыдиться своего поступка!, oh, como o senhor vai se envergonhar do que fez!
No capítulo XI da Primeira Parte ela vem agradecer ao príncipe e observa que ele tem influência sobre Nastácia Filíppovna; perdoa o irmão e o adverte de que a noiva riu dele e de que aquilo não vale setenta e cinco mil. No capítulo XII da Primeira Parte Kólia conta que a mãe ajuda a família da capitã com dinheiro e roupas, e Vária também; quando o príncipe chama isso de força moral, Kólia aceita para a mãe e recusa para a irmã, que faria aquilo por amor-próprio.
No capítulo I da Segunda Parte, nos seis meses de ausência do príncipe, ela casa com Ptítzin e passa a frequentar as moças Iepántchin pela porta dos fundos. No capítulo VI da Segunda Parte chega à datcha de Liébediev com Gánia e Ptítzin; no capítulo IX da Segunda Parte as provas com que Gánia desmonta a pretensão de Burdóvski, três cartas de Pavlischov, foram obtidas por meio dela e de um coronel reformado. No capítulo XI da Segunda Parte conta ao príncipe que Aglaia brigou com a família inteira, e Kólia traz a notícia de que Lisavieta Prokófievna a pôs para fora de casa para sempre. No capítulo XII da Segunda Parte a generala diz ao príncipe que Gánia está em relações com Aglaia e que Vária abriu o caminho o inverno inteiro, como um rato, e que um dos dois pôs Aglaia em contato com Nastácia Filíppovna.
No capítulo I da Quarta Parte o narrador a coloca, com o irmão e o marido, entre as pessoas comuns que não se conformam com a própria mediania:
умный «обыкновенный» человек, даже если б и воображал себя мимоходом (а пожалуй, и во всю свою жизнь) человеком гениальным и оригинальнейшим, тем не менее сохраняет в сердце своем червячка сомнения, который доводит до того, что умный человек кончает иногда совершенным отчаянием; если же и покоряется, то уже совершенно отравившись вогнанным внутрь тщеславием., o homem "comum" inteligente, mesmo que de passagem (e talvez pela vida inteira) se imaginasse um homem genial e originalíssimo, ainda assim guarda no coração um vermezinho de dúvida, que o leva a ponto de às vezes acabar no completo desespero; e, se se resigna, é já inteiramente envenenado pela vaidade recalcada.
Conta também que ela casou com Ptítzin por cálculo sensato, um homem modesto que nunca faria uma grande baixeza e que daria um teto aos pais e aos irmãos, e que passou meses frequentando os Iepántchin para reaproximar o irmão de Aglaia. Volta de lá com a notícia de que o príncipe é noivo formal e, diante da calma estranha de Gánia, explica a ele o que errou:
Князь ее на удочку тем и поймал, что, во-первых, совсем и не ловил, а во-вторых, что он на глаза всех идиот., O príncipe a fisgou justamente porque, primeiro, nem tentou fisgá-la, e, segundo, porque aos olhos de todos ele é um idiota.
No mesmo capítulo quer salvar a mãe da notícia do roubo do pai. No capítulo II da Quarta Parte, logo depois da maldição do general, Gánia lhe mostra o bilhete em que Aglaia pede para encontrá-lo no banco verde, acompanhado da irmã, para pedir um conselho. No capítulo V da Quarta Parte o narrador a corrige: ela exagerou a certeza do noivado, talvez para envenenar um pouco mais o coração do irmão. No capítulo VIII da Quarta Parte Hippolit Tieriêntiev conta que viu Aglaia despachar Gánia e Vária no banco verde com uma frase de cortesia, e Kólia rompe por dentro com os dois e com Ptítzin. No capítulo IX da Quarta Parte é ela quem vai contar a Lisavieta Prokófievna que Aglaia, depois do encontro com Nastácia Filíppovna, se refugiou na casa de Nina Alieksándrovna.
Temas que encarna
Vária é a Verdade e mentira da casa Ívolguin no registro da dignidade: é a única da família que diz em voz alta o que pensa do casamento do irmão (capítulo VIII da Primeira Parte) e paga por isso com um gesto que nenhuma moça da casa dos Iepántchin faria, o cuspe do capítulo X da Primeira Parte. Mas a mesma moça que recusa Nastácia Filíppovna pelo dinheiro que a acompanha casa por cálculo e trabalha às escondidas um casamento rico para o irmão. A honra dela é de família, não de princípio, e o livro mostra os dois lados sem condená-la.
É ela quem formula, no capítulo I da Quarta Parte, a explicação mais exata da vitória do príncipe: ele conquistou Aglaia por não tentar conquistá-la. A frase é uma acusação a Gánia e, sem que ela o diga, a ela mesma, que passou um inverno calculando onde o cálculo afastava. Vária entende o príncipe melhor que o irmão porque é mais inteligente que ele, e por isso mesmo não pode fazer o que o príncipe faz.
Leituras divergentes
O texto sustenta duas leituras dela. Numa, é a única dos Ívolguin com espinha: enfrenta o irmão, recusa a mulher comprada, ajuda a família da capitã e quer poupar a mãe quando o pai rouba (capítulo I da Quarta Parte). Na outra, é a mais calculista da família, e Kólia é quem diz isso primeiro, ao achar que ela ajuda os outros por amor-próprio (capítulo XII da Primeira Parte); Lisavieta Prokófievna a chama de rato (capítulo XII da Segunda Parte), e o narrador suspeita de que ela exagera as notícias para ferir o irmão (capítulo V da Quarta Parte). As duas leituras se apoiam na mesma energia, que o narrador nota no primeiro dia (capítulo VIII da Primeira Parte).
Relações
- Gavrila Ardaliónovitch Ívolguin, o irmão, em cuja cara ela cospe (capítulo X da Primeira Parte) e por cujo casamento com Aglaia ela trabalha um inverno inteiro (capítulo XII da Segunda Parte, capítulo I da Quarta Parte).
- Nikolai Ardaliónovitch Ívolguin, o irmão mais novo, que desconfia do amor-próprio dela (capítulo XII da Primeira Parte) e rompe por dentro com ela (capítulo VIII da Quarta Parte).
- Ardalion Alieksándrovitch Ívolguin, o pai, cujo roubo ela quer esconder da mãe (capítulo I da Quarta Parte).
- Liev Nikoláievitch Míchkin, que leva a bofetada no lugar dela (capítulo X da Primeira Parte) e a quem ela vem agradecer (capítulo XI da Primeira Parte).
- Nastácia Filíppovna Barachkova, a noiva do irmão que ela se recusa a receber (capítulo VIII da Primeira Parte, capítulo X da Primeira Parte).
- Aglaia Ivánovna Iepántchina, de quem se aproxima pela porta dos fundos (capítulo I da Segunda Parte) e que a despacha no banco verde (capítulo VIII da Quarta Parte).