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A mortalha de Laertes

O que é

A mortalha de Laertes é o pano que Penélope diz estar tecendo para o sogro, o herói Laertes, para quando a morte o levar. Ela o apresenta aos pretendentes como um dever: nenhuma aqueia deve censurá-la por deixar sem mortalha um homem que possui tanto. Pede-lhes que esperem o casamento até que acabe a tela, e de dia tece, de noite, à luz de tochas, desfaz. O ardil dura três anos, e no quarto uma serva a denuncia e Penélope é forçada a concluir o pano.

Onde aparece

A história é contada três vezes, por três bocas. No Canto II, é Antínoo quem a conta, na assembleia, para dizer que a culpa é da mãe de Telêmaco:

κοῦροι ἐμοὶ μνηστῆρες, ἐπεὶ θάνε δῖος Ὀδυσσεύς, / μίμνετʼ ἐπειγόμενοι τὸν ἐμὸν γάμον, εἰς ὅ κε φᾶρος / ἐκτελέσω, μή μοι μεταμώνια νήματʼ ὄληται, / Λαέρτῃ ἥρωι ταφήιον, (2.96-99), jovens, meus pretendentes, já que morreu o divino Odisseu, esperai, ainda que apressados pelas minhas núpcias, até que eu termine um tecido, para que não se percam em vão os fios: uma mortalha para o herói Laertes.
Canto II: A assembleia de Ítaca
ὣς τὸ μὲν ἐξετέλεσσε καὶ οὐκ ἐθέλουσʼ ὑπʼ ἀνάγκης· (2.110), assim ela o concluiu, sem querer, por necessidade.
Canto II: A assembleia de Ítaca

No Canto XIX, é a própria Penélope quem a conta ao mendigo, sem saber que fala com o marido:

ὣς ἐφάμην, τοῖσιν δʼ ἐπεπείθετο θυμὸς ἀγήνωρ. / ἔνθα καὶ ἠματίη μὲν ὑφαίνεσκον μέγαν ἱστόν, / νύκτας δʼ ἀλλύεσκον, ἐπεὶ δαΐδας παραθείμην. (19.148-150), assim falei, e o ânimo altivo deles se persuadiu. Então, de dia, eu tecia a grande teia, e de noite a desfazia, depois de pôr tochas ao lado.
Canto XIX: Penélope e a cicatriz
νῦν δʼ οὔτʼ ἐκφυγέειν δύναμαι γάμον οὔτε τινʼ ἄλλην / μῆτιν ἔθʼ εὑρίσκω· μάλα δʼ ὀτρύνουσι τοκῆες / γήμασθʼ, ἀσχαλάᾳ δὲ πάϊς βίοτον κατεδόντων, / γιγνώσκων· ἤδη γὰρ ἀνὴρ οἷός τε μάλιστα / οἴκου κήδεσθαι, τῷ τε Ζεὺς κῦδος ὀπάζει. (19.157-161), agora não posso escapar ao casamento nem encontro outro plano; meus pais me pressionam a casar, e o filho se aflige com os bens devorados, pois o percebe: já é homem capaz de cuidar da casa, a quem Zeus dá glória.
Canto XIX: Penélope e a cicatriz

No Canto XXIV, no Hades, é Anfimedonte, um dos pretendentes mortos, quem a conta a Agamêmnon, repetindo as palavras de Penélope:

κοῦροι ἐμοὶ μνηστῆρες, ἐπεὶ θάνε δῖος Ὀδυσσεύς, / μίμνετʼ ἐπειγόμενοι τὸν ἐμὸν γάμον, εἰς ὅ κε φᾶρος / ἐκτελέσω, μή μοι μεταμώνια νήματʼ ὄληται, / Λαέρτῃ ἥρωϊ ταφήϊον (24.131-134), jovens, meus pretendentes, já que morreu o divino Odisseu, esperai, ainda que ansiosos pelo meu casamento, até que eu conclua o pano, para que não se percam em vão os fios, mortalha para o herói Laertes.
Canto XXIV: A paz em Ítaca

Ao redor da mortalha estão as notícias de Laertes. No Canto XI, Anticleia diz a Odisseu que o pai dorme no campo, na cinza junto ao fogo, nutrindo o luto; no Canto XV, Eumeu diz que Laertes pede todos os dias a Zeus que a vida o deixe; no Canto XXIV, Odisseu o encontra vivo, cavando ao redor de uma planta, de túnica remendada e luvas.

O que significa

O pano é uma mentira que parece dever. Penélope ganha tempo com a honra, e a razão que dá, a censura das aqueias, é uma que os pretendentes não podem recusar. O engenho do ardil é o que o poema atribui a Odisseu: Antínoo diz que ela é orgulhosa dos dons de Atena, da habilidade nos trabalhos e de uma astúcia que nenhuma mulher do passado teve. O pano termina porque uma serva a denuncia, e Penélope o conclui, diz Antínoo, sem querer, por necessidade.

Quem conta o ardil muda o que ele significa. Antínoo, que mais quer vê-la casada, cita as palavras dela com raiva e conta a vitória de tê-la forçado. Penélope o conta como um prazo que acabou e depois diz que não tem outro plano. Anfimedonte, do Hades, o conta como o começo da cadeia que o matou, pois é logo depois do pano que um mau demônio traz Odisseu à cabana. Se Penélope acreditava no que dizia, ou usava a frase como estratégia, o poema não afirma.

O ardil concede aos pretendentes o que eles querem ouvir, que Odisseu morreu, e usa essa concessão para ganhar tempo. A mortalha é para um sogro que ainda vive, e a frase que a abre dá o marido por morto: dois vivos declarados mortos, no pano e na fala, e um pano que se desfaz toda noite adia a decisão sobre os dois.

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