O tema na obra
O Paraíso é a cântica em que o amor deixa de ser o assunto de uma passagem e passa a ser a lei do lugar. Cada coisa se move ao seu porto, diz Beatriz logo no primeiro canto, e o que a move é o amor, que governa o céu. A mesma ideia atravessa a cântica em três escalas. A primeira é a da vontade que se aquieta: em Piccarda e Constança, a caridade faz querer só o que se tem, e a paz de quem ocupa o degrau mais baixo é a de quem não deseja outro lugar.
«Frate, la nostra volontà quïeta / virtù di carità, che fa volerne / sol quel ch’avemo, e d’altro non ci asseta, irmão, a nossa vontade é aquietada pela virtude da caridade, que nos faz querer só o que temos e de outra coisa não nos dá sede.
A segunda escala é a das almas que amaram na terra e não se arrependem no céu. Em Vênus, o amor que queimou Cunizza e Folquet não foi apagado, foi recolocado: o que volta à mente é a potência que o previu.
Non però qui si pente, ma si ride, / non de la colpa, ch’a mente non torna, / ma del valor ch’ordinò e provide. / Qui si rimira ne l’arte ch’addorna / cotanto affetto, e discernesi ’l bene / per che ’l mondo di sù quel di giù torna, aqui, porém, não nos arrependemos, mas rimos, não da culpa, que não volta à mente, mas do valor que ordenou e proveu. Aqui se contempla a arte que adorna tanto afeto, e se discerne o bem pelo qual o mundo de cima faz girar o de baixo.
A terceira é a escala do cosmos. No Primeiro Móvel, Beatriz explica que do ponto de luz dependem o céu e toda a natureza, e que o círculo mais próximo corre tão depressa porque é o mais picado pelo amor.
Da quel punto / depende il cielo e tutta la natura. / Mira quel cerchio che più li è congiunto; / e sappi che ’l suo muovere è sì tosto / per l’affocato amore ond’ elli è punto», daquele ponto depende o céu e toda a natureza. Olha aquele círculo que lhe é mais unido; e sabe que o seu movimento é tão veloz pelo amor afogueado de que é picado.
Há ainda a causa do amor: Deus não cria para ter acréscimo de bem, cria para que o resplendor possa dizer subsisto, e o eterno amor se abre em novos amores.
Non per aver a sé di bene acquisto, / ch’esser non può, ma perché suo splendore / potesse, risplendendo, dir “Subsisto”, / in sua etternità di tempo fore, / fuor d’ogne altro comprender, come i piacque, / s’aperse in nuovi amor l’etterno amore, não para ter para si acréscimo de bem, que não pode ser, mas para que o seu resplendor, resplandecendo, pudesse dizer subsisto, em sua eternidade, fora do tempo, fora de toda outra compreensão, como lhe aprouve, o eterno amor se abriu em novos amores.
O Paraíso trata o amor como medida de ordem, não como emoção solta. Em Mercúrio a diferença de degrau é harmonia, em Vênus os que amaram demais já não carregam a falta, e em Saturno o amor se mede pela capacidade de quem o recebe, tanto que Beatriz não ri para não reduzir Dante a cinza. Nada disso faz do amor uma coisa abstrata: cada alma é lembrada pelo que amou, Piccarda pelo claustro, Cunizza pelo astro, Francisco pela dama Pobreza, Cacciaguida pela cidade em paz. O poema não deixa o amor sozinho: no canto XXVIII Beatriz diz que o ser beato se funda no ato que vê, e não no que ama, que depois segue. A ordem é ver primeiro e amar depois, e no Empíreo ela encadeia luz, amor e alegria. A cântica fecha com o verso que o resume, o amor que move o sol e as outras estrelas, e o que se move é o desejo e a vontade do próprio Dante.
O mesmo terceto no original, que fecha o poema inteiro.A l’alta fantasia qui mancò possa; / ma già volgeva il mio disio e ’l velle, / sì come rota ch’igualmente è mossa, / l’amor che move il sole e l’altre stelle.Aqui faltou poder à alta fantasia, mas já o desejo e a vontade de Dante giravam, como uma roda movida igualmente por toda a parte, pelo Amor que move o sol e as outras estrelas.
Quem o encarna
Piccarda Donati é o amor que quer só o que tem. Cunizza da Romano e Folquet de Marselha são o amor que o céu recoloca. Carlos Martel é o amor que teria dado frutos além das folhas. Beatriz é o amor que desce por outro e que ensina. São Bernardo é o amor que arde por ver o do outro mais do que o próprio, e Virgem Maria, o que se adianta ao pedido.
Onde aparece
- Canto I: Beatriz explica a Dante que as criaturas inteligentes e amantes também se movem ao seu porto, pelo mesmo arco que dispara todas as coisas.
- Canto III: Piccarda afirma que a caridade lhe aquieta a vontade e faz querer só o que tem.
- Canto V: Beatriz diz que o fogo dela vem do ver perfeito, que move o pé para o bem que apreende.
- Canto VIII: Carlos Martel lembra que Dante o amou muito, e o amor teria dado frutos além das folhas.
- Canto IX: Folquet explica que em Vênus ninguém se arrepende do amor passado, porque se contempla a arte que o ordena.
- Canto XI: Tomás conta Francisco como esposo da Pobreza, a dama a que ninguém abre a porta do prazer.
- Canto XIV: A voz da luz mais divina, que a tradição lê como Salomão, promete que o amor das almas se irradiará em torno da veste de luz enquanto durar a festa do paraíso.
- Canto XXVI: João pergunta a Dante quantos dentes o amor tem para o morder, e Dante responde com o jardim e o mar do amor torto.
- Canto XXVIII: Beatriz ensina que o círculo mais veloz é o mais picado pelo amor e que o ser beato nasce do ver, e o amar vem depois.
- Canto XXIX: Beatriz diz que o eterno amor se abriu em novos amores sem acréscimo para si.
- Canto XXX: Beatriz define o Empíreo como luz intelectual cheia de amor, amor do verdadeiro bem, alegria que transcende toda doçura.
- Canto XXXIII: Bernardo diz a Maria que quem quer graça e não recorre a ela quer que o desejo voe sem asas, e o poema fecha no amor que move tudo.
Onde as leituras divergem
Carpeaux isola o verso final como o ponto em que a poesia de Dante se justifica:
Amor che muove il sole e l'altre stelle