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O arco de Odisseu

O que é

O arco de Odisseu é o arco recurvo, com a aljava de flechas, que Ífito, filho de Êurito, deu ao herói em Lacedemônia, em começo de amizade de hóspedes. Odisseu nunca o levou à guerra: deixou-o em casa, em lembrança do amigo, e só o usava na própria terra. Guardado no quarto dos tesouros do palácio de Ítaca, com o bronze, o ouro e o ferro trabalhado, ele vira a prova que Penélope propõe aos pretendentes: quem o armar com mais facilidade e fizer a flecha passar pelos doze machados, os que Odisseu enfileirava e atravessava de longe, ela seguirá, deixando a casa.

Onde aparece

O arco chega antes de ser mostrado. No Canto VIII, entre os feácios, Odisseu se gaba de ser bom no arco: diz que só Filoctetes o superava em Troia e que não quer medir-se com Héracles nem com Êurito, morto por Apolo por desafiá-lo. É o mesmo Êurito de quem vem o arco, segundo o Canto XXI.

No Canto XIX, Penélope conta ao mendigo, sem saber quem ele é, o que fará de manhã. O mendigo responde que Odisseu virá antes de os pretendentes armarem o arco.

νῦν δὲ μνηστήρεσσιν ἄεθλον τοῦτον ἐφήσω· / ὃς δέ κε ῥηΐτατʼ ἐντανύσῃ βιὸν ἐν παλάμῃσι / καὶ διοϊστεύσῃ πελέκεων δυοκαίδεκα πάντων, / τῷ κεν ἅμʼ ἑσποίμην, νοσφισσαμένη τόδε δῶμα (19.576-579), agora proporei aos pretendentes esta prova: quem armar o arco com mais facilidade nas mãos e atravessar com a flecha os doze machados, a esse eu seguiria, deixando esta casa.
Canto XIX: Penélope e a cicatriz

No Canto XXI, é Atena quem põe a ideia na mente de Penélope, e o narrador já chama a prova de começo da matança. Penélope sobe ao quarto dos tesouros, tira o arco do gancho, senta-se com ele nos joelhos e chora alto antes de descer ao salão. O poema para para contar de onde o arco veio:

τὸ δʼ οὔ ποτε δῖος Ὀδυσσεὺς / ἐρχόμενος πόλεμόνδε μελαινάων ἐπὶ νηῶν / ᾑρεῖτʼ, ἀλλʼ αὐτοῦ μνῆμα ξείνοιο φίλοιο / κέσκετʼ ἐνὶ μεγάροισι, φόρει δέ μιν ἧς ἐπὶ γαίης. (21.38-41), esse arco o divino Odisseu nunca levou ao partir para a guerra nas naus negras; ficava em casa, lembrança de um hóspede amigo, e ele o usava em sua própria terra.
Canto XXI: O arco

Ífito foi morto por Héracles na casa dele, apesar de hóspede, sem respeito pelos deuses nem pela mesa que lhe oferecera. Depois vêm as tentativas. Telêmaco sacode o arco três vezes, e na quarta teria conseguido:

καί νύ κε δή ῥʼ ἐτάνυσσε βίῃ τὸ τέταρτον ἀνέλκων, / ἀλλʼ Ὀδυσεὺς ἀνένευε καὶ ἔσχεθεν ἱέμενόν περ. (21.128-129), e na quarta vez, puxando com força, ele o teria armado; mas Odisseu fez sinal que não e o conteve, embora ansioso.
Canto XXI: O arco

Leódes não consegue, Eurímaco não consegue, e Antínoo propõe adiar a prova para o dia seguinte, por ser festa de Apolo. Odisseu, ainda mendigo, pede o arco para provar a força, os pretendentes se indignam, e Eumeu o leva pela sala e o põe nas mãos dele. Então:

ὡς ὅτʼ ἀνὴρ φόρμιγγος ἐπιστάμενος καὶ ἀοιδῆς / ῥηϊδίως ἐτάνυσσε νέῳ περὶ κόλλοπι χορδήν, / ἅψας ἀμφοτέρωθεν ἐϋστρεφὲς ἔντερον οἰός, / ὣς ἄρʼ ἄτερ σπουδῆς τάνυσεν μέγα τόξον Ὀδυσσεύς. (21.406-409), como quando um homem que conhece a lira e o canto estica com facilidade a corda em torno de uma cravelha nova, prendendo dos dois lados o fio bem torcido de tripa de ovelha, assim, sem esforço, Odisseu esticou o grande arco.
Canto XXI: O arco
αὐτόθεν ἐκ δίφροιο καθήμενος, ἧκε δʼ ὀϊστὸν / ἄντα τιτυσκόμενος, πελέκεων δʼ οὐκ ἤμβροτε πάντων / πρώτης στειλειῆς, διὰ δʼ ἀμπερὲς ἦλθε θύραζε / ἰὸς χαλκοβαρής (21.420-423), ali mesmo, sentado no banco, disparou a flecha, mirando de frente, e não errou nenhum dos machados, a partir do primeiro cabo; a flecha pesada de bronze passou direto e saiu para fora.
Canto XXI: O arco

No Canto XXII, o tiro seguinte já não é de prova. Odisseu derrama as flechas aos pés, diz que a prova está cumprida e mira outro alvo:

ὄφρα πίοι οἴνοιο· φόνος δέ οἱ οὐκ ἐνὶ θυμῷ / μέμβλετο· τίς κʼ οἴοιτο μετʼ ἀνδράσι δαιτυμόνεσσι / μοῦνον ἐνὶ πλεόνεσσι, καὶ εἰ μάλα καρτερὸς εἴη, / οἷ τεύξειν θάνατόν τε κακὸν καὶ κῆρα μέλαιναν; (22.11-14), para beber vinho; a morte não lhe estava no ânimo. Quem imaginaria que um só homem, entre tantos convivas, por mais forte que fosse, traria para ele a morte má e o negro destino?
Canto XXII: A matança dos pretendentes

Enquanto tem flechas, acerta um pretendente de cada vez, e quando elas acabam encosta o arco no umbral e toma escudo, elmo e duas lanças. No Canto XXIV, no Hades, Anfimedonte conta a Agamêmnon que nenhum pretendente armou o arco, que todos gritaram que não o dessem ao mendigo e que só Telêmaco mandou entregá-lo.

O que significa

O arco é uma medida, e cada um que o toma mostra o que é. Telêmaco falha por pouco e é contido pelo pai; Leódes falha com as mãos delicadas e diz que prefere morrer a continuar falhando; Eurímaco falha e teme a vergonha que chegará aos pósteros; Antínoo adia a prova com a festa do deus. Só Odisseu o arma sem esforço, e o poema diz como se arma uma lira: com a facilidade de quem conhece o instrumento, e a corda canta como uma andorinha.

Penélope põe a si mesma como prêmio, e o texto sustenta duas leituras: ela cumpre a palavra com quem armar o arco do marido, ou aposta que ninguém o armará. Em ambas, quem decide o que o arco vale na sala é ela, depois de Atena, e quem decide quem o toca é Telêmaco, que manda a mãe de volta ao quarto dizendo que o arco é assunto dos homens (Canto XXI).

O arco vem de uma amizade de hóspedes e de uma hospitalidade violada, já que Ífito morreu à mesa de quem o recebia. É o objeto que sai desse laço o que serve, depois, para punir os que desonraram os hóspedes na casa de Odisseu: os pretendentes comem sem pagar, ferem o mendigo com um escabelo e lhe atiram um pé de boi. O poema não diz que o arco foi escolhido por isso, mas põe a história de Ífito exatamente no momento em que Penélope o tira do gancho.

O arco muda de dono sem mudar de lugar. Chega à sala nas mãos de Penélope, que chora ao tirá-lo do gancho, passa pelas mãos dos jovens que o desprezam e é posto por Eumeu nas de um mendigo, e só então volta a ser o que era. A prova que a rainha propõe para escolher marido é a que revela o marido.

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