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O lótus

O que é

O lótus é o fruto doce, como mel, de uma flor que dá nome aos lotófagos, o povo que a come. Odisseu chega à terra deles no décimo dia dos ventos funestos que o desviam de Ítaca ao dobrar o cabo Maleia. Os lotófagos não fazem mal aos homens que o herói manda explorar: oferecem-lhes o lótus. Quem prova o fruto já não quer voltar com notícias nem regressar, e quer ficar entre eles comendo lótus, esquecido do retorno.

Onde aparece

Tudo acontece no Canto IX, no relato que Odisseu faz aos feácios. Ele manda dois homens e um arauto saber que gente vive ali:

τῶν δʼ ὅς τις λωτοῖο φάγοι μελιηδέα καρπόν, / οὐκέτʼ ἀπαγγεῖλαι πάλιν ἤθελεν οὐδὲ νέεσθαι, / ἀλλʼ αὐτοῦ βούλοντο μετʼ ἀνδράσι Λωτοφάγοισι / λωτὸν ἐρεπτόμενοι μενέμεν νόστου τε λαθέσθαι. (9.94-97), mas quem quer que provasse o fruto do lótus, doce como mel, já não queria voltar com notícias nem regressar, e queriam ficar ali mesmo, entre os lotófagos, comendo lótus e esquecendo o retorno.
Canto IX: O ciclope

Odisseu arrasta os que comeram, chorando, de volta às naus e os prende sob os bancos, e manda os demais embarcarem depressa, para que ninguém, ao comer lótus, se esqueça do retorno. A mesma regra ele dissera na abertura do relato, ao descrever a pátria que recusou trocar por Calipso e por Circe:

τρηχεῖʼ, ἀλλʼ ἀγαθὴ κουροτρόφος· οὔ τοι ἐγώ γε / ἧς γαίης δύναμαι γλυκερώτερον ἄλλο ἰδέσθαι. (9.27-28), áspera, mas boa criadora de rapazes; eu, de fato, não consigo ver nenhuma outra terra mais doce do que a dela.
Canto IX: O ciclope

No Canto X, o esquecimento volta em outra forma. Circe mistura drogas funestas ao vinho, para que os companheiros esqueçam a pátria, mas o efeito não vem por inteiro:

οἱ δὲ συῶν μὲν ἔχον κεφαλὰς φωνήν τε τρίχας τε / καὶ δέμας, αὐτὰρ νοῦς ἦν ἔμπεδος, ὡς τὸ πάρος περ. (10.239-240), eles tinham dos porcos a cabeça, a voz, as cerdas e o corpo, mas o espírito era firme, como antes.
Canto X: Éolo, os lestrigões e Circe

Passado um ano na casa dela, são os companheiros que chamam Odisseu de lado:

δαιμόνιʼ, ἤδη νῦν μιμνήσκεο πατρίδος αἴης, / εἴ τοι θέσφατόν ἐστι σαωθῆναι καὶ ἱκέσθαι / οἶκον ἐς ὑψόροφον καὶ σὴν ἐς πατρίδα γαῖαν. (10.472-474), homem estranho, lembra-te agora da tua pátria, se está destinado que te salves e chegues à casa de teto alto e à tua terra pátria.
Canto X: Éolo, os lestrigões e Circe

No Canto XXIII, na noite do reencontro, Odisseu conta a Penélope a viagem inteira, e a terra dos lotófagos vem logo depois dos cícones.

O que significa

Os lotófagos não tramam morte, e o perigo é a doçura. O lótus apaga o desejo do nóstos, o regresso que é o assunto do poema, e por isso Odisseu usa a força contra os próprios homens: prende-os sob os bancos, com o motivo dito por ele, o de que ninguém esqueça o retorno. A pátria vale mais que a doçura, e o herói diz isso a anfitriões ricos que o cobrem de presentes, o que pode ser ouvido como cortesia e como aviso de que nada do que dão substitui a casa.

O lótus tem parentes no poema. Calipso oferece a imortalidade, argumentando com as penas que o destino ainda lhe reserva, e Odisseu concede que Penélope é inferior e continua querendo voltar todos os dias (Canto V). A droga de Helena, lançada no vinho para tirar a dor e a cólera e fazer esquecer todos os males, serve para alegrar a mesa de Esparta (Canto IV). Em todos os casos a oferta é de alívio, e a recusa é de quem prefere o retorno.

O lótus é o contrário de duas outras coisas do poema. De Circe, que transforma os companheiros em porcos sem apagar-lhes a mente, e deixa-os lembrando sem poder agir; e de Argos, que espera vinte anos sem esquecer e morre ao ver o dono (Canto XVII). O poema parece medir cada esquecimento pelo que faz com o retorno: o lótus o apaga sem dor, Circe o suspende com dor, e a lembrança de Argos o espera.

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