Quem é
Bernardo é o velho vestido com a gente gloriosa, de ar benigno como convém a um pai terno, que Dante encontra no Empíreo no lugar de Beatriz. Diz o nome só no canto XXXI, ao se apresentar como o fiel de Maria, de quem arde todo de amor. O peregrino vem de se virar para fazer uma pergunta a Beatriz, vê o velho e grita onde está ela; Bernardo responde que ela o moveu do lugar dele para terminar o desejo de Dante, e a aponta no trono. Dali em diante é o guia. Assume por livre vontade o ofício de doutor no canto XXXII e ensina como se senta a rosa: Eva aos pés de Maria, a divisão entre os que creram em Cristo por vir e os que o viram vindo, as crianças que se sentam por mérito alheio, as raízes (Adão à esquerda e Pedro à direita, na leitura corrente), o anjo que a leitura corrente diz ser Gabriel, Ana e Lúcia. No XXXIII abre a oração à Virgem com três paradoxos e pede que Dante receba a graça de levantar os olhos mais alto. Este é o Bernardo do Empíreo, que a tradição lê como o de Claraval, e não o Bernardo do canto XI, o franciscano Bernardo de Quintavalle, que se descalça atrás de Francisco. É o guia que não explica, apenas ensina a rezar: o último passo não se ganha, pede-se.
Trajetória
No canto XXXI ele responde à pergunta com que Dante o recebe:
E «Ov’ è ella?», sùbito diss’ io. / Ond’ elli: «A terminar lo tuo disiro / mosse Beatrice me del loco mio; / e se riguardi sù nel terzo giro / dal sommo grado, tu la rivedrai / nel trono che suoi merti le sortiro», e onde está ela?, disse eu logo. E ele: para terminar o teu desejo Beatriz me moveu do meu lugar; e se olhares lá em cima, no terceiro giro a partir do mais alto grau, tu a verás de novo no trono que seus méritos lhe deram.
Manda o peregrino subir com os olhos pelos círculos até a rainha e, quando o vê olhando-a, volta os olhos dele a ela com tanto afeto que os de Dante se acendem mais. A beleza que Dante vê rir não é descrita pelos traços, é medida pelo efeito nos outros:
Vidi a lor giochi quivi e a lor canti / ridere una bellezza, che letizia / era ne li occhi a tutti li altri santi; / e s’io avessi in dir tanta divizia / quanta ad imaginar, non ardirei / lo minimo tentar di sua delizia, vi aos jogos e cantos deles rir uma beleza, que era alegria nos olhos de todos os outros santos; e se eu tivesse em dizer tanta riqueza quanta em imaginar, não ousaria tentar o mínimo da sua delícia.
No canto XXXII começa pela chaga:
«La piaga che Maria richiuse e unse, / quella ch’è tanto bella da’ suoi piedi / è colei che l’aperse e che la punse, a chaga que Maria fechou e ungiu, aquela que é tão bela a seus pés é quem a abriu e a picou.
Explica as crianças sentadas por mérito alheio:
E sappi che dal grado in giù che fiede / a mezzo il tratto le due discrezioni, / per nullo proprio merito si siede, / ma per l’altrui, con certe condizioni: / ché tutti questi son spiriti ascolti / prima ch’avesser vere elezïoni, e sabe que do grau para baixo que fere ao meio o traço das duas discrições, por nenhum mérito próprio se senta, mas pelo alheio, com certas condições: pois todos estes são espíritos desligados antes que tivessem verdadeiras escolhas.
E responde à dúvida de Dante negando o acaso:
Dentro a l’ampiezza di questo reame / casüal punto non puote aver sito, / se non come tristizia o sete o fame: / ché per etterna legge è stabilito / quantunque vedi, sì che giustamente / ci si risponde da l’anello al dito, dentro da amplidão deste reino, ponto casual não pode ter sítio, a não ser como tristeza ou sede ou fome: pois por lei eterna está estabelecido tudo o que vês, de modo que se responde justamente do anel ao dedo.
Antes da oração, o aviso de que o último passo não se ganha batendo asa:
Veramente, ne forse tu t’arretri / movendo l’ali tue, credendo oltrarti, / orando grazia conven che s’impetri / grazia da quella che puote aiutarti; / e tu mi seguirai con l’affezione, / sì che dal dicer mio lo cor non parti», em verdade, que não retrocedas talvez movendo as tuas asas, crendo avançar, convém orando impetrar graça daquela que pode te ajudar; e tu me seguirás com a afeição, de modo que do meu dizer não parta o coração.
No canto XXXIII abre a oração:
A oração de São Bernardo à Virgem (canto XXXIII).Vergine Madre, figlia del tuo figlio, / umile e alta più che creatura, / termine fisso d’etterno consiglio,Virgem Mãe, filha do próprio filho, humilde e mais alta que qualquer criatura, termo fixo do conselho eterno. São Bernardo de Claraval pede a Maria a graça que Beatriz não pode mais alcançar sozinha: o último passo não é conquistado, é pedido.
E a transforma em argumento:
Donna, se’ tanto grande e tanto vali, / che qual vuol grazia e a te non ricorre, / sua disïanza vuol volar sanz’ ali, senhora, és tão grande e tanto vales que quem quer graça e a ti não recorre quer que o seu desejo voe sem asas.
Maria responde com os olhos, e Bernardo acena a Dante, sorrindo, que olhe para cima:
Li occhi da Dio diletti e venerati, / fissi ne l’orator, ne dimostraro / quanto i devoti prieghi le son grati; / indi a l’etterno lume s’addrizzaro, / nel qual non si dee creder che s’invii / per creatura l’occhio tanto chiaro, os olhos amados e venerados por Deus, fixos em quem orava, mostraram-nos quão gratas lhe são as preces devotas; depois se dirigiram à luz eterna, na qual não se deve crer que olho de criatura se encaminhe tão claro.
Temas que encarna
Bernardo encarna a Fé como oração e a mediação como estrutura da subida: quem quer graça e não recorre a Maria quer que o desejo voe sem asas. Encarna também o Amor que não pede nada para si, o de quem arde por ver o dele mais do que o seu.
O texto sustenta duas leituras da troca de guia. Na primeira, é a continuidade: Beatriz o moveu de seu lugar, e Bernardo apenas cumpre o pedido dela. Na segunda, é uma ruptura: ele é um outro tipo de guia, o da contemplação e da oração, e a mulher que ensinava por princípio cede a quem ensina a pedir. A lição é de método (o velho não explica o sistema, aponta o assento), e os dois guias se completam sem se substituir.
Relações
- Beatriz: a que o moveu do lugar dele e o aponta no trono.
- Virgem Maria: a rainha de quem é fiel e a quem dirige a oração.
- Dante: o discípulo que ele leva ao último passo.
- Adão: a raiz da rosa que ele mostra.
- São Pedro: a outra raiz da rosa.