Clavis Libri

Tema em Os Irmãos Karamázov

Fé

O ato pessoal de crer, e a dúvida que o acompanha: conversão, perda da fé, confiança em Deus.

O tema na obra

Em Os Irmãos Karamázov a fé quase nunca é discutida como doutrina: é medida pelo que cada um exige para crer, ou pelo que faz quando o sinal esperado não vem. Stáriets Zossima ensina que ela nasce do amor posto em prática, e não de uma prova; Ivan Fiódorovitch Karamázov aceita Deus e devolve o mundo que Ele criou; Smierdiakóv a trata como contabilidade de prazo e de recompensa; Fiódor Pávlovitch Karamázov, como assunto de agenda; o mosteiro, no dia da morte do mestre, a mede pelo cheiro de um caixão. No meio dessas medidas o livro põe Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov, que não duvida de Deus e descobre, no pior dia da vida, que o que o sustentava era um desejo de justiça. A pergunta que atravessa a obra é o que resta de uma fé quando nenhuma das provas esperadas chega, e a resposta nunca vem como tese: vem como cena.

No capítulo IV do Livro II, a senhora Khokhlakova, que diz sofrer de incredulidade na vida futura, pede ao stáriets uma prova, e ele responde que prova não há, mas convicção sim.

Опытом деятельной любви., Pela experiência do amor ativo.
Livro II: Uma reunião intempestiva

No capítulo VII do Livro III, à mesa de Fiódor, a propósito de um soldado esfolado vivo por não renegar Cristo, Smierdiakóv mede a fé do velho criado Grigori pela montanha que não se move.

попробуйте сами-с сказать сей горе, чтобы не то чтобы в море (потому что до моря отсюда далеко-с), но даже хоть в речку нашу вонючую съехала, вот что у нас за садом течет, то и увидите сами в тот же момент, что ничего не съедет-с, experimente o senhor mesmo dizer a esta montanha que, não digo para o mar (porque daqui até o mar é longe), mas ao menos para o nosso rio fedorento, o que corre atrás do jardim, se mova, e o senhor verá na mesma hora que nada se moverá.
Livro III: Os sensuais

Fiódor, rindo, admite que a descrença dele é questão de horário.

здесь мы все от легкомыслия лишь не веруем, потому что нам некогда: во-первых, дела одолели, а во-вторых, времени бог мало дал, всего во дню определил только двадцать четыре часа, так что некогда и выспаться, не только покаяться., aqui nós todos não cremos só por leviandade, porque não temos tempo: primeiro, os negócios nos esmagam, e segundo, Deus nos deu pouco tempo, determinou por dia só vinte e quatro horas, de modo que não dá tempo nem de dormir, quanto mais de se arrepender.
Livro III: Os sensuais

No capítulo VIII do Livro III, de conhaque na mão, Fiódor pergunta a sério, primeiro a Ivan e depois a Aliócha, se Deus existe, e ouve uma resposta e a contrária.

Нет, нету бога., Não, Deus não existe.
Livro III: Os sensuais
И бог, и бессмертие. В боге и бессмертие., Deus e imortalidade. Em Deus está também a imortalidade.
Livro III: Os sensuais

No capítulo III do Livro V, no botequim, Ivan diz que aceita a sabedoria e o fim de Deus, tão desconhecidos de nós, e que o que recusa é outra coisa.

Я не бога не принимаю, пойми ты это, я мира, им созданного, мира-то божьего не принимаю и не могу согласиться принять, não é Deus que eu não aceito, entenda bem, o que eu não aceito é o mundo criado por Ele, o mundo de Deus, e não posso concordar em aceitá-lo.
Livro V: Pró e contra

No capítulo II do Livro VII, no dia em que o corpo do mestre cheira, Rakítin pergunta a Aliócha se foi só por isso que ele se zangou com Deus, e Aliócha responde irritado.

Верил, верую, и хочу веровать, и буду веровать, ну чего тебе еще!, Acreditei, acredito, quero acreditar e vou acreditar, o que mais você quer!
Livro VII: Aliócha

No capítulo IV do Livro VII, depois da noite do sonho e da terra, ele diz o que aconteceu, sem nomear quem veio.

«Кто-то посетил мою душу в тот час», «Alguém visitou a minha alma naquela hora».
Livro VII: Aliócha

No capítulo IX do Livro XI, o visitante que Ivan toma por alucinação confessa o seu sonho: não é tentar, é crer.

Моя мечта это — воплотиться, но чтоб уж окончательно, безвозвратно, в какую-нибудь толстую семипудовую купчиху и всему поверить, во что она верит. Мой идеал — войти в церковь и поставить свечку от чистого сердца, ей-богу так. Тогда предел моим страданиям., o meu sonho é encarnar, mas de vez, sem volta, numa comerciante gorda de sete puds, e acreditar em tudo em que ela acredita. O meu ideal é entrar numa igreja e acender uma vela de coração limpo, juro. Então terminariam os meus sofrimentos.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

No capítulo X do Livro XI, Aliócha, ao adormecer ao lado do irmão febril, reduz a doença dele a uma alternativa.

Бог победит! [...] Или восстанет в свете правды, или… погибнет в ненависти, мстя себе и всем за то, что послужил тому, во что не верит, Deus vencerá! [...] Ou ele se levantará à luz da verdade, ou perecerá no ódio, vingando-se de si e de todos por ter servido àquilo em que não crê.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

No capítulo XIV do Livro XII, na última fala antes de o júri se retirar, Mítia pede o que mais teme perder.

Но пощадите, не лишите меня бога моего, знаю себя: возропщу!, mas poupem-me, não me privem do meu Deus; conheço-me: vou me revoltar!
Livro XII: Um erro judiciário

No capítulo III do Epílogo, junto à pedra, Kólia Krassótkin, que no Livro X falava de Deus como hipótese, faz a pergunta de menino e ouve a resposta de Aliócha.

неужели и взаправду религия говорит, что мы все встанем из мертвых, и оживем, и увидим опять друг друга, и всех, и Илюшечку?, será mesmo verdade que a religião diz que todos nós nos levantaremos dos mortos, reviveremos e nos veremos de novo uns aos outros, e a todos, e a Iliúchetchka?
Epílogo: O enterro de Iliúcha
Непременно восстанем, непременно увидим и весело, радостно расскажем друг другу всё, что было, sem dúvida nos levantaremos, sem dúvida nos veremos e contaremos uns aos outros, alegres, felizes, tudo o que aconteceu.
Epílogo: O enterro de Iliúcha

Quem o encarna

Zossima é a fé que se prova agindo: no capítulo IV do Livro II não oferece argumento a quem pede prova, oferece caminho. Aliócha é a fé ferida que continua, e o texto a mostra no dia da perda, e não no da paz. Ivan é a fé que se retira na hora de aceitar: aceita Deus, devolve o bilhete. Smierdiakóv é a fé como cálculo, e Fiódor, a fé como adiamento. O padre Paíssi e o padre Ferapont, no cheiro do caixão, são duas maneiras de ler um sinal.

Onde aparece

  • Livro II, capítulo IV: A senhora Khokhlakova pede ao stáriets uma prova da vida futura, e ele responde com a experiência do amor ativo.
  • Livro III, capítulo VII: Smierdiakóv desafia Grigori a mover uma montanha, e Fiódor diz que não crê por falta de tempo.
  • Livro III, capítulo VIII: Fiódor pergunta aos filhos se Deus existe, e Ivan nega e Aliócha afirma.
  • Livro V, capítulo III: Ivan diz a Aliócha que aceita Deus e não aceita o mundo que Ele criou.
  • Livro VII, capítulo I: O cheiro do caixão de Zossima divide o mosteiro entre quem lê nele um veredito e quem se cala.
  • Livro VII, capítulo II: Aliócha diz a Rakítin que acredita e quer acreditar, e que o que recusa é o mundo.
  • Livro VII, capítulo IV: No sonho de Caná e na noite da terra, Aliócha sente que alguém visitou a sua alma.
  • Livro XI, capítulo IX: O diabo de Ivan diz que o seu ideal é acender uma vela de coração limpo, e Ivan diz que gostaria de crer nele.
  • Livro XI, capítulo X: Aliócha reza por Ivan, entre a luz da verdade e o ódio de quem serviu ao que não crê.
  • Livro XII, capítulo XIV: Mítia pede ao tribunal que não o prive do seu Deus, porque sabe que se revoltará.
  • Epílogo, capítulo III: Kólia pergunta se é verdade que todos ressuscitarão, e Aliócha responde que sim, e que contarão uns aos outros tudo o que houve.

Onde as leituras divergem

Joseph Frank, ao ler o romance pelas anotações do autor, registra que Dostoiévski rejeitava a pecha de fé ignorante.

Sobre a acusação de fé "ignorante e retrógrada":

não é como tolo ou fanático que acredito em Deus [...] a estupidez deles não poderia sonhar com uma negação tão forte à que experimentei
Joseph Frank

O livro admite duas leituras da fé que propõe. Numa, é apologética: Zossima, Aliócha e Mítia respondem à revolta de Ivan, e a fé que dura é a que não exige prova e age. Na outra, o romance nunca refuta Ivan: mostra vidas que creem, e a pergunta que fecha o livro é feita por um menino.

O texto sustenta as duas porque a fé de Aliócha chega sem prova e sem argumento. No capítulo IV do Livro VII, ele diz que alguém visitou a sua alma, e o russo, que deixa esse alguém sem nome, não decide entre milagre e fim de uma tensão. O diabo de Ivan, no capítulo IX do Livro XI, sugere que crer é uma capacidade antes de ser uma razão: ele quer acender uma vela de coração limpo e não consegue, e Ivan, que tem razões de sobra, também não. A fé do livro, nesse sentido, não é a vencedora de um debate, é o que sobra em quem consegue amar sem sinal, e por isso os sinais que o mosteiro esperava, a incorruptibilidade que não veio, o milagre que não houve, nunca decidem nada.