Quem é
Pedro é o apóstolo que examina Dante sobre a fé nas estrelas fixas e que, no Primeiro Móvel, muda de cor para acusar quem lhe usurpa o lugar em Roma. O poema o chama de primeiro vigário de Cristo e ele aparece como o fogo mais precioso entre as luzes que giram sobre pólos fixos, a ponto de Dante dizer que a pena salta e não escreve o canto dele. É o barão a quem Beatriz pede que tente o peregrino sobre a fé, pela qual ele andou sobre o mar. No exame é mestre, e Dante se arma como o bacharel que espera a questão; no discurso do canto XXVII é dono, e a repetição tripla do lugar mostra que a raiva é a de quem foi esbulhado. O poema não lhe dá nome em todas as cenas: no XXIV é o grande varão a quem Cristo deixou as chaves, no XXV a primícia dos vigários, no XXI é Cefas, na boca de Pedro Damião, e o nome aparece quando os outros santos falam dele, como no XXII (começou sem ouro e sem prata) e no XXXII. Em Pedro o céu não é só silêncio contemplativo, e a alegria beatífica se interrompe para que o primeiro papa faça a acusação.
Trajetória
No canto XXIV a pena de Dante salta o canto de Pedro:
Però salta la penna e non lo scrivo: / ché l’imagine nostra a cotai pieghe, / non che ’l parlare, è troppo color vivo., por isso a pena salta e eu não o escrevo: pois a nossa imaginação, não só a fala, é cor demasiado viva para tais dobras.
O exame é escolástico:
Sì come il baccialier s’arma e non parla / fin che ’l maestro la question propone, / per approvarla, non per terminarla, assim como o bacharel se arma e não fala até que o mestre proponha a questão, para aprová-la, não para encerrá-la.
A definição de fé que Dante dá é a da Epístola aos Hebreus, e Pedro a aprova:
fede è sustanza di cose sperate / e argomento de le non parventi; / e questa pare a me sua quiditateA fé é substância das coisas esperadas e prova das que não aparecem, e essa lhe parece ser a sua essência. São Pedro aprova a resposta e ainda pergunta por que Paulo colocou a fé entre as substâncias e depois entre os argumentos, o que Dante também sabe responder.
Passa ao ensaio da moeda:
indi soggiunse: «Assai bene è trascorsa / d’esta moneta già la lega e ’l peso; / ma dimmi se tu l’hai ne la tua borsa». / Ond’ io: «Sì ho, sì lucida e sì tonda, / che nel suo conio nulla mi s’inforsa»., depois acrescentou: muito bem foi percorrida já a liga e o peso desta moeda; mas diz-me se a tens na tua bolsa. Ao que eu: sim, tenho, tão luzidia e tão redonda que no seu cunho nada me fica em dúvida.
Pergunta de onde veio a joia, e a resposta é a chuva do Espírito:
onde ti venne?». E io: «La larga ploia / de lo Spirito Santo, ch’è diffusa / in su le vecchie e ’n su le nuove cuoia, / è silogismo che la m’ha conchiusa / acutamente sì, che ’nverso d’ella / ogne dimostrazion mi pare ottusa»., onde te veio? E eu: a larga chuva do Espírito Santo, que se derrama sobre os pergaminhos velhos e sobre os novos, é o silogismo que a concluiu em mim tão agudamente que, perante ela, toda demonstração me parece obtusa.
E levanta a objeção da circularidade, que Dante responde pelo milagre da conversão do mundo:
«Se ’l mondo si rivolse al cristianesmo», / diss’ io, «sanza miracoli, quest’ uno / è tal, che li altri non sono il centesmo: / ché tu intrasti povero e digiuno / in campo, a seminar la buona pianta / che fu già vite e ora è fatta pruno»., se o mundo se voltou ao cristianismo, disse eu, sem milagres, este um é tal que os outros não são a centésima parte: pois tu entraste pobre e em jejum no campo, para semear a boa planta que foi videira e agora virou espinheiro.
A profissão de fé fecha o exame:
E io rispondo: Io credo in uno Dio / solo ed etterno, che tutto ’l ciel move, / non moto, con amore e con disio, e eu respondo: creio em um Deus só e eterno, que move todo o céu, sem ser movido, com amor e com desejo.
No canto XXVII avisa que vai descorar, e o céu inteiro cora com ele:
Quelli ch’usurpa in terra il luogo mio, / il luogo mio, il luogo mio, che vaca / ne la presenza del Figliuol di Dio, / fatt’ ha del cimitero mio cloaca / del sangue e de la puzza; onde ’l perverso / che cadde di qua sù, là giù si placaQuem usurpa na terra o seu lugar, repetido três vezes, o lugar que está vago diante do Filho de Deus, fez do seu cemitério uma cloaca de sangue e de fedor, e com isso apazigua o anjo caído. A repetição tripla do "il luogo mio" interrompe a alegria beatífica, e é o próprio primeiro papa quem faz a acusação. O céu de Dante não é silêncio contemplativo: o poema não abandona o mundo ao chegar em cima.
A acusação nomeia os lobos em veste de pastor:
In vesta di pastor lupi rapaci / si veggion di qua sù per tutti i paschi: / o difesa di Dio, perché pur giaci? / Del sangue nostro Caorsini e Guaschi / s’apparecchian di bere: o buon principio, / a che vil fine convien che tu caschi!, em veste de pastor, lobos rapaces se veem daqui de cima por todos os pastos: ó defesa de Deus, por que ainda jazes? Do nosso sangue, cauorsinos e gascões se preparam a beber: ó bom princípio, a que vil fim convém que tu caias!
Antes de subir com as outras almas, manda a Dante que abra a boca e não esconda o que ele não esconde. No canto XXV o peregrino o lembra como a primícia dos vigários de Cristo, e no canto XXXII Bernardo o põe como raiz da rosa, à direita, a quem Cristo confiou as chaves, em frente a Ana. Os outros santos o evocam antes: Pedro Damião no XXI, como Cefas que veio magro e descalço, e Bento no XXII, no balanço dos três fundadores:
Pier cominciò sanz’ oro e sanz’ argento, / e io con orazione e con digiuno, / e Francesco umilmente il suo convento; / e se guardi ’l principio di ciascuno, / poscia riguardi là dov’ è trascorso, / tu vederai del bianco fatto bruno., Pedro começou sem ouro e sem prata, e eu com oração e com jejum, e Francisco humildemente o seu convento; e se olhares o princípio de cada um, e depois olhares aonde chegou, verás o branco feito escuro.
Temas que encarna
Pedro encarna a Fé como substância e a Religião como origem: a Igreja que ele fundou pobre e em jejum é a que hoje cobre os cavalos com mantos. A mesma boca que examina a moeda da fé nega ao papa de agora o lugar que ocupa, e o poema não vê contradição: examinar o que se crê e acusar quem trai o cargo são o mesmo ofício.
O texto sustenta duas leituras da ira do canto XXVII. Na primeira, é a voz do poeta emprestada ao santo, que diz o que Dante diria. Na segunda, é a de um apóstolo cujo corpo, enterrado em Roma, está no centro da queixa, e por isso o cemitério virado cloaca fala do corpo dele. A ordem que dá a Dante, de abrir a boca, dialoga com a de Cacciaguida, de manifestar toda a visão, e as duas fazem do poeta o canal de uma acusação que o céu autoriza.
Relações
- Dante: o examinando, a quem manda abrir a boca.
- Beatriz: a que lhe pede o exame e muda de cor com ele.
- São Bernardo: o guia que o põe como raiz da rosa, à direita.
- Adão: o primeiro homem, raiz da rosa à esquerda.
- Cacciaguida: o trisavô cuja ordem de dizer tudo Pedro reitera.