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O cão Argos

O que é

Argos é o cão que Odisseu criou antes de partir para Troia. Os jovens o levavam à caça de cabras selvagens, de corças e de lebres. Agora o dono está longe há vinte anos, e o cão jaz sobre o esterco dos mulos e dos bois, à porta do palácio, coberto de carrapatos.

Onde aparece

Argos aparece uma só vez, no Canto XVII. Odisseu, disfarçado de mendigo, e Eumeu chegam à porta e ouvem a lira de Fêmio. O narrador apresenta o cão:

δὴ τότε κεῖτʼ ἀπόθεστος ἀποιχομένοιο ἄνακτος, / ἐν πολλῇ κόπρῳ, (17.296-297), então jazia abandonado, sem o dono ausente, sobre muito esterco,
Canto XVII: O mendigo no palácio

Um cão deitado levanta a cabeça e as orelhas. Ao ver Odisseu, reconhece o dono:

οὐρῇ μέν ῥʼ ὅ γʼ ἔσηνε καὶ οὔατα κάββαλεν ἄμφω, / ἆσσον δʼ οὐκέτʼ ἔπειτα δυνήσατο οἷο ἄνακτος / ἐλθέμεν· αὐτὰρ ὁ νόσφιν ἰδὼν ἀπομόρξατο δάκρυ, (17.302-304), com a cauda fez festa e baixou as duas orelhas, mas já não pôde chegar perto de seu dono; e Odisseu, olhando para o lado, enxugou uma lágrima,
Canto XVII: O mendigo no palácio

Odisseu pergunta a Eumeu que cão é aquele, se era rápido ou só de enfeite, e Eumeu responde que foi cão de um dono que morreu longe, veloz e certeiro no rastro, e que agora as servas não cuidam dele:

ἥμισυ γάρ τʼ ἀρετῆς ἀποαίνυται εὐρύοπα Ζεὺς / ἀνέρος, εὖτʼ ἄν μιν κατὰ δούλιον ἦμαρ ἕλῃσιν. (17.322-323), pois Zeus de voz ampla tira metade da excelência do homem, quando o dia de escravo o apanha.
Canto XVII: O mendigo no palácio

Eumeu entra no palácio, e o narrador fecha a cena:

Ἄργον δʼ αὖ κατὰ μοῖρʼ ἔλαβεν μέλανος θανάτοιο, / αὐτίκʼ ἰδόντʼ Ὀδυσῆα ἐεικοστῷ ἐνιαυτῷ. (17.326-327), a Argos, porém, tomou o destino da negra morte, assim que viu Odisseu no vigésimo ano.
Canto XVII: O mendigo no palácio

Nos cantos vizinhos, os cães da cabana de Eumeu fazem o contrário: no Canto XIV, correm latindo contra o mendigo, que se senta e larga o cajado; no Canto XVI, fazem festa a Telêmaco e não latem para a deusa que só Odisseu e eles veem.

O que significa

Argos reconhece o dono quando ninguém mais o reconhece, nem Eumeu, que está ao lado. Tudo o que o cão consegue é o movimento da cauda e das orelhas, e Odisseu só pode responder com a lágrima enxugada de lado, escondida de Eumeu. O disfarce cobra o seu preço: o herói não pode ir ao encontro do único que o reconheceu.

O poema liga a morte do cão ao reconhecimento sem comentar. A espera de Argos tinha um único objeto, e a morte o apanha no momento em que ele se cumpre, vinte anos depois. O abandono do cão é também o dos servos sem a mão do senhor, e a máxima de Eumeu, de que Zeus tira metade da excelência do homem quando o dia da escravidão o apanha, ganha, dita diante do senhor disfarçado, um segundo sentido que ele não percebe.

Argos é o único a reconhecer Odisseu sem exigir prova. Telêmaco pede uma explicação, a ama toca a cicatriz, os servos veem a marca, Penélope quer o leito e Laertes, as árvores. O cão não pede nada, e Odisseu não lhe dá nem nome nem sinal. A fidelidade dele aparece como o oposto da dúvida prudente de Penélope e de Eumeu, que se protegem de serem enganados, e a morte o apanha logo depois.

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