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O leito de oliveira

O que é

O leito de oliveira é a cama de Odisseu e Penélope, que o próprio Odisseu construiu em Ítaca em torno de uma oliveira viva de longas folhas, tão grossa quanto uma coluna. O quarto foi erguido à volta da árvore, com pedras cerradas e portas bem ajustadas, a copa foi cortada, o tronco aparado e furado, e a cama saiu dele, trabalhada com ouro, prata, marfim e uma correia de couro tingida de púrpura. Por isso ela não se move sem que se corte a árvore pela base, e só os dois, mais uma serva, Actóris, que guardava a porta do quarto, sabem disso.

Onde aparece

O leito aparece primeiro como ausência. No Canto IV, Menelau ouve de Telêmaco que os pretendentes consomem a casa e exclama que eles queriam deitar-se no leito de um homem de coração forte, sendo fracos. No Canto XVI, na cabana, Telêmaco diz a Eumeu por que veio:

ἤ μοι ἔτʼ ἐν μεγάροις μήτηρ μένει, ἦέ τις ἤδη / ἀνδρῶν ἄλλος ἔγημεν, Ὀδυσσῆος δέ που εὐνὴ / χήτει ἐνευναίων κάκʼ ἀράχνια κεῖται ἔχουσα. (16.33-35), se minha mãe ainda permanece nos salões, ou se algum outro dos homens já se casou, e o leito de Odisseu, sem quem durma nele, jaz coberto de teias de aranha vis.
Canto XVI: Pai e filho

No Canto XIX, Penélope diz ao mendigo que o ânimo dela se divide entre ficar com o filho, guardar os bens, respeitar o leito do marido e a fama diante do povo, ou seguir o melhor dos que a cortejam. É a mesma noite em que ela anuncia a prova do arco.

O leito é o centro do Canto XXIII. A ama Euricleia anuncia que Odisseu voltou, mas Penélope não acredita e explica a matança por um deus:

ἀλλά τις ἀθανάτων κτεῖνε μνηστῆρας ἀγαυούς, / ὕβριν ἀγασσάμενος θυμαλγέα καὶ κακὰ ἔργα. / οὔ τινα γὰρ τίεσκον ἐπιχθονίων ἀνθρώπων, / οὐ κακὸν οὐδὲ μὲν ἐσθλόν, ὅτις σφέας εἰσαφίκοιτο· / τῷ διʼ ἀτασθαλίας ἔπαθον κακόν· αὐτὰρ Ὀδυσσεὺς / ὤλεσε τηλοῦ νόστον Ἀχαιΐδος, ὤλετο δʼ αὐτός. (23.63-68), mas algum dos imortais matou os nobres pretendentes, irritado com a insolência dolorosa e as más obras. Pois não honravam homem algum da terra, nem mau nem bom, que chegasse a eles; por isso sofreram o mal por suas insolências. Quanto a Odisseu, perdeu longe o regresso à terra aqueia e ele mesmo morreu.
Canto XXIII: O leito de oliveira

Desce ao salão e senta-se diante dele, calada. Telêmaco a repreende, e ela responde:

εἰ δʼ ἐτεὸν δὴ / ἔστʼ Ὀδυσεὺς καὶ οἶκον ἱκάνεται, ἦ μάλα νῶϊ / γνωσόμεθʼ ἀλλήλων καὶ λώϊον· ἔστι γὰρ ἡμῖν / σήμαθʼ, ἃ δὴ καὶ νῶϊ κεκρυμμένα ἴδμεν ἀπʼ ἄλλων. (23.107-110), se de fato é Odisseu e está em casa, certamente nos reconheceremos ainda melhor um ao outro; pois temos sinais que também nós dois conhecemos, ocultos aos outros.
Canto XXIII: O leito de oliveira

Odisseu aceita o teste, lava-se, veste-se e Atena derrama beleza sobre ele. Quando ele pede à ama uma cama para dormir sozinho, Penélope monta a prova:

ἀλλʼ ἄγε οἱ στόρεσον πυκινὸν λέχος, Εὐρύκλεια, / ἐκτὸς ἐϋσταθέος θαλάμου, τόν ῥʼ αὐτὸς ἐποίει· / ἔνθα οἱ ἐκθεῖσαι πυκινὸν λέχος ἐμβάλετʼ εὐνήν, / κώεα καὶ χλαίνας καὶ ῥήγεα σιγαλόεντα. / ὣς ἄρʼ ἔφη πόσιος πειρωμένη· (23.177-181), Euricleia, estende-lhe o firme leito fora do sólido quarto que ele mesmo construiu; ali, depois de colocarem fora o firme leito, lançai a roupa de cama, com peles, mantos e cobertas brilhantes. Assim falou, pondo o marido à prova.
Canto XXIII: O leito de oliveira

Odisseu, irritado, descreve o que a cama esconde:

θάμνος ἔφυ τανύφυλλος ἐλαίης ἕρκεος ἐντός, / ἀκμηνὸς θαλέθων· πάχετος δʼ ἦν ἠΰτε κίων. / τῷ δʼ ἐγὼ ἀμφιβαλὼν θάλαμον δέμον, ὄφρʼ ἐτέλεσσα, / πυκνῇσιν λιθάδεσσι, καὶ εὖ καθύπερθεν ἔρεψα, / κολλητὰς δʼ ἐπέθηκα θύρας, πυκινῶς ἀραρυίας. (23.190-194), dentro do recinto crescia uma oliveira de longas folhas, vigorosa, em plena força; o tronco era grosso como uma coluna. À volta dela construí o quarto, até o terminar, com pedras cerradas, cobri-o bem por cima e pus portas juntas, bem ajustadas.
Canto XXIII: O leito de oliveira
οὕτω τοι τόδε σῆμα πιφαύσκομαι· οὐδέ τι οἶδα, / ἤ μοι ἔτʼ ἔμπεδόν ἐστι, γύναι, λέχος, ἦέ τις ἤδη / ἀνδρῶν ἄλλοσε θῆκε, ταμὼν ὕπο πυθμένʼ ἐλαίης. (23.202-204), assim te declaro este sinal; e não sei se ainda está firme para mim, mulher, a cama, ou se algum homem já a pôs noutro lugar, cortando a base da oliveira por baixo.
Canto XXIII: O leito de oliveira

E o reconhecimento acontece:

ὣς φάτο, τῆς δʼ αὐτοῦ λύτο γούνατα καὶ φίλον ἦτορ, / σήματʼ ἀναγνούσῃ τά οἱ ἔμπεδα πέφραδʼ Ὀδυσσεύς· / δακρύσασα δʼ ἔπειτʼ ἰθὺς δράμεν, ἀμφὶ δὲ χεῖρας / δειρῇ βάλλʼ Ὀδυσῆϊ, κάρη δʼ ἔκυσʼ ἠδὲ προσηύδα· (23.205-208), assim falou, e nela os joelhos e o coração se desfizeram, ao reconhecer os sinais firmes que Odisseu lhe descrevera; chorando, correu direto a ele, lançou os braços ao pescoço de Odisseu, beijou-lhe a cabeça e falou.
Canto XXIII: O leito de oliveira

Penélope explica por que demorou, com o exemplo de Helena, e o poema compara o alívio dela ao de um náufrago que avista terra:

ὡς δʼ ὅτʼ ἂν ἀσπάσιος γῆ νηχομένοισι φανήῃ, / ὧν τε Ποσειδάων εὐεργέα νῆʼ ἐνὶ πόντῳ / ῥαίσῃ, ἐπειγομένην ἀνέμῳ καὶ κύματι πηγῷ· / παῦροι δʼ ἐξέφυγον πολιῆς ἁλὸς ἤπειρόνδε / νηχόμενοι, πολλὴ δὲ περὶ χροῒ τέτροφεν ἅλμη, / ἀσπάσιοι δʼ ἐπέβαν γαίης, κακότητα φυγόντες· / ὣς ἄρα τῇ ἀσπαστὸς ἔην πόσις εἰσοροώσῃ, / δειρῆς δʼ οὔ πω πάμπαν ἀφίετο πήχεε λευκώ. (23.233-240), como quando a terra aparece acolhedora a nadadores cuja bem construída nau Poseidon despedaça no mar, empurrada pelo vento e pela onda pesada; poucos escapam do mar cinzento para a terra firme nadando, e muito sal lhes cobre a pele, e eles pisam a terra alegres, tendo fugido ao mal; assim era acolhedor para ela o marido que ela olhava, e do pescoço não largava de todo os braços brancos.
Canto XXIII: O leito de oliveira

Os dois vão ao leito, e ali cada um conta ao outro o que sofreu, ela no salão, ele no mar. Antes, Odisseu avisa que ainda há uma última prova, a viagem do remo que Tirésias lhe anunciou (Canto XI).

O que significa

O leito é o sinal que só os dois conhecem. Penélope não aceita a cicatriz que Euricleia lhe oferece (o texto não diz por quê) e anuncia que haverá sinais ocultos aos outros. A prova que escolhe é uma ordem que só levaria a mal quem soubesse como a cama foi feita, e Odisseu, ao se irritar, mostra que sabe. O sinal está na estrutura da casa, não em um objeto que se carregue, e a palavra com que ele o chama, firme, é a mesma com que o narrador chama, versos depois, os sinais que Penélope reconhece.

Penélope dá duas razões para a demora, e o texto deixa as duas: os trapos que não a deixavam reconhecê-lo, e o medo de ser enganada por palavras, pois muitos tramam maus ganhos. Telêmaco lê o silêncio dela como dureza, pedra, e Odisseu, mais adiante, repete a acusação trocando a pedra por ferro. O poema deixa em aberto se o silêncio é dureza ou cautela.

O leito junta o que o resto do poema mantém separado. O herói que mente a todos, que se faz Ninguém e mendigo, só é reconhecido pela esposa por um dado verdadeiro e privado, e é ela quem o procura, com um ardil igual aos dele: manda mover a cama para ver se ele cai. Odisseu e Penélope se reconhecem pela mesma astúcia com que se escondem.

A oliveira aparece antes do quarto como abrigo. No Canto V, o náufrago faz a cama de folhas sob dois arbustos entrelaçados, um deles de oliveira; no Canto XIII, Atena e ele escondem os presentes e planejam a morte dos pretendentes sentados junto à oliveira do porto de Fórcis. O poema não liga as três árvores, mas em todas o herói recomeça a partir da terra.

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