Quem é
Maria é, no Paraíso, a rainha do céu que o poema mostra pouco e por efeitos. Não fala em nenhum canto. Aparece nomeada pelos outros, descrita pelo que causa e invocada por quem reza, e sua única resposta é um gesto dos olhos. No canto II do Inferno já era dela, segundo a leitura corrente, o primeiro movimento da viagem: uma Senhora do céu se compadece do perdido e move Santa Luzia, que move Beatriz, que move Virgílio. No Paraíso Dante a vê como a rosa em que o Verbo se fez carne (XXIII), como a beleza que ri aos jogos e cantos dos anjos (XXXI), como a que cada coro de santos olha ao sentar-se (XXXII), e como a destinatária da oração mais longa do poema (XXXIII). Um anjo a chama de senhora do céu e diz que girará enquanto ela seguir o filho ao Empíreo. Quem a descreve não consegue: Dante confessa que, mesmo com riqueza de dizer igual à de imaginar, não ousaria tentar o mínimo da sua delícia. É a figura mais alta da cântica depois da Trindade, e a única a quem o poema atribui o poder de dissipar a nuvem da mortalidade de Dante.
Trajetória
No canto XXIII Beatriz repreende Dante por olhar o rosto dela e não o jardim sob os raios de Cristo:
«Perché la faccia mia sì t’innamora, / che tu non ti rivolgi al bel giardino / che sotto i raggi di Cristo s’infiora? / Quivi è la rosa in che ’l verbo divino / carne si fece; quivi son li gigli / al cui odor si prese il buon cammino»., por que o meu rosto tanto te enamora que não te voltas para o belo jardim que floresce sob os raios de Cristo? Ali está a rosa em que o Verbo divino se fez carne; ali estão os lírios, ao cujo odor se tomou o bom caminho.
Um anjo desce em forma de coroa, cinge a maior chama e gira em torno dela:
«Io sono amore angelico, che giro / l’alta letizia che spira del ventre / che fu albergo del nostro disiro; / e girerommi, donna del ciel, mentre / che seguirai tuo figlio, e farai dia / più la spera suprema perché lì entre»., eu sou amor angélico, que giro a alta alegria que respira do ventre que foi albergue do nosso desejo; e girarei, senhora do céu, enquanto seguires teu filho e tornares mais luminosa a esfera suprema por nela entrares.
Os outros lumes fazem soar o nome de Maria, e cantam Regina celi tão docemente que o prazer nunca sai do poeta. No canto XXXI ela é descrita pelo efeito:
Vidi a lor giochi quivi e a lor canti / ridere una bellezza, che letizia / era ne li occhi a tutti li altri santi; / e s’io avessi in dir tanta divizia / quanta ad imaginar, non ardirei / lo minimo tentar di sua delizia, vi aos jogos e cantos deles rir uma beleza, que era alegria nos olhos de todos os outros santos; e se eu tivesse em dizer tanta riqueza quanta em imaginar, não ousaria tentar o mínimo da sua delícia.
No canto XXXII está acima de Eva, que abriu a chaga que ela fechou:
«La piaga che Maria richiuse e unse, / quella ch’è tanto bella da’ suoi piedi / è colei che l’aperse e che la punse, a chaga que Maria fechou e ungiu, aquela que é tão bela a seus pés é quem a abriu e a picou.
Bernardo manda que Dante peça graça a ela:
Veramente, ne forse tu t’arretri / movendo l’ali tue, credendo oltrarti, / orando grazia conven che s’impetri / grazia da quella che puote aiutarti; / e tu mi seguirai con l’affezione, / sì che dal dicer mio lo cor non parti», em verdade, que não retrocedas talvez movendo as tuas asas, crendo avançar, convém orando impetrar graça daquela que pode te ajudar; e tu me seguirás com a afeição, de modo que do meu dizer não parta o coração.
No canto XXXIII a oração a define por paradoxos:
A oração de São Bernardo à Virgem (canto XXXIII).Vergine Madre, figlia del tuo figlio, / umile e alta più che creatura, / termine fisso d’etterno consiglio,Virgem Mãe, filha do próprio filho, humilde e mais alta que qualquer criatura, termo fixo do conselho eterno. São Bernardo de Claraval pede a Maria a graça que Beatriz não pode mais alcançar sozinha: o último passo não é conquistado, é pedido.
E por sua função de mediadora:
Donna, se’ tanto grande e tanto vali, / che qual vuol grazia e a te non ricorre, / sua disïanza vuol volar sanz’ ali, senhora, és tão grande e tanto vales que quem quer graça e a ti não recorre quer que o seu desejo voe sem asas.
A resposta dela é só o olhar:
Li occhi da Dio diletti e venerati, / fissi ne l’orator, ne dimostraro / quanto i devoti prieghi le son grati; / indi a l’etterno lume s’addrizzaro, / nel qual non si dee creder che s’invii / per creatura l’occhio tanto chiaro, os olhos amados e venerados por Deus, fixos em quem orava, mostraram-nos quão gratas lhe são as preces devotas; depois se dirigiram à luz eterna, na qual não se deve crer que olho de criatura se encaminhe tão claro.
Temas que encarna
Maria encarna a mediação: a Fé que se pede e o Amor que se adianta ao pedido, tocha de caridade a pleno meio-dia entre os bem-aventurados e fonte viva de esperança entre os mortais. É também a figura em que o Deus e o divino se aproxima do humano, pois nela, diz a oração, o fazedor não desdenhou fazer-se feitura sua.
O texto sustenta duas leituras do silêncio dela. Na primeira, é a economia do poema: quem reza em lugar de Dante é Bernardo, e a rainha responde com o olhar para que a resposta seja só gesto. Na segunda, a falta de palavra é o que a faz maior, porque o que se ouve de uma figura tão alta é a cena que ela causa, e não o discurso. O poema sugere ambas e não escolhe.
Relações
- São Bernardo: o fiel que lhe dirige a oração.
- Beatriz: a que a aponta como rosa em que o Verbo se fez carne.
- Dante: o vivo cujo olhar ela dirige, por mediação, à luz eterna.