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Personagem

Eumeu

Quem é

Eumeu é o porqueiro de Odisseu, o servo que mais zela pelos bens do senhor e que cria os porcos num pátio circular que construiu por conta própria depois da partida do rei. Foi raptado menino de uma ilha onde o pai reinava, vendido a Laertes e criado em Ítaca. É a ele que Atena manda o herói disfarçado, e a cabana dele é o lugar onde o poema mostra o que a casa de Odisseu tem de seu. Acolhe o mendigo sem saber quem é, sem acreditar no que ele conta e sem esperar nada em troca.

Trajetória

No Canto XIII, o poema o prepara por Atena, que manda Odisseu à Pedra do Corvo e à fonte Aretusa, onde o porqueiro vive com os porcos, e diz que ele ama o senhor, o filho e a prudente Penélope.

No Canto XIV, Eumeu corta sandálias de couro na entrada do pátio quando os cães correm contra Odisseu, que por astúcia se senta. Enxota os cães a pedradas e repreende o desconhecido. Diz que chora o senhor e cria porcos gordos para que outros os comam. Acolhe o hóspede com a regra de que não lhe é lícito desonrar quem vem, porque de Zeus vêm estrangeiros e mendigos, serve-lhe os leitões e diz que os cevados são dos pretendentes.

καὶ δέ μοι ἄλλα θεοὶ δόσαν ἄλγεά τε στοναχάς τε· / ἀντιθέου γὰρ ἄνακτος ὀδυρόμενος καὶ ἀχεύων / ἧμαι, ἄλλοισιν δὲ σύας σιάλους ἀτιτάλλω / ἔδμεναι· αὐτὰρ κεῖνος ἐελδόμενός που ἐδωδῆς / πλάζετʼ ἐπʼ ἀλλοθρόων ἀνδρῶν δῆμόν τε πόλιν τε, (14.39-43), e os deuses me deram ainda outras dores e gemidos: pois, chorando e sofrendo pelo senhor igual a um deus, fico aqui sentado e crio porcos gordos para que outros os comam, enquanto ele, desejoso de comida, talvez erre entre povos e cidades de língua estranha.
Canto XIV: Na cabana de Eumeu
ξεῖνʼ, οὔ μοι θέμις ἔστʼ, οὐδʼ εἰ κακίων σέθεν ἔλθοι, / ξεῖνον ἀτιμῆσαι· πρὸς γὰρ Διός εἰσιν ἅπαντες / ξεῖνοί τε πτωχοί τε· (14.56-58), estrangeiro, não me é lícito desonrar um hóspede, nem que viesse pior que tu; pois de Zeus vêm todos, estrangeiros e mendigos.
Canto XIV: Na cabana de Eumeu
ἔσθιε νῦν, ὦ ξεῖνε, τά τε δμώεσσι πάρεστι, / χοίρεʼ· ἀτὰρ σιάλους γε σύας μνηστῆρες ἔδουσιν, (14.80-81), come agora, estrangeiro, o que há para os servos, leitões; os porcos cevados, porém, os pretendentes os comem.
Canto XIV: Na cabana de Eumeu

Quando Odisseu oferece notícias, Eumeu as recusa: os andarilhos mentem para ganhar acolhida, e foi enganado por um etólio. Tem pudor de nomear o senhor, que chama de caro irmão. Odisseu jura, por Zeus, que ele voltará neste ano, e Eumeu não aceita alvíssaras. Teme pelo filho, que os nobres espreitam na volta de Pilos. Quando o mendigo conta uma história cretense, aceita o sofrimento e rejeita o que diz de Odisseu: a certeza dele é a de que o senhor morreu odiado pelos deuses.

ὦ γέρον, οὔ τις κεῖνον ἀνὴρ ἀλαλήμενος ἐλθὼν / ἀγγέλλων πείσειε γυναῖκά τε καὶ φίλον υἱόν, / ἀλλʼ ἄλλως κομιδῆς κεχρημένοι ἄνδρες ἀλῆται / ψεύδοντʼ, οὐδʼ ἐθέλουσιν ἀληθέα μυθήσασθαι. (14.122-125), ó velho, nenhum homem andarilho que viesse trazendo notícias dele convenceria a mulher e o filho querido; mas homens errantes, carentes de cuidado, mentem à toa e não querem dizer a verdade.
Canto XIV: Na cabana de Eumeu
τὸν μὲν ἐγών, ὦ ξεῖνε, καὶ οὐ παρεόντʼ ὀνομάζειν / αἰδέομαι· πέρι γάρ μʼ ἐφίλει καὶ κήδετο θυμῷ· (14.145-146), a ele, estrangeiro, mesmo não estando presente, tenho pudor de nomear; pois me amava muito e se preocupava comigo no ânimo.
Canto XIV: Na cabana de Eumeu
ἀλλά μιν ἠθεῖον καλέω καὶ νόσφιν ἐόντα. (14.147), mas o chamo de ēthéion, "caro irmão", mesmo estando ele longe.
Canto XIV: Na cabana de Eumeu
τὸν δέ τις ἀθανάτων βλάψε φρένας ἔνδον ἐΐσας / ἠέ τις ἀνθρώπων· ὁ δʼ ἔβη μετὰ πατρὸς ἀκουὴν / ἐς Πύλον ἠγαθέην· τὸν δὲ μνηστῆρες ἀγαυοὶ / οἴκαδʼ ἰόντα λοχῶσιν, ὅπως ἀπὸ φῦλον ὄληται / νώνυμον ἐξ Ἰθάκης Ἀρκεισίου ἀντιθέοιο. (14.178-182), mas algum dos imortais lhe lesou o juízo equilibrado no peito, ou algum homem: foi atrás de notícias do pai à sagrada Pilos; e os nobres pretendentes o espreitam na volta, para que a linhagem de Arcísio, igual a um deus, desapareça de Ítaca sem nome.
Canto XIV: Na cabana de Eumeu
ἀλλὰ τά γʼ οὐ κατὰ κόσμον ὀΐομαι, οὐδέ με πείσεις / εἰπὼν ἀμφʼ Ὀδυσῆϊ· τί σε χρὴ τοῖον ἐόντα / μαψιδίως ψεύδεσθαι; ἐγὼ δʼ εὖ οἶδα καὶ αὐτὸς (14.363-365), mas isto, creio, não foi dito como convém, e não me convencerás ao falar de Odisseu; por que, sendo tal como és, precisas mentir em vão?
Canto XIV: Na cabana de Eumeu

Depois diz por que o acolhe, mesmo sem crer: por temor de Zeus hospitaleiro e por compaixão. Recusa o pacto de jogar o mendigo de uma rocha se o senhor não voltar, pois que fama teria diante dos homens de agora e dos vindouros. Sacrifica o melhor porco, lança ao fogo as primícias e reza para que Odisseu volte a esta casa. À noite, quando o mendigo lhe conta uma história de manto para provar o cuidado dele, passa na prova: elogia a história, dá-lhe um manto grosso e vai dormir fora, armado, junto aos porcos.

οὐ γὰρ τοὔνεκʼ ἐγώ σʼ αἰδέσσομαι οὐδὲ φιλήσω, / ἀλλὰ Δία ξένιον δείσας αὐτόν τʼ ἐλεαίρων. (14.388-389), pois não é por isso que te respeitarei nem te estimarei, mas por temer Zeus hospitaleiro e por compaixão de ti mesmo.
Canto XIV: Na cabana de Eumeu
ἀλλʼ ὅγʼ ἀπαρχόμενος κεφαλῆς τρίχας ἐν πυρὶ βάλλεν / ἀργιόδοντος ὑός, καὶ ἐπεύχετο πᾶσι θεοῖσιν / νοστῆσαι Ὀδυσῆα πολύφρονα ὅνδε δόμονδε. (14.422-424), mas ele, fazendo as primícias, lançou ao fogo pelos da cabeça do porco de dentes brancos, e rogou a todos os deuses que o prudente Odisseu voltasse a esta casa.
Canto XIV: Na cabana de Eumeu

No Canto XV, Eumeu se alarma quando o hóspede se propõe a servir os pretendentes e descreve a quem ele serviria: homens cuja insolência chega ao céu de ferro. Conta a Odisseu a sua história, a de um menino raptado por uma criada fenícia e vendido a Laertes, e fala de Laertes, que pede a Zeus que a vida o deixe, e de Anticleia, morta de tristeza. Chega Telêmaco à cabana no fim do canto.

ἦ σύ γε πάγχυ λιλαίεαι αὐτόθʼ ὀλέσθαι. / εἰ δὴ μνηστήρων ἐθέλεις καταδῦναι ὅμιλον, / τῶν ὕβρις τε βίη τε σιδήρεον οὐρανὸν ἵκει. (15.327-329), certamente desejas morrer aí mesmo; se queres te misturar à multidão dos pretendentes, cuja insolência e violência chegam ao céu de ferro.
Canto XV: A volta de Telêmaco
παῖδα γὰρ ἀνδρὸς ἑῆος ἐνὶ μεγάροις ἀτιτάλλω, / κερδαλέον δὴ τοῖον, ἅμα τροχόωντα θύραζε· / τόν κεν ἄγοιμʼ ἐπὶ νηός, ὁ δʼ ὑμῖν μυρίον ὦνον / ἄλφοι, ὅπῃ περάσητε κατʼ ἀλλοθρόους ἀνθρώπους. (15.450-453), pois crio no palácio o filho de um homem nobre, muito esperto, que já corre comigo para fora; eu o levaria ao navio, e ele vos renderia um preço enorme onde quer que o vendais entre homens de língua estranha.
Canto XV: A volta de Telêmaco

No Canto XVI, ao ver Telêmaco, deixa cair as vasilhas, corre a beijar-lhe a cabeça, os olhos e as mãos, e chora como um pai que recebe o filho único depois de dez anos. Leva a notícia a Penélope e retorna aos porcos.

ὡς δὲ πατὴρ ὃν παῖδα φίλα φρονέων ἀγαπάζῃ / ἐλθόντʼ ἐξ ἀπίης γαίης δεκάτῳ ἐνιαυτῷ, / μοῦνον τηλύγετον, τῷ ἔπʼ ἄλγεα πολλὰ μογήσῃ, (16.17-19), como um pai, de ânimo afetuoso, abraça o filho que chega de terra distante no décimo ano, o único, o muito querido, por quem passou por muitas dores.
Canto XVI: Pai e filho

No Canto XVII, segue com o mendigo para a cidade e reza às ninfas na fonte pela volta de Odisseu. À porta do palácio, diante de Argos abandonado no esterco, explica o abandono com uma máxima: Zeus tira metade da excelência do homem quando o dia de escravo o apanha. Na sala, Telêmaco lhe manda levar pão ao mendigo, e ele responde a Antínoo.

ἥμισυ γάρ τʼ ἀρετῆς ἀποαίνυται εὐρύοπα Ζεὺς / ἀνέρος, εὖτʼ ἄν μιν κατὰ δούλιον ἦμαρ ἕλῃσιν. (17.322-323), pois Zeus de voz ampla tira metade da excelência do homem, quando o dia de escravo o apanha.
Canto XVII: O mendigo no palácio

No Canto XX, chega com três porcos e pergunta a Odisseu se os aqueus o olham melhor. No Canto XXI, recebe o arco chorando e o põe diante dos pretendentes. Quando Odisseu lhe pergunta o que faria se o senhor voltasse, reza a todos os deuses pela volta e então ouve: o senhor está aqui. Vê a cicatriz, chora e o abraça. Leva o arco às mãos dele pela sala, apesar dos gritos, depois que Telêmaco o manda.

ἔνδον μὲν δὴ ὅδʼ αὐτὸς ἐγώ, κακὰ πολλὰ μογήσας / ἤλυθον εἰκοστῷ ἔτεϊ ἐς πατρίδα γαῖαν. (21.207-208), aqui dentro estou eu mesmo, depois de sofrer muitos males; vim, no vigésimo ano, à terra pátria.
Canto XXI: O arco

No Canto XXII, arma-se e guarda a porta lateral, mata Políbio e zomba de Melâncio, que ajuda a amarrar na viga. Participa do castigo das servas. No Canto XXIV, vai com Odisseu e Telêmaco ao campo de Laertes e prepara o jantar com o melhor porco.

Temas que encarna

Eumeu encarna a Lealdade e traição, pelo lado da lealdade: serve sem esperar paga, sem crer que o senhor volte, e o poema o opõe a quem come sem pagar. Encarna também a hospitalidade que não depende de crer no hóspede, e por isso o Lar, exílio e retorno, porque a casa que os pretendentes devoram continua de pé nas mãos dele.

A recusa de Eumeu a acreditar em Odisseu não é ingenuidade: ele já foi enganado por um etólio e viu andarilhos mentirem à rainha por roupas. O canto mostra que uma desconfiança bem fundada pode rejeitar uma verdade, e que a acolhida dele vale justamente por não depender de acreditar. O mesmo homem que reza pelo retorno do senhor diz que ele não volta, e o poema não escolhe entre rito sem esperança e esperança que não se confessa.

Relações

  • Odisseu: o senhor que ele chora, acolhe sem saber e reconhece no Canto XXI.
  • Telêmaco: o rapaz que ele abraça como a um filho e a quem avisa dos perigos.
  • Atena: a deusa que o indica ao herói.
  • Laertes: o velho que o comprou e a quem ele serve.
  • Zeus: o deus em cujo nome ele acolhe.
  • Antínoo: o pretendente que o repreende por levar mendigos.