Quem é
Odisseu é o rei de Ítaca que o poema pede à Musa, no primeiro verso, como o homem de muitas voltas: o que muito vagou e o que tem muitos expedientes. Saqueou Troia e, quando a história começa, é o único sobrevivente da guerra que ainda não voltou para casa, retido numa ilha pela ninfa Calipso. É marido de Penélope, pai de Telêmaco e filho de Laertes. Em casa, nobres de Ítaca e das ilhas vizinhas cortejam a mulher dele e consomem seus bens. O poema o define pela astúcia e pela palavra mais do que pela força, e o faz narrar contra si mesmo as perdas dos companheiros. Atrás de tudo corre um desejo mínimo e inteiro, o de ver de novo a própria terra, e a ira de Poseidon o faz vagar longe da pátria.
Trajetória
No Canto I, Odisseu não aparece, e o poema o instala como ausência. O proêmio o pede à Musa pelo adjetivo, polýtropos, e isenta-o da morte dos companheiros antes de qualquer aventura. No concílio dos deuses, Atena diz que ele está preso na ilha de Calipso e deseja ver ao menos a fumaça da sua terra.
ἄνδρα μοι ἔννεπε, μοῦσα, πολύτροπον, ὃς μάλα πολλὰ / πλάγχθη, ἐπεὶ Τροίης ἱερὸν πτολίεθρον ἔπερσεν·(1.1-2), fala-me, Musa, do homem de muitas voltas, que muito vagou depois de saquear a cidadela sagrada de Troia.
αὐτῶν γὰρ σφετέρῃσιν ἀτασθαλίῃσιν ὄλοντο, / νήπιοι,(1.7-8), pois pereceram pela própria insensatez, os tolos.
αὐτὰρ Ὀδυσσεύς, / ἱέμενος καὶ καπνὸν ἀποθρῴσκοντα νοῆσαι / ἧς γαίης, θανέειν ἱμείρεται.(1.57-59), mas Odisseu, desejando ver ao menos a fumaça subindo da sua terra, anseia por morrer.
No Canto II, ele continua ausente, mas é medido pelo que deixou: o adivinho Haliterses lembra que previu, quando Odisseu partiu, que ele voltaria no vigésimo ano, desconhecido de todos, e Mentor acusa o povo de se esquecer de um rei que governou como pai.
φῆν κακὰ πολλὰ παθόντʼ, ὀλέσαντʼ ἄπο πάντας ἑταίρους, / ἄγνωστον πάντεσσιν ἐεικοστῷ ἐνιαυτῷ / οἴκαδʼ ἐλεύσεσθαι· τὰ δὲ δὴ νῦν πάντα τελεῖται.(2.174-176), disse que, depois de sofrer muitos males e perder todos os companheiros, ele voltaria para casa no vigésimo ano, desconhecido de todos; e agora tudo isso se cumpre.
νῦν δʼ ἄλλῳ δήμῳ νεμεσίζομαι, οἷον ἅπαντες / ἧσθʼ ἄνεῳ, ἀτὰρ οὔ τι καθαπτόμενοι ἐπέεσσι / παύρους μνηστῆρας καταπαύετε πολλοὶ ἐόντες.(2.239-241), mas indigno-me com o resto do povo, porque todos estais sentados, calados, e não detendes com palavras, sendo muitos, os poucos pretendentes.
No Canto III, Nestor responde ao que Telêmaco veio buscar, o testemunho sobre o pai: ninguém em Troia queria medir-se com ele em astúcia, e os dois nunca discordaram em conselho. Do fim dele, Nestor não sabe nada.
ἔνθʼ οὔ τίς ποτε μῆτιν ὁμοιωθήμεναι ἄντην / ἤθελʼ, ἐπεὶ μάλα πολλὸν ἐνίκα δῖος Ὀδυσσεὺς / παντοίοισι δόλοισι, πατὴρ τεός, εἰ ἐτεόν γε(3.120-122), ali ninguém jamais quis medir-se com ele em astúcia, porque o divino Odisseu vencia de longe com toda sorte de ardis, o teu pai.
No Canto IV, Menelau diz que chora por todos os mortos de Troia, mas por um acima dos outros, Odisseu. Helena conta que ele entrou em Troia como mendigo e que só ela o reconheceu, e Menelau conta que, dentro do cavalo, ele segurou a boca de Anticlo quando a voz das esposas chamava os chefes de fora. Por fim, o relato de Proteu dá a primeira notícia segura: Odisseu está numa ilha, chorando, retido por Calipso.
ἀλλʼ Ὀδυσεὺς ἐπὶ μάστακα χερσὶ πίεζεν / νωλεμέως κρατερῇσι, σάωσε δὲ πάντας Ἀχαιούς(4.287-288), mas Odisseu apertou-lhe a boca com as mãos, firmes, sem folga, e salvou todos os aqueus.
τὸν δʼ ἴδον ἐν νήσῳ θαλερὸν κατὰ δάκρυ χέοντα, / νύμφης ἐν μεγάροισι Καλυψοῦς, ἥ μιν ἀνάγκῃ / ἴσχει· ὁ δʼ οὐ δύναται ἣν πατρίδα γαῖαν ἱκέσθαι(4.556-558), vi-o numa ilha, derramando lágrimas abundantes, no palácio da ninfa Calipso, que o retém à força; e ele não pode chegar à sua terra.
No Canto V, Odisseu aparece pela primeira vez, sentado na praia, chorando. À noite ele dorme com Calipso por constrangimento, e de dia olha o mar. Quando ela lhe oferece a imortalidade, ele concede que Penélope é inferior em aparência e continua querendo voltar. Constrói a balsa com o machado e a enxó, navega dezessete dias guiado pelas estrelas e, na tempestade de Poseidon, lamenta não ter morrido em Troia, onde teria funeral e fama. Chega à foz de um rio e suplica ao deus dele, e o canto fecha com ele coberto de folhas como a brasa sob a cinza.
πότνα θεά, μή μοι τόδε χώεο· οἶδα καὶ αὐτὸς / πάντα μάλʼ, οὕνεκα σεῖο περίφρων Πηνελόπεια / εἶδος ἀκιδνοτέρη μέγεθός τʼ εἰσάντα ἰδέσθαι· / ἡ μὲν γὰρ βροτός ἐστι, σὺ δʼ ἀθάνατος καὶ ἀγήρως. / ἀλλὰ καὶ ὣς ἐθέλω καὶ ἐέλδομαι ἤματα πάντα / οἴκαδέ τʼ ἐλθέμεναι καὶ νόστιμον ἦμαρ ἰδέσθαι(5.215-220), soberana deusa, não te irrites comigo por isto: eu mesmo sei muito bem que a prudente Penélope é inferior a ti no aspecto e na estatura, a quem a olhe de frente; pois ela é mortal, e tu és imortal e sem velhice. Mas, ainda assim, quero e desejo todos os dias voltar para casa e ver o dia do regresso.
ὡς δὴ ἐγώ γʼ ὄφελον θανέειν καὶ πότμον ἐπισπεῖν / ἤματι τῷ ὅτε μοι πλεῖστοι χαλκήρεα δοῦρα / Τρῶες ἐπέρριψαν περὶ Πηλεΐωνι θανόντι. / τῷ κʼ ἔλαχον κτερέων, καί μευ κλέος ἦγον Ἀχαιοί· / νῦν δέ με λευγαλέῳ θανάτῳ εἵμαρτο ἁλῶναι(5.308-312), assim eu devia ter morrido e cumprido o meu destino no dia em que, junto ao corpo do Pelida morto, os troianos lançaram contra mim muitíssimas lanças de bronze; teria recebido honras fúnebres, e os aqueus levariam a minha fama; agora estava destinado a ser capturado por uma morte lamentável.
αἰδοῖος μέν τʼ ἐστὶ καὶ ἀθανάτοισι θεοῖσιν / ἀνδρῶν ὅς τις ἵκηται ἀλώμενος, ὡς καὶ ἐγὼ νῦν / σόν τε ῥόον σά τε γούναθʼ ἱκάνω πολλὰ μογήσας. / ἀλλʼ ἐλέαιρε, ἄναξ· ἱκέτης δέ τοι εὔχομαι εἶναι(5.447-450), é digno de respeito até para os deuses imortais o homem que chega errante, como eu agora chego à tua corrente e aos teus joelhos, depois de muito penar. Tem piedade, senhor: declaro-me teu suplicante.
ὡς δʼ ὅτε τις δαλὸν σποδιῇ ἐνέκρυψε μελαίνῃ / ἀγροῦ ἐπʼ ἐσχατιῆς, ᾧ μὴ πάρα γείτονες ἄλλοι, / σπέρμα πυρὸς σώζων, ἵνα μή ποθεν ἄλλοθεν αὔοι, / ὣς Ὀδυσεὺς φύλλοισι καλύψατο(5.488-491), como quando alguém esconde um tição na cinza escura, no limite do campo, onde não há outros vizinhos, guardando a semente do fogo para não ter de acendê-lo em outro lugar, assim Odisseu se cobriu de folhas.
No Canto VI, desperta com os gritos das moças e sai da mata nu, cobrindo-se com um ramo. Pergunta a si mesmo se a terra é de soberbos ou de hospitaleiros. Diante de Nausícaa, escolhe suplicar de longe, para não constrangê-la, e com palavras que o narrador chama de doces e calculadas.
ὤ μοι ἐγώ, τέων αὖτε βροτῶν ἐς γαῖαν ἱκάνω; / ἦ ῥʼ οἵ γʼ ὑβρισταί τε καὶ ἄγριοι οὐδὲ δίκαιοι, / ἦε φιλόξεινοι καί σφιν νόος ἐστὶ θεουδής(6.119-121), ai de mim, a terra de quais mortais alcanço de novo? Serão soberbos, selvagens e sem justiça, ou hospitaleiros, com mente que teme os deuses?
ὣς ἄρα οἱ φρονέοντι δοάσσατο κέρδιον εἶναι, / λίσσεσθαι ἐπέεσσιν ἀποσταδὰ μειλιχίοισι, / μή οἱ γοῦνα λαβόντι χολώσαιτο φρένα κούρη(6.145-147), assim, enquanto pensava, pareceu-lhe mais vantajoso suplicar com palavras doces, de longe, para que, se lhe tomasse os joelhos, a moça não se irritasse no ânimo.
No Canto VII, entra no palácio de Alcínoo coberto por uma névoa de Atena e abraça os joelhos da rainha Arete, e a névoa se desfaz. Pede só a escolta, nega ser um deus e adia o relato porque a fome o obriga a comer. Responde a Arete só ao que ela pergunta e não diz o nome.
ἀμφὶ δʼ ἄρʼ Ἀρήτης βάλε γούνασι χεῖρας Ὀδυσσεύς, / καὶ τότε δή ῥʼ αὐτοῖο πάλιν χύτο θέσφατος ἀήρ(7.142-143), Odisseu lançou as mãos aos joelhos de Arete, e então a névoa divina se desfez dele.
Ἀλκίνοʼ, ἄλλο τί τοι μελέτω φρεσίν· οὐ γὰρ ἐγώ γε / ἀθανάτοισιν ἔοικα, τοὶ οὐρανὸν εὐρὺν ἔχουσιν, / οὐ δέμας οὐδὲ φυήν, ἀλλὰ θνητοῖσι βροτοῖσιν. / οὕς τινας ὑμεῖς ἴστε μάλιστʼ ὀχέοντας ὀιζὺν / ἀνθρώπων, τοῖσίν κεν ἐν ἄλγεσιν ἰσωσαίμην(7.208-212), Alcínoo, preocupa-te de outra coisa: não me pareço com os imortais que têm o amplo céu, nem no corpo nem na figura, mas com os mortais. Aqueles que sabeis suportar mais miséria entre os homens, a eles eu me igualaria nas dores.
ἰδόντα με καὶ λίποι αἰὼν / κτῆσιν ἐμήν, δμῶάς τε καὶ ὑψερεφὲς μέγα δῶμα(7.224-225), e que a vida me deixe depois de eu ter visto meus bens, minhas servas e a grande casa de alto teto.
No Canto VIII, ainda sem nome, esconde o rosto no manto quando o aedo Demódoco canta a briga dele com Aquiles. Ofendido por Euríalo, que o toma por mercador, responde com uma teoria sobre aparência e palavra e arremessa o disco além de todas as marcas. Na terceira canção, ele mesmo pede o cavalo de madeira, e o choro que a canção lhe arranca é o que faz Alcínoo exigir o nome.
ταῦτʼ ἄρʼ ἀοιδὸς ἄειδε περικλυτός· αὐτὰρ Ὀδυσσεὺς / πορφύρεον μέγα φᾶρος ἑλὼν χερσὶ στιβαρῇσι / κὰκ κεφαλῆς εἴρυσσε, κάλυψε δὲ καλὰ πρόσωπα· / αἴδετο γὰρ Φαίηκας ὑπʼ ὀφρύσι δάκρυα λείβων.(8.83-86), isto cantava o aedo famoso; mas Odisseu, tomando nas mãos fortes o grande manto de púrpura, puxou-o sobre a cabeça e cobriu o belo rosto, pois tinha vergonha dos feácios, deixando cair lágrimas sob as sobrancelhas.
ἄλλος μὲν γάρ τʼ εἶδος ἀκιδνότερος πέλει ἀνήρ, / ἀλλὰ θεὸς μορφὴν ἔπεσι στέφει, οἱ δέ τʼ ἐς αὐτὸν / τερπόμενοι λεύσσουσιν· ὁ δʼ ἀσφαλέως ἀγορεύει / αἰδοῖ μειλιχίῃ, μετὰ δὲ πρέπει ἀγρομένοισιν, / ἐρχόμενον δʼ ἀνὰ ἄστυ θεὸν ὣς εἰσορόωσιν.(8.169-173), pois um homem é mais fraco de aspecto, mas um deus coroa de beleza as suas palavras, e os que o olham contemplam-no com prazer; e ele fala com segurança, com doce respeito, e se destaca entre os reunidos, e quando anda pela cidade olham-no como a um deus.
ἀλλʼ ἄγε δὴ μετάβηθι καὶ ἵππου κόσμον ἄεισον / δουρατέου, τὸν Ἐπειὸς ἐποίησεν σὺν Ἀθήνῃ, / ὅν ποτʼ ἐς ἀκρόπολιν δόλον ἤγαγε δῖος Ὀδυσσεὺς / ἀνδρῶν ἐμπλήσας οἵ ῥʼ Ἴλιον ἐξαλάπαξαν.(8.492-495), mas vamos, muda de assunto e canta a construção do cavalo de madeira, que Epeio fez com Atena, e que o divino Odisseu levou como ardil à acrópole, tendo-o enchido de homens que destruíram Ílion.
No Canto IX, diz o nome antes de qualquer aventura e conta, contra si mesmo, que os companheiros, tolos, não o obedeceram em Ísmaro e que ele não os ouviu na gruta do ciclope, porque queria ver o dono e receber presentes. Cega o ciclope com a estaca e escapa sob o carneiro. Diz primeiro que se chama Ninguém e depois, já no mar, grita o nome verdadeiro com filiação e endereço.
εἴμʼ Ὀδυσεὺς Λαερτιάδης, ὃς πᾶσι δόλοισιν / ἀνθρώποισι μέλω, καί μευ κλέος οὐρανὸν ἵκει.(9.19-20), sou Odisseu, filho de Laertes, que por todos os ardis sou assunto entre os homens, e minha fama chega ao céu.
ἀλλʼ ἐγὼ οὐ πιθόμην, ἦ τʼ ἂν πολὺ κέρδιον ἦεν, / ὄφρʼ αὐτόν τε ἴδοιμι, καὶ εἴ μοι ξείνια δοίη.(9.228-229), mas eu não obedeci (e muito mais proveitoso teria sido), para que o visse e visse se me daria presentes de hóspede.
Οὖτις ἐμοί γʼ ὄνομα· Οὖτιν δέ με κικλήσκουσι / μήτηρ ἠδὲ πατὴρ ἠδʼ ἄλλοι πάντες ἑταῖροι.(9.366-367), Ninguém é meu nome: Ninguém me chamam minha mãe, meu pai e todos os outros companheiros.
Κύκλωψ, αἴ κέν τίς σε καταθνητῶν ἀνθρώπων / ὀφθαλμοῦ εἴρηται ἀεικελίην ἀλαωτύν, / φάσθαι Ὀδυσσῆα πτολιπόρθιον ἐξαλαῶσαι, / υἱὸν Λαέρτεω, Ἰθάκῃ ἔνι οἰκίʼ ἔχοντα.(9.502-505), Ciclope, se algum dos mortais te perguntar sobre a vergonhosa cegueira do olho, diz que quem te cegou foi Odisseu, saqueador de cidades, filho de Laertes, que tem casa em Ítaca.
No Canto X, vê os fogos de Ítaca no décimo dia e adormece, e os companheiros abrem o odre dos ventos. Acordado em meio à tormenta, escolhe aguentar. Perde toda a frota menos um navio entre os lestrigões e, com a erva que Hermes lhe dá, vence a droga de Circe, que o reconhece pela resistência.
ἠὲ πεσὼν ἐκ νηὸς ἀποφθίμην ἐνὶ πόντῳ, / ἦ ἀκέων τλαίην καὶ ἔτι ζωοῖσι μετείην. / ἀλλʼ ἔτλην καὶ ἔμεινα,(10.51-53), se cairia do navio para perecer no mar, ou se calado suportaria e continuaria entre os vivos. Mas suportei e fiquei,
σοὶ δέ τις ἐν στήθεσσιν ἀκήλητος νόος ἐστίν. / ἦ σύ γʼ Ὀδυσσεύς ἐσσι πολύτροπος,(10.329-330), tens no peito uma mente que o feitiço não prende. Tu és certamente Odisseu, o de muitas voltas,
No Canto XI, desce vivo ao Hades por ordem de Circe. Tirésias lhe profetiza a volta tarde e mal, sem companheiros, e a casa tomada. A mãe, Anticleia, lhe diz que morreu de saudade dele, e ele tenta três vezes abraçá-la. Agamêmnon lhe aconselha a não revelar à esposa toda a história que conhece.
εἰ δέ κε σίνηαι, τότε τοι τεκμαίρομʼ ὄλεθρον, / νηί τε καὶ ἑτάροις. αὐτὸς δʼ εἴ πέρ κεν ἀλύξῃς, / ὀψὲ κακῶς νεῖαι, ὀλέσας ἄπο πάντας ἑταίρους, / νηὸς ἐπʼ ἀλλοτρίης· δήεις δʼ ἐν πήματα οἴκῳ,(11.112-115), mas se as feres, então te anuncio a perdição do navio e dos companheiros. E tu mesmo, ainda que escapes, voltarás tarde e mal, tendo perdido todos os companheiros, em navio alheio; e encontrarás desgraças em casa,
τρὶς μὲν ἐφωρμήθην, ἑλέειν τέ με θυμὸς ἀνώγει, / τρὶς δέ μοι ἐκ χειρῶν σκιῇ εἴκελον ἢ καὶ ὀνείρῳ / ἔπτατʼ.(11.206-208), três vezes me lancei, e o ânimo me mandava segurá-la; três vezes ela voou das minhas mãos, semelhante a uma sombra ou a um sonho.
τῷ νῦν μή ποτε καὶ σὺ γυναικί περ ἤπιος εἶναι· / μή οἱ μῦθον ἅπαντα πιφαυσκέμεν, ὅν κʼ ἐὺ εἰδῇς, / ἀλλὰ τὸ μὲν φάσθαι, τὸ δὲ καὶ κεκρυμμένον εἶναι.(11.441-443), por isso, nunca sejas brando com a tua mulher, nem lhe digas toda a história que bem conheces: diz uma parte, e que a outra fique escondida.
No Canto XII, ouve as Sereias amarrado ao mastro, e faz sinal com as sobrancelhas para ser solto. Esconde dos homens o perigo de Cila. Na ilha do Sol, cede aos que querem desembarcar e faz todos jurarem que não tocarão no gado. Dorme, e o juramento é quebrado.
ὣς φάσαν ἱεῖσαι ὄπα κάλλιμον· αὐτὰρ ἐμὸν κῆρ / ἤθελʼ ἀκουέμεναι, λῦσαί τʼ ἐκέλευον ἑταίρους / ὀφρύσι νευστάζων· οἱ δὲ προπεσόντες ἔρεσσον. / αὐτίκα δʼ ἀνστάντες Περιμήδης Εὐρύλοχός τε / πλείοσί μʼ ἐν δεσμοῖσι δέον μᾶλλόν τε πίεζον.(12.192-196), Assim disseram, soltando a bela voz. E meu coração queria ouvi-las, e eu mandava os companheiros me soltarem, fazendo sinal com as sobrancelhas; eles, curvados, remavam. Logo se levantaram Perimedes e Euríloco e me prendiam com mais laços e apertavam ainda mais.
Σκύλλην δʼ οὐκέτʼ ἐμυθεόμην, ἄπρηκτον ἀνίην, / μή πώς μοι δείσαντες ἀπολλήξειαν ἑταῖροι / εἰρεσίης, ἐντὸς δὲ πυκάζοιεν σφέας αὐτούς. / καὶ τότε δὴ Κίρκης μὲν ἐφημοσύνης ἀλεγεινῆς / λανθανόμην, ἐπεὶ οὔ τί μʼ ἀνώγει θωρήσσεσθαι· / αὐτὰρ ἐγὼ καταδὺς κλυτὰ τεύχεα καὶ δύο δοῦρε / μάκρʼ ἐν χερσὶν ἑλὼν εἰς ἴκρια νηὸς ἔβαινον(12.223-229), Já não falei de Cila, aflição sem remédio, para que os companheiros, tomados de medo, não deixassem de remar e se abrigassem lá dentro. E então me esqueci da dura ordem de Circe, pois ela me mandara não me armar; vesti as armas gloriosas, tomei nas mãos duas lanças longas e subi ao convés da proa.
καὶ τότε δὴ γίγνωσκον ὃ δὴ κακὰ μήδετο δαίμων, / καί μιν φωνήσας ἔπεα πτερόεντα προσηύδων· / Εὐρύλοχʼ, ἦ μάλα δή με βιάζετε μοῦνον ἐόντα. / ἀλλʼ ἄγε νῦν μοι πάντες ὀμόσσατε καρτερὸν ὅρκον· / εἴ κέ τινʼ ἠὲ βοῶν ἀγέλην ἢ πῶυ μέγʼ οἰῶν / εὕρωμεν, μή πού τις ἀτασθαλίῃσι κακῇσιν / ἢ βοῦν ἠέ τι μῆλον ἀποκτάνῃ· ἀλλὰ ἕκηλοι / ἐσθίετε βρώμην, τὴν ἀθανάτη πόρε Κίρκη.(12.295-302), Então percebi que um deus tramava males, e, dirigindo-lhe palavras aladas, disse: "Euríloco, de fato me forçais, a mim que estou só. Vamos, jurai-me todos um juramento firme: se encontrarmos algum rebanho de bois ou um grande rebanho de ovelhas, que ninguém, por insensatezes más, mate um boi ou uma ovelha; ao contrário, comei tranquilos o alimento que a imortal Circe nos deu."
No Canto XIII, os feácios o põem dormindo em Ítaca, e ele acorda sem reconhecer a terra, porque Atena derramou névoa em volta dele. Mente à primeira pessoa que encontra, que é a própria deusa. Ela o descreve como insaciável de ardis, que não os largaria nem em casa, e diz que o que o retém é o gosto de provar a esposa antes de saber.
ὁ δʼ ἔγρετο δῖος Ὀδυσσεὺς / εὕδων ἐν γαίῃ πατρωΐῃ, οὐδέ μιν ἔγνω, / ἤδη δὴν ἀπεών· περὶ γὰρ θεὸς ἠέρα χεῦε / Παλλὰς Ἀθηναίη, κούρη Διός, ὄφρα μιν αὐτὸν / ἄγνωστον τεύξειεν ἕκαστά τε μυθήσαιτο, / μή μιν πρὶν ἄλοχος γνοίη ἀστοί τε φίλοι τε, / πρὶν πᾶσαν μνηστῆρας ὑπερβασίην ἀποτῖσαι.(13.187-193), E despertou o divino Odisseu, dormindo na terra paterna, e não a reconheceu, depois de tanto tempo ausente; pois a deusa Palas Atena, filha de Zeus, derramara névoa em volta dele, para torná-lo irreconhecível e lhe contar cada coisa, a fim de que nem a esposa, nem os cidadãos, nem os amigos o reconhecessem antes que os pretendentes pagassem toda a sua insolência.
κερδαλέος κʼ εἴη καὶ ἐπίκλοπος ὅς σε παρέλθοι / ἐν πάντεσσι δόλοισι, καὶ εἰ θεὸς ἀντιάσειε. / σχέτλιε, ποικιλομῆτα, δόλων ἆτʼ, οὐκ ἄρʼ ἔμελλες, / οὐδʼ ἐν σῇ περ ἐὼν γαίῃ, λήξειν ἀπατάων / μύθων τε κλοπίων, οἵ τοι πεδόθεν φίλοι εἰσίν.(13.291-295), Seria ladino e furtivo quem te superasse em todos os ardis, ainda que um deus te encontrasse. Obstinado, de astúcia variada, insaciável de enganos, nem mesmo em tua própria terra ias deixar as trapaças e as palavras furtivas, que te são caras desde a raiz.
ἀσπασίως γάρ κʼ ἄλλος ἀνὴρ ἀλαλήμενος ἐλθὼν / ἵετʼ ἐνὶ μεγάροις ἰδέειν παῖδάς τʼ ἄλοχόν τε· / σοὶ δʼ οὔ πω φίλον ἐστὶ δαήμεναι οὐδὲ πυθέσθαι, / πρίν γʼ ἔτι σῆς ἀλόχου πειρήσεαι, ἥ τέ τοι αὔτως / ἧσται ἐνὶ μεγάροισιν, ὀϊζυραὶ δέ οἱ αἰεὶ / φθίνουσιν νύκτες τε καὶ ἤματα δάκρυ χεούσῃ.(13.333-338), Outro homem, depois de errar e chegar, correria com alegria a ver no palácio filhos e esposa; a ti ainda não apraz saber nem informar-te, antes de pores à prova a tua esposa, que fica sentada nos aposentos como antes, e para quem as noites e os dias se consomem em dor, enquanto ela derrama lágrimas.
No Canto XIV, chega disfarçado de mendigo à cabana do porqueiro Eumeu. Senta-se diante dos cães por astúcia e jura, por Zeus, que o senhor voltará neste mesmo ano. Eumeu não acredita, e à noite Odisseu o põe à prova com uma história sobre um manto.
ἐξαπίνης δʼ Ὀδυσῆα ἴδον κύνες ὑλακόμωροι. / οἱ μὲν κεκλήγοντες ἐπέδραμον· αὐτὰρ Ὀδυσσεὺς / ἕζετο κερδοσύνῃ, σκῆπτρον δέ οἱ ἔκπεσε χειρός.(14.29-31), de repente os cães de latido ruidoso viram Odisseu; correram latindo contra ele, mas Odisseu, com astúcia, sentou-se, e o cajado lhe caiu da mão.
τοῦδʼ αὐτοῦ λυκάβαντος ἐλεύσεται ἐνθάδʼ Ὀδυσσεύς. / τοῦ μὲν φθίνοντος μηνός, τοῦ δʼ ἱσταμένοιο, / οἴκαδε νοστήσει, καὶ τίσεται ὅς τις ἐκείνου / ἐνθάδʼ ἀτιμάζει ἄλοχον καὶ φαίδιμον υἱόν.(14.161-164), neste mesmo ano Odisseu virá aqui: com o mês que míngua e o que começa, voltará para casa e se vingará de quem aqui desonra a esposa dele e o filho ilustre.
τοῖς δʼ Ὀδυσεὺς μετέειπε, συβώτεω πειρητίζων, / εἴ πώς οἱ ἐκδὺς χλαῖναν πόροι, ἤ τινʼ ἑταίρων / ἄλλον ἐποτρύνειεν, ἐπεί ἑο κήδετο λίην·(14.459-461), entre eles falou Odisseu, pondo à prova o porqueiro, se por acaso, despindo-se, lhe daria o manto, ou exortaria a algum dos companheiros, pois Eumeu se preocupava demais com ele.
No Canto XV, Odisseu ouve Eumeu falar de Laertes, que pede a Zeus que a vida o deixe, e da mãe, morta de tristeza. Prova de novo o porqueiro, propondo-se a servir os pretendentes.
τοῖς δʼ Ὀδυσεὺς μετέειπε, συβώτεω πειρητίζων, / ἤ μιν ἔτʼ ἐνδυκέως φιλέοι μεῖναί τε κελεύοι / αὐτοῦ ἐνὶ σταθμῷ, ἦ ὀτρύνειε πόλινδε·(15.304-306), entre eles falou Odisseu, pondo à prova o porqueiro, se ainda o acolheria com afeto e o mandaria ficar ali na cabana, ou o incitaria a ir à cidade.
Λαέρτης μὲν ἔτι ζώει, Διὶ δʼ εὔχεται αἰεὶ / θυμὸν ἀπὸ μελέων φθίσθαι οἷς ἐν μεγάροισιν· / ἐκπάγλως γὰρ παιδὸς ὀδύρεται οἰχομένοιο(15.353-355), Laertes ainda vive, mas pede sempre a Zeus que a vida deixe os membros em sua casa; pois chora desmedidamente o filho que se foi.
No Canto XVI, Atena o rejuvenesce, e ele se apresenta ao filho: não é deus, é o pai. Telêmaco não aceita, e Odisseu explica a mudança por obra de Atena. Pai e filho choram juntos, e ele expõe o plano: voltar à cidade como mendigo, suportar a ofensa e não dizer a ninguém que voltou, nem a Penélope.
οὔ τίς τοι θεός εἰμι· τί μʼ ἀθανάτοισιν ἐΐσκεις; / ἀλλὰ πατὴρ τεός εἰμι, τοῦ εἵνεκα σὺ στεναχίζων / πάσχεις ἄλγεα πολλά, βίας ὑποδέγμενος ἀνδρῶν.(16.187-189), não sou deus: por que me comparas aos imortais? Mas sou teu pai, por quem gemes e sofres muitas dores, suportando a violência de homens.
οὐ μὲν γάρ τοι ἔτʼ ἄλλος ἐλεύσεται ἐνθάδʼ Ὀδυσσεύς, / ἀλλʼ ὅδʼ ἐγὼ τοιόσδε, παθὼν κακά, πολλὰ δʼ ἀληθείς, / ἤλυθον εἰκοστῷ ἔτεϊ ἐς πατρίδα γαῖαν.(16.204-206), pois não virá aqui outro Odisseu; mas eis-me aqui, tal como sou, depois de sofrer males e de muito errar, e cheguei no vigésimo ano à terra pátria.
εἰ ἐτεόν γʼ ἐμός ἐσσι καὶ αἵματος ἡμετέροιο, / μή τις ἔπειτʼ Ὀδυσῆος ἀκουσάτω ἔνδον ἐόντος, / μήτʼ οὖν Λαέρτης ἴστω τό γε μήτε συβώτης / μήτε τις οἰκήων μήτʼ αὐτὴ Πηνελόπεια,(16.300-303), se és mesmo meu e do meu sangue, que ninguém ouça que Odisseu está dentro de casa, nem Laertes o saiba, nem o porqueiro, nem algum dos servos, nem a própria Penélope,
No Canto XVII, é chutado na estrada pelo cabreiro Melâncio e pondera matá-lo, mas se contém. O cão Argos, abandonado no esterco, o reconhece e abana o rabo, e Odisseu só pode enxugar a lágrima de lado. Na sala, recebe o escabelo de Antínoo no ombro e fica firme como rocha.
ἀλλʼ ἔμενʼ ἀσφαλέως· ὁ δὲ μερμήριξεν Ὀδυσσεὺς / ἠὲ μεταΐξας ῥοπάλῳ ἐκ θυμὸν ἕλοιτο, / ἦ πρὸς γῆν ἐλάσειε κάρη ἀμφουδὶς ἀείρας. / ἀλλʼ ἐπετόλμησε, φρεσὶ δʼ ἔσχετο·(17.235-238), mas permaneceu firme; e Odisseu ponderou se, saltando, lhe tiraria a vida com o bastão, ou o ergueria pela cabeça e o lançaria ao chão. Mas suportou e conteve-se no ânimo;
οὐρῇ μέν ῥʼ ὅ γʼ ἔσηνε καὶ οὔατα κάββαλεν ἄμφω, / ἆσσον δʼ οὐκέτʼ ἔπειτα δυνήσατο οἷο ἄνακτος / ἐλθέμεν· αὐτὰρ ὁ νόσφιν ἰδὼν ἀπομόρξατο δάκρυ,(17.302-304), com a cauda fez festa e baixou as duas orelhas, mas já não pôde chegar perto de seu dono; e Odisseu, olhando para o lado, enxugou uma lágrima,
ὁ δʼ ἐστάθη ἠΰτε πέτρη / ἔμπεδον, οὐδʼ ἄρα μιν σφῆλεν βέλος Ἀντινόοιο, / ἀλλʼ ἀκέων κίνησε κάρη, κακὰ βυσσοδομεύων.(17.463-465), e ele ficou firme como uma rocha, imóvel; o projétil de Antínoo não o fez cambalear, mas balançou a cabeça em silêncio, planejando males.
No Canto XVIII, vence o mendigo Iro, mas exige antes o juramento de que ninguém o ajude e golpeia leve para que os aqueus não o percebam. Avisa Anfínomo, que lhe foi gentil, de que o caso não se resolverá sem sangue, e responde a Eurímaco com a imagem das portas estreitas demais para a fuga.
δὴ τότε μερμήριξε πολύτλας δῖος Ὀδυσσεὺς / ἢ ἐλάσειʼ ὥς μιν ψυχὴ λίποι αὖθι πεσόντα, / ἦέ μιν ἦκʼ ἐλάσειε τανύσσειέν τʼ ἐπὶ γαίῃ. / ὧδε δέ οἱ φρονέοντι δοάσσατο κέρδιον εἶναι, / ἦκʼ ἐλάσαι, ἵνα μή μιν ἐπιφρασσαίατʼ Ἀχαιοί.(18.90-94), então refletiu o muito sofredor, divino Odisseu, se o golpearia de modo que a vida o deixasse ali mesmo, caído, ou se o golpearia leve e o estenderia no chão. E a quem assim pensava pareceu melhor golpear leve, para que os aqueus não o percebessem.
οὐ γὰρ ἀναιμωτί γε διακρινέεσθαι ὀΐω / μνηστῆρας καὶ κεῖνον, ἐπεί κε μέλαθρον ὑπέλθῃ.(18.149-150), pois não creio que os pretendentes e aquele se separem sem sangue, quando ele entrar sob o teto.
εἰ δʼ Ὀδυσεὺς ἔλθοι καὶ ἵκοιτʼ ἐς πατρίδα γαῖαν, / αἶψά κέ τοι τὰ θύρετρα, καὶ εὐρέα περ μάλʼ ἐόντα, / φεύγοντι στείνοιτο διὲκ προθύροιο θύραζε.(18.384-386), se Odisseu viesse e chegasse à terra pátria, logo as portas, por mais largas que fossem, seriam estreitas para ti, fugindo pelo vestíbulo para fora.
No Canto XIX, interrogado por Penélope, mente com detalhes verdadeiros e esconde as lágrimas com olhos de chifre ou ferro. Ao ser lavado pela ama, vira-se para a sombra para que ela não veja a cicatriz, e, quando Euricleia a reconhece, ele a agarra pela garganta e a obriga ao silêncio.
αὐτὰρ Ὀδυσσεὺς / θυμῷ μὲν γοόωσαν ἑὴν ἐλέαιρε γυναῖκα, / ὀφθαλμοὶ δʼ ὡς εἰ κέρα ἕστασαν ἠὲ σίδηρος / ἀτρέμας ἐν βλεφάροισι· δόλῳ δʼ ὅ γε δάκρυα κεῦθεν.(19.209-212), no ânimo, Odisseu compadecia-se da esposa que gemia, mas os olhos, como se fossem chifre ou ferro, mantinham-se imóveis sob as pálpebras; com astúcia escondia as lágrimas.
ἷζεν ἐπʼ ἐσχαρόφιν, ποτὶ δὲ σκότον ἐτράπετʼ αἶψα· / αὐτίκα γὰρ κατὰ θυμὸν ὀΐσατο, μή ἑ λαβοῦσα / οὐλὴν ἀμφράσσαιτο καὶ ἀμφαδὰ ἔργα γένοιτο. / νίζε δʼ ἄρʼ ἆσσον ἰοῦσα ἄναχθʼ ἑόν· αὐτίκα δʼ ἔγνω / οὐλήν, τήν ποτέ μιν σῦς ἤλασε λευκῷ ὀδόντι(19.389-393), sentou-se junto à lareira e logo se voltou para a sombra; pois logo pressentiu no ânimo que ela, ao tocá-lo, poderia perceber a cicatriz, e as ações viriam à luz. Chegando mais perto, lavava o seu senhor, e logo reconheceu a cicatriz que um javali lhe fizera, outrora, com o dente branco.
ὧδε γὰρ ἐξερέω, καὶ μὴν τετελεσμένον ἔσται· / εἴ χʼ ὑπʼ ἐμοί γε θεὸς δαμάσῃ μνηστῆρας ἀγαυούς, / οὐδὲ τροφοῦ οὔσης σεῦ ἀφέξομαι, ὁππότʼ ἂν ἄλλας / δμῳὰς ἐν μεγάροισιν ἐμοῖς κτείνωμι γυναῖκας.(19.487-490), pois assim direi, e será cumprido: se por mim um deus dominar os nobres pretendentes, não me absterei de ti, sendo minha ama, quando eu matar as outras servas nos meus salões.
No Canto XX, a véspera, ele não dorme. Pesa se mata já as servas que se deitam com os pretendentes e manda o coração suportar, lembrando o Ciclope. Pergunta a Atena para onde fugirá depois de matá-los e pede a Zeus um sinal.
τέτλαθι δή, κραδίη· καὶ κύντερον ἄλλο ποτʼ ἔτλης. / ἤματι τῷ ὅτε μοι μένος ἄσχετος ἤσθιε Κύκλωψ / ἰφθίμους ἑτάρους· σὺ δʼ ἐτόλμας, ὄφρα σε μῆτις / ἐξάγαγʼ ἐξ ἄντροιο ὀϊόμενον θανέεσθαι.(20.18-21), suporta, coração! Já suportaste coisa ainda mais vil, no dia em que o Ciclope, de força irresistível, devorava os meus valentes companheiros; tu aguentaste, até que o plano te tirou da caverna, quando pensavas morrer.
πρὸς δʼ ἔτι καὶ τόδε μεῖζον ἐνὶ φρεσὶ μερμηρίζω· / εἴ περ γὰρ κτείναιμι Διός τε σέθεν τε ἕκητι, / πῆ κεν ὑπεκπροφύγοιμι; τά σε φράζεσθαι ἄνωγα.(20.41-43), ainda outra preocupação, maior, revolvo no peito: se eu os matar, pela vontade de Zeus e a tua, para onde poderei escapar? Peço que reflitas sobre isso.
Ζεῦ πάτερ, εἴ μʼ ἐθέλοντες ἐπὶ τραφερήν τε καὶ ὑγρὴν / ἤγετʼ ἐμὴν ἐς γαῖαν, ἐπεί μʼ ἐκακώσατε λίην, / φήμην τίς μοι φάσθω ἐγειρομένων ἀνθρώπων / ἔνδοθεν, ἔκτοσθεν δὲ Διὸς τέρας ἄλλο φανήτω.(20.98-101), Pai Zeus, se de bom grado me trouxestes por terra e por mar à minha terra, depois de me castigarem tanto, que alguém dos homens que acordam diga dentro de casa uma palavra de agouro, e que fora se mostre outro prodígio de Zeus.
No Canto XXI, revela-se aos dois servos fiéis, mostrando-lhes a cicatriz. Pede o arco aos pretendentes, examina-o por todos os lados e o arma como quem afina uma lira. Atira sentado e atravessa os doze machados.
ἔνδον μὲν δὴ ὅδʼ αὐτὸς ἐγώ, κακὰ πολλὰ μογήσας / ἤλυθον εἰκοστῷ ἔτεϊ ἐς πατρίδα γαῖαν.(21.207-208), aqui dentro estou eu mesmo, depois de sofrer muitos males; vim, no vigésimo ano, à terra pátria.
ὡς ὅτʼ ἀνὴρ φόρμιγγος ἐπιστάμενος καὶ ἀοιδῆς / ῥηϊδίως ἐτάνυσσε νέῳ περὶ κόλλοπι χορδήν, / ἅψας ἀμφοτέρωθεν ἐϋστρεφὲς ἔντερον οἰός, / ὣς ἄρʼ ἄτερ σπουδῆς τάνυσεν μέγα τόξον Ὀδυσσεύς.(21.406-409), como quando um homem que conhece a lira e o canto estica com facilidade a corda em torno de uma cravelha nova, prendendo dos dois lados o fio bem torcido de tripa de ovelha, assim, sem esforço, Odisseu esticou o grande arco.
αὐτόθεν ἐκ δίφροιο καθήμενος, ἧκε δʼ ὀϊστὸν / ἄντα τιτυσκόμενος, πελέκεων δʼ οὐκ ἤμβροτε πάντων / πρώτης στειλειῆς, διὰ δʼ ἀμπερὲς ἦλθε θύραζε / ἰὸς χαλκοβαρής(21.420-423), ali mesmo, sentado no banco, disparou a flecha, mirando de frente, e não errou nenhum dos machados, a partir do primeiro cabo; a flecha pesada de bronze passou direto e saiu para fora.
No Canto XXII, tira os trapos e mata Antínoo, que erguia a taça. Recusa a indenização que Eurímaco oferece, porque o que cobra é a desmedida. Poupa o aedo Fêmio e o arauto Médon, condena o adivinho Leódes, e contém o júbilo de Euricleia diante dos mortos.
ὄφρα πίοι οἴνοιο· φόνος δέ οἱ οὐκ ἐνὶ θυμῷ / μέμβλετο· τίς κʼ οἴοιτο μετʼ ἀνδράσι δαιτυμόνεσσι / μοῦνον ἐνὶ πλεόνεσσι, καὶ εἰ μάλα καρτερὸς εἴη, / οἷ τεύξειν θάνατόν τε κακὸν καὶ κῆρα μέλαιναν;(22.11-14), para beber vinho; a morte não lhe estava no ânimo. Quem imaginaria que um só homem, entre tantos convivas, por mais forte que fosse, traria para ele a morte má e o negro destino?
Εὐρύμαχʼ, οὐδʼ εἴ μοι πατρώϊα πάντʼ ἀποδοῖτε, / ὅσσα τε νῦν ὔμμʼ ἐστὶ καὶ εἴ ποθεν ἄλλʼ ἐπιθεῖτε, / οὐδέ κεν ὣς ἔτι χεῖρας ἐμὰς λήξαιμι φόνοιο / πρὶν πᾶσαν μνηστῆρας ὑπερβασίην ἀποτῖσαι. / νῦν ὑμῖν παράκειται ἐναντίον ἠὲ μάχεσθαι / ἢ φεύγειν, ὅς κεν θάνατον καὶ κῆρας ἀλύξῃ·(22.61-66), Eurímaco, nem que me devolvêsseis todos os bens paternos, tudo o que agora tendes, e ainda acrescentásseis de outra parte, nem assim eu pararia as mãos da matança antes que os pretendentes pagassem toda a sua desmedida. Agora está posto diante de vós lutar de frente ou fugir, quem escapar da morte e dos destinos.
θάρσει, ἐπεὶ δή σʼ οὗτος ἐρύσσατο καὶ ἐσάωσεν, / ὄφρα γνῷς κατὰ θυμόν, ἀτὰρ εἴπῃσθα καὶ ἄλλῳ, / ὡς κακοεργίης εὐεργεσίη μέγʼ ἀμείνων.(22.372-374), coragem, pois este te tirou e te salvou, para que saibas no ânimo e digas também a outro quanto o benefício é melhor que a maldade.
οὐχ ὁσίη κταμένοισιν ἐπʼ ἀνδράσιν εὐχετάασθαι. / τούσδε δὲ μοῖρʼ ἐδάμασσε θεῶν καὶ σχέτλια ἔργα· / οὔ τινα γὰρ τίεσκον ἐπιχθονίων ἀνθρώπων, / οὐ κακὸν οὐδὲ μὲν ἐσθλόν, ὅτις σφέας εἰσαφίκοιτο· / τῷ καὶ ἀτασθαλίῃσιν ἀεικέα πότμον ἐπέσπον.(22.412-416), não é lícito gloriar-se sobre homens mortos. A estes dominou o destino dos deuses e as obras cruéis: a nenhum dos homens da terra honravam, nem mau nem bom, quem chegasse a eles; por isso, por suas insolências, tiveram sorte indigna.
No Canto XXIII, Penélope o põe à prova mandando mover a cama, e ele descreve o leito feito em torno da oliveira. Depois do reconhecimento, avisa que ainda resta um trabalho sem medida, a viagem do remo que Tirésias profetizou. Os dois passam a noite contando um ao outro o que sofreram.
θάμνος ἔφυ τανύφυλλος ἐλαίης ἕρκεος ἐντός, / ἀκμηνὸς θαλέθων· πάχετος δʼ ἦν ἠΰτε κίων. / τῷ δʼ ἐγὼ ἀμφιβαλὼν θάλαμον δέμον, ὄφρʼ ἐτέλεσσα, / πυκνῇσιν λιθάδεσσι, καὶ εὖ καθύπερθεν ἔρεψα, / κολλητὰς δʼ ἐπέθηκα θύρας, πυκινῶς ἀραρυίας.(23.190-194), dentro do recinto crescia uma oliveira de longas folhas, vigorosa, em plena força; o tronco era grosso como uma coluna. À volta dela construí o quarto, até o terminar, com pedras cerradas, cobri-o bem por cima e pus portas juntas, bem ajustadas.
ὦ γύναι, οὐ γάρ πω πάντων ἐπὶ πείρατʼ ἀέθλων / ἤλθομεν, ἀλλʼ ἔτʼ ὄπισθεν ἀμέτρητος πόνος ἔσται, / πολλὸς καὶ χαλεπός, τὸν ἐμὲ χρὴ πάντα τελέσσαι.(23.248-250), mulher, ainda não chegamos ao termo de todas as provas: por vir haverá um trabalho sem medida, muito e duro, que preciso cumprir inteiro.
αὐτὰρ ὁ διογενὴς Ὀδυσεὺς ὅσα κήδεʼ ἔθηκεν / ἀνθρώποις ὅσα τʼ αὐτὸς ὀϊζύσας ἐμόγησε, / πάντʼ ἔλεγʼ· ἡ δʼ ἄρʼ ἐτέρπετʼ ἀκούουσʼ, οὐδέ οἱ ὕπνος / πῖπτεν ἐπὶ βλεφάροισι πάρος καταλέξαι ἅπαντα.(23.306-309), e Odisseu, descendente de Zeus, por sua vez, dizia tudo quanto de males causou aos homens e quanto ele mesmo, sofrendo, penou; ela se deleitava ouvindo, e o sono não lhe caía nas pálpebras antes que ele contasse tudo.
No Canto XXIV, no pomar do pai, Odisseu hesita entre abraçá-lo e pô-lo à prova, e começa com palavras de zombaria. Quando o velho chora, ele se revela e dá a notícia da matança. Ao fim, persegue os itacenses até que Atena, na figura de Mentor, ponha fim à luta.
μερμήριξε δʼ ἔπειτα κατὰ φρένα καὶ κατὰ θυμὸν / κύσσαι καὶ περιφῦναι ἑὸν πατέρʼ, ἠδὲ ἕκαστα / εἰπεῖν, ὡς ἔλθοι καὶ ἵκοιτʼ ἐς πατρίδα γαῖαν, / ἦ πρῶτʼ ἐξερέοιτο ἕκαστά τε πειρήσαιτο. / ὧδε δέ οἱ φρονέοντι δοάσσατο κέρδιον εἶναι, / πρῶτον κερτομίοις ἐπέεσσιν πειρηθῆναι.(24.235-240), então hesitou no ânimo e no espírito, se beijaria e abraçaria o pai e lhe diria tudo, como veio e chegou à terra pátria, ou se primeiro o interrogaria e o poria à prova. Assim, ao refletir, pareceu-lhe mais vantajoso pô-lo à prova primeiro com palavras de zombaria.
κεῖνος μέν τοι ὅδʼ αὐτὸς ἐγώ, πάτερ, ὃν σὺ μεταλλᾷς, / ἤλυθον εἰκοστῷ ἔτεϊ ἐς πατρίδα γαῖαν. / ἀλλʼ ἴσχεο κλαυθμοῖο γόοιό τε δακρυόεντος. / ἐκ γάρ τοι ἐρέω· μάλα δὲ χρὴ σπευδέμεν ἔμπης· / μνηστῆρας κατέπεφνον ἐν ἡμετέροισι δόμοισι, / λώβην τινύμενος θυμαλγέα καὶ κακὰ ἔργα.(24.321-326), aquele de quem perguntas, pai, sou eu mesmo; vim no vigésimo ano à terra pátria. Mas cessa o pranto e o gemido lacrimoso. Eu te direi, pois é preciso muita pressa: matei os pretendentes em nossa casa, vingando a afronta que dói no ânimo e as más ações.
ἴσχεσθε πτολέμου, Ἰθακήσιοι, ἀργαλέοιο, / ὥς κεν ἀναιμωτί γε διακρινθῆτε τάχιστα.(24.531-532), cessai a guerra penosa, itacenses, para que vos separeis o mais depressa sem derramar sangue.
Temas que encarna
Odisseu encarna Lar, exílio e retorno: o poema inteiro é o que custa voltar, e o desejo que o move é ver a terra, a casa e a mulher. Encarna a Identidade, que o poema trata como coisa que se perde e se prova: ele esconde o nome entre os feácios, se chama Ninguém ao ciclope, volta como mendigo e só é reconhecido por sinais, a cicatriz, o leito, as árvores do pomar. Encarna a Verdade e mentira, porque mente a quase todos, com detalhes verdadeiros, e porque conta contra si mesmo as perdas da viagem. A Vingança e a Família se juntam no fim, quando ele cobra dos pretendentes a desmedida e reencontra o filho, a esposa e o pai. A Lealdade e traição o mede pelos que ficaram de seu lado, Eumeu, Euricleia, Filécio, e pelos que não.
O poema mostra a astúcia de Odisseu como força e como custo ao mesmo tempo. Atena a descreve, no Canto XIII, como um hábito que ele não larga nem em casa, e os mesmos recursos que o salvam custam companheiros: o nome gritado ao ciclope, o desejo de ver o dono na gruta, o segredo de Cila. As duas leituras valem: a astúcia como virtude que o faz voltar, e como limite de quem não consegue deixar de provar e esconder, nem diante da própria mulher e do próprio pai.
Relações
- Penélope: a esposa que ele quer rever e prova antes de se dar a conhecer, e que o prova primeiro com o leito.
- Telêmaco: o filho que ele só encontra já crescido e a quem pede que aguente a ofensa a um mendigo.
- Atena: a deusa que o protege, o disfarça e o descreve como seu igual em astúcia.
- Poseidon: o deus que o faz vagar, por ter cegado o filho dele.
- Polifemo: o ciclope a quem ele diz chamar-se Ninguém e cuja maldição o acompanha até a volta.
- Calipso e Circe: as duas deusas que o querem como marido e o ajudam a partir.
- Eumeu e Euricleia: os servos que o acolhem sem saber e depois o reconhecem.
- Laertes: o pai que ele encontra no pomar, vivo e de luto.
- Tirésias: o adivinho que lhe diz, no Hades, como será a volta e o que vem depois.
- Zeus e Alcínoo: o deus que decide o retorno e o rei que lhe dá escolta e presentes.