Quem é
Nikolai Ardaliónovitch Ívolguin, o Kólia, é o filho caçula do general Ardalion Alieksándrovitch Ívolguin e de Nina Alieksándrovna, irmão de Gavrila Ardaliónovitch Ívolguin e de Varvara Ardaliónovna Ívolguina. Tem treze anos quando o romance começa, dorme com o pai num cubículo junto à cozinha e o vigia (capítulo VIII da Primeira Parte). É o primeiro da casa a se afeiçoar a Liev Nikoláievitch Míchkin, o amigo mais fiel de Hippolit Tieriêntiev e o mensageiro do livro: leva bilhetes, traz notícias, aparece onde é preciso. O que ele quer é alguém a quem respeitar, e não acha ninguém em volta: no próprio irmão vê um aventureiro, no pai um mentiroso de quem tem pena. O que teme é a vergonha, a da família diante dos outros, que o faz chorar e esconder o rosto. O que aprende ao longo do livro é distinguir o gesto do discurso; onde se engana é na idade, porque fala do século com palavras que leu. No fim, é ele quem enterra o pai, quem procura ajuda para o príncipe e quem fica, pensativo demais para a idade (capítulo XII da Quarta Parte).
Trajetória
No capítulo X da Primeira Parte, quando Rogójin regateia Nastácia Filíppovna na sala e o pai protesta e todos riem dele, Kólia chora de vergonha; quando Gánia dá a bofetada no príncipe, é o primeiro a correr para abraçá-lo. No capítulo XI da Primeira Parte vai consolá-lo no quarto, fala de um amigo ainda mais infeliz que quer lhe apresentar e acha um absurdo que uma bofetada só se lave com sangue, como no drama Mascarada, de Lérmontov; no fim do capítulo traz o bilhete do pai, que espera o príncipe num café.
No capítulo XII da Primeira Parte está na casa da capitã, fazendo companhia ao filho dela, Hippolit, tísico; revela ao príncipe que o pai nunca esteve na casa de Nastácia Filíppovna e o leva até lá a pé, contando no caminho o que pensa do tempo:
И заметили вы, князь, в наш век все авантюристы! И именно у нас, в России, в нашем любезном отечестве., e o senhor reparou, príncipe, que no nosso século todos são aventureiros! E justamente aqui, na Rússia, na nossa amada pátria.
Diz que a mãe ajuda a família da capitã com dinheiro e roupas, e Vária também, embora a capitã empreste a juros o que recebe do general. O príncipe responde com um exemplo dentro da casa dele:
Разве помогать здесь и при таких обстоятельствах не признак нравственной силы?, por acaso ajudar aqui, e em tais circunstâncias, não é sinal de força moral?
Kólia aceita para a mãe e recusa para Vária, que faria aquilo por amor-próprio, e propõe que um dia morem os três juntos, ele, o príncipe e Hippolit.
No capítulo I da Segunda Parte, solto de casa depois da partida do príncipe, conhece os Iepántchin por conta própria e conquista Ielisavieta Prokófievna Iepántchina por não bajular. Na Páscoa entrega a Aglaia Ivánovna Iepántchina, a sós, o bilhete que o príncipe lhe mandou:
Вы мне нужны, очень нужны. Мне нечего писать вам о себе, нечего рассказывать. Я и не хотел того; мне ужасно бы желалось, чтобы вы были счастливы. Счастливы ли вы? Вот это только я и хотел вам сказать, Preciso de você, preciso muito. Não tenho nada a lhe escrever sobre mim, nada a contar. Nem era isso que eu queria; queria terrivelmente que você fosse feliz. Você é feliz? Era só isso que eu queria lhe dizer.
Aglaia, desconfiada de que um menino tão presunçoso seja o único correspondente do príncipe em Petersburgo, lê o bilhete que ele mesmo recebeu e o chama de bolha de sabão; Kólia, que tinha pedido emprestado a Gánia um cachecol verde novinho para a ocasião, sai ofendido. No capítulo V da Segunda Parte, desiste do jantar em Pávlovsk e volta a Petersburgo por um pressentimento; ouve falar de um ataque no hotel, reconhece o príncipe e o leva para a casa de Liébediev. No capítulo VI da Segunda Parte proclama que nada é melhor do que o cavaleiro pobre, e a família ri; no mesmo capítulo corrige Aglaia nas letras do escudo, e ela insiste nas suas. No capítulo VIII da Segunda Parte, mandado por Lisavieta Prokófievna, lê em voz alta o artigo do semanário contra o príncipe, termina, corre para um canto e esconde o rosto de vergonha. No capítulo XI da Segunda Parte traz a notícia de que a generala pôs Vária para fora e ri: o príncipe tem ciúme.
No capítulo I da Terceira Parte anuncia que Hippolit se mudou para a datcha do príncipe; no capítulo II da Terceira Parte, quando Aglaia defende o príncipe diante de todos, grita o nome do cavaleiro pobre e transforma a defesa numa confissão. Na festa de aniversário, quando o sol nasce, é um dos que seguram Hippolit (capítulo VII da Terceira Parte), e no capítulo IX da Terceira Parte, depois de velar o amigo a noite inteira, está encantado com a coragem da Explicação, revela que Hippolit mentiu ao dizer que os dois fizeram a mala juntos e conta que o pai o acordou às seis da manhã, ainda bêbado, para avisar que diante de Fierdischenko é preciso ter cuidado; é por ele que o aviso chega ao príncipe, e por este a Liébediev.
No capítulo II da Quarta Parte, quando o pai sai de casa depois da briga sobre o capitão Ieropiegov, é Kólia quem carrega o saco de viagem. No capítulo IV da Quarta Parte, na rua, ouve o general misturar Gógol e as Almas mortas, chorar por Nina e abençoá-lo por ter respeito a um velho caído; o pai sobe num alpendre para lhe contar ao ouvido o segredo, diz só o rei de Roma e o nome de Mária Petrovna, e cai num ataque diante dele. No capítulo V da Quarta Parte aparece com o ouriço que comprou de um camponês, junto com um machado, e que Aglaia manda ao príncipe. No capítulo VI da Quarta Parte manda avisar o príncipe do ataque do pai. No capítulo VIII da Quarta Parte exige saber o que lhe escondem, e o príncipe lhe conta o roubo do pai com toda a delicadeza: talvez o que mata o velho seja o horror da própria falta, de que nem todos seriam capazes. Kólia rompe por dentro com Gánia, Vária e Ptítzin e se oferece ao príncipe como servo fiel. No capítulo X da Quarta Parte enterra o pai.
No capítulo XII da Quarta Parte, depois da noite na casa de Rogójin, é ele quem procura Ievguiêni Pávlovitch Radomski, e é pelo empenho deste que o príncipe volta ao sanatório de Schneider; aproxima-se da mãe, que o acha pensativo demais para a idade, e passa a receber as cartas de Radomski depois de cada visita à Suíça.
Temas que encarna
Kólia é a Compaixão e caridade do romance antes de ela virar ideia: chora pelo pai que todos ridicularizam (capítulo X da Primeira Parte), vela o amigo doente (capítulo IX da Terceira Parte), carrega o saco do velho que amaldiçoa a casa (capítulo II da Quarta Parte). Não tem a franqueza calculada de ninguém; tem a vergonha de quem ainda sente pelos outros. A frase sobre os aventureiros (capítulo XII da Primeira Parte) é o desânimo de um menino que repete o que lê; a resposta que o príncipe lhe dá, apontar um gesto dentro da casa dele, é o método que Kólia vai aprender, e o livro mostra isso no capítulo VIII da Quarta Parte, quando ele rompe por dentro com os irmãos que viram as costas ao pai.
O pai e o príncipe são as duas figuras a quem ele se apega, e a ficha dele é a passagem de um a outro. O general é o homem que ele vigia e de quem tem pena, e que morre tentando lhe dizer a verdade (capítulo IV da Quarta Parte); o príncipe é o homem que lhe diz essa verdade com delicadeza (capítulo VIII da Quarta Parte). No fim, os dois estão perdidos, e é Kólia quem age: procura Radomski, consegue a Suíça para o príncipe, fica com a mãe (capítulo XII da Quarta Parte).
Relações
- Ardalion Alieksándrovitch Ívolguin, o pai, que ele vigia (capítulo VIII da Primeira Parte), de quem tem pena (capítulo XII da Primeira Parte) e que cai diante dele tentando confessar (capítulo IV da Quarta Parte).
- Gavrila Ardaliónovitch Ívolguin, o irmão, de quem pede emprestado um cachecol (capítulo I da Segunda Parte) e com quem rompe por dentro (capítulo VIII da Quarta Parte).
- Varvara Ardaliónovna Ívolguina, a irmã, que ele acha caridosa por amor-próprio (capítulo XII da Primeira Parte).
- Liev Nikoláievitch Míchkin, o amigo a quem abraça depois da bofetada (capítulo X da Primeira Parte), socorre depois do ataque (capítulo V da Segunda Parte) e a quem se oferece como servo fiel (capítulo VIII da Quarta Parte).
- Hippolit Tieriêntiev, o amigo doente, com quem quer morar (capítulo XII da Primeira Parte) e cuja Explicação admira (capítulo IX da Terceira Parte).
- Aglaia Ivánovna Iepántchina, a quem leva o bilhete da Páscoa (capítulo I da Segunda Parte) e o ouriço (capítulo V da Quarta Parte).
- Ielisavieta Prokófievna Iepántchina, que ele conquista por não bajular (capítulo I da Segunda Parte).
- Ievguiêni Pávlovitch Radomski, que ele procura para salvar o príncipe e que passa a escrever a ele (capítulo XII da Quarta Parte).