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A cicatriz de Odisseu

O que é

A cicatriz de Odisseu é a marca que um javali lhe abriu acima do joelho, com a presa branca, numa caçada no Parnaso. Ele era jovem e fora visitar Autólico, o avô materno, que lhe prometera presentes quando o menino nasceu. Matou o javali com um golpe de lança, e os filhos de Autólico estancaram o sangue com encantamentos e o mandaram de volta com presentes. Quatro vezes o poema a usa como sinal de quem ele é: Euricleia a reconhece sem querer, Eumeu e Filécio a veem porque ele a mostra, Penélope a ouve mencionada e não a toma como prova, e Laertes a vê como primeiro sinal.

Onde aparece

No Canto XIX, depois de a ama Euricleia ser chamada para lavar os pés do mendigo, Odisseu teme o que vai acontecer:

ἷζεν ἐπʼ ἐσχαρόφιν, ποτὶ δὲ σκότον ἐτράπετʼ αἶψα· / αὐτίκα γὰρ κατὰ θυμὸν ὀΐσατο, μή ἑ λαβοῦσα / οὐλὴν ἀμφράσσαιτο καὶ ἀμφαδὰ ἔργα γένοιτο. / νίζε δʼ ἄρʼ ἆσσον ἰοῦσα ἄναχθʼ ἑόν· αὐτίκα δʼ ἔγνω / οὐλήν, τήν ποτέ μιν σῦς ἤλασε λευκῷ ὀδόντι (19.389-393), sentou-se junto à lareira e logo se voltou para a sombra; pois logo pressentiu no ânimo que ela, ao tocá-lo, poderia perceber a cicatriz, e as ações viriam à luz. Chegando mais perto, lavava o seu senhor, e logo reconheceu a cicatriz que um javali lhe fizera, outrora, com o dente branco.
Canto XIX: Penélope e a cicatriz

O poema volta então ao dia em que a marca se deu, e é dentro dessa lembrança que se explica o nome do herói:

γαμβρὸς ἐμὸς θυγάτηρ τε, τίθεσθʼ ὄνομʼ ὅττι κεν εἴπω· / πολλοῖσιν γὰρ ἐγώ γε ὀδυσσάμενος τόδʼ ἱκάνω, / ἀνδράσιν ἠδὲ γυναιξὶν ἀνὰ χθόνα πουλυβότειραν· / τῷ δʼ Ὀδυσεὺς ὄνομʼ ἔστω ἐπώνυμον· (19.406-409), meu genro e minha filha, dai-lhe o nome que eu disser: pois eu cheguei aqui em desavença com muitos, homens e mulheres sobre a terra que muito nutre; por isso o nome dele seja Odisseu, em consonância com isso.
Canto XIX: Penélope e a cicatriz

De volta à cena, a ama a reconhece:

τὴν γρηῢς χείρεσσι καταπρηνέσσι λαβοῦσα / γνῶ ῥʼ ἐπιμασσαμένη, πόδα δὲ προέηκε φέρεσθαι· / ἐν δὲ λέβητι πέσε κνήμη, κανάχησε δὲ χαλκός, / ἂψ δʼ ἑτέρωσʼ ἐκλίθη· τὸ δʼ ἐπὶ χθονὸς ἐξέχυθʼ ὕδωρ. (19.467-470), a velha, tomando-a com as mãos espalmadas, reconheceu-a ao apalpar, e deixou o pé cair; a perna caiu na bacia, o bronze ressoou, inclinou-se para o outro lado, e a água se derramou no chão.
Canto XIX: Penélope e a cicatriz

Penélope não percebe, porque Atena lhe desvia a atenção. Odisseu agarra a ama pela garganta, lembra-lhe que ela o criou e fala baixo:

ὧδε γὰρ ἐξερέω, καὶ μὴν τετελεσμένον ἔσται· / εἴ χʼ ὑπʼ ἐμοί γε θεὸς δαμάσῃ μνηστῆρας ἀγαυούς, / οὐδὲ τροφοῦ οὔσης σεῦ ἀφέξομαι, ὁππότʼ ἂν ἄλλας / δμῳὰς ἐν μεγάροισιν ἐμοῖς κτείνωμι γυναῖκας. (19.487-490), pois assim direi, e será cumprido: se por mim um deus dominar os nobres pretendentes, não me absterei de ti, sendo minha ama, quando eu matar as outras servas nos meus salões.
Canto XIX: Penélope e a cicatriz

No Canto XXI, é Odisseu quem a oferece, para que Eumeu e Filécio se convençam de que ele voltou:

εἰ δʼ ἄγε δή, καὶ σῆμα ἀριφραδὲς ἄλλο τι δείξω, / ὄφρα μʼ ἐῢ γνῶτον πιστωθῆτόν τʼ ἐνὶ θυμῷ, / οὐλήν, τήν ποτέ με σῦς ἤλασε λευκῷ ὀδόντι / Παρνησόνδʼ ἐλθόντα σὺν υἱάσιν Αὐτολύκοιο. (21.217-220), vamos, mostrarei também outro sinal bem claro, para que me reconheçais bem e vos convençais no ânimo: a cicatriz que um javali me fez com o dente branco, quando fui ao Parnaso com os filhos de Autólico.
Canto XXI: O arco

No Canto XXIII, Euricleia sobe rindo ao quarto de Penélope e, como a patroa não acredita, oferece a cicatriz como sinal claro:

ἀλλʼ ἄγε τοι καὶ σῆμα ἀριφραδὲς ἄλλο τι εἴπω, / οὐλήν, τήν ποτέ μιν σῦς ἤλασε λευκῷ ὀδόντι. (23.73-74), mas vamos, dir-te-ei ainda outro sinal bem claro: a cicatriz que um javali lhe fez outrora com a presa branca.
Canto XXIII: O leito de oliveira

No Canto XXIV, no pomar, Laertes pede um sinal claro, e Odisseu começa pela marca:

οὐλὴν μὲν πρῶτον τήνδε φράσαι ὀφθαλμοῖσι, / τὴν ἐν Παρνησῷ μʼ ἔλασεν σῦς λευκῷ ὀδόντι / οἰχόμενον (24.331-333), primeiro olha com teus olhos esta cicatriz, que me fez no Parnaso um javali com o dente branco, quando fui.
Canto XXIV: A paz em Ítaca

Mas é com as árvores que ele lhe deu na infância que convence o pai:

ὄγχνας μοι δῶκας τρισκαίδεκα καὶ δέκα μηλέας, / συκέας τεσσαράκοντʼ (24.340-341), deste-me treze pereiras e dez macieiras, e quarenta figueiras.
Canto XXIV: A paz em Ítaca

O que significa

A cicatriz põe o corpo no lugar da palavra. O que Odisseu sustenta com o nome falso e a história cretense, a ama desmonta com a mão: o reconhecimento é físico e barulhento, a perna cai na bacia, o bronze soa, a água se derrama. O disfarce de mendigo falha exatamente onde Odisseu sabia que podia falhar, e ele mesmo havia pedido que lhe lavasse os pés uma velha que tivesse sofrido tanto quanto ele.

A marca também amarra o nome ao herói. Autólico escolhe o nome do neto pela desavença que trouxe a muitos, e o poema põe essa escolha dentro da cena da cicatriz, de modo que o nome e a marca vêm da mesma família, a da mãe.

A cicatriz convence quem a vê e a pode relacionar a uma lembrança sua: a ama que o criou, os dois servos, o pai que o mandou ao Parnaso. Não convence Penélope, que anuncia sinais só dos dois e é convencida pelo leito. O poema não explica por que ela não aceita a cicatriz, mas a deixa de lado no momento em que ela mesma escolhe a prova. Cada sinal serve a um tipo de reconhecimento, o do corpo à casa, o do segredo ao casal.

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