O que é
Os sete P são as letras que o anjo porteiro escreve com a ponta da espada na testa de Dante quando ele chega à porta da montanha, no canto IX do Purgatório, um para cada pecado que o monte vai lavar. Dante se joga aos pés do anjo, bate três vezes no peito e pede misericórdia, e o anjo lhe manda lavá-los quando estiver dentro. Antes disso o peregrino subiu três degraus de cores diferentes: um de mármore branco tão polido que ele se vê nele tal como parece, um mais escuro que o roxo-negro, de pedra áspera e rachada, e um de porfírio rubro como sangue que jorra da veia. Depois o anjo tira de debaixo de uma veste cor de cinza duas chaves, uma de ouro e outra de prata, e abre a porta com uma regra: erre-se antes em abrir do que em manter fechada, contanto que a gente se prostre. A leitura corrente lê a letra como a inicial de pecado em italiano.
Onde aparece
A inscrição e a regra da porta estão no canto IX do Purgatório. O anjo manda gravar:
Antes de subir a primeira cornija, Dante se ajoelha diante do anjo porteiro, bate três vezes no peito e recebe os sete P gravados na testa com a ponta da espada; o anjo tira duas chaves, uma de ouro e outra de prata, uma mais cara e a outra a que exige arte e engenho antes de abrir, porque é ela que desata o nó, e avisa que volta para fora quem olhar para trás depois de entrar.Sette P ne la fronte mi descrisse / col punton de la spada, e «Fa che lavi, / quando se’ dentro, queste piaghe» disse, sete P me escreveu na fronte com a ponta da espada, e disse: faz que laves, quando estiveres dentro, estas chagas.
O aviso que fecha a regra vale para quem já foi aceito:
Da Pier le tegno; e dissemi ch’i’ erri / anzi ad aprir ch’a tenerla serrata, / pur che la gente a’ piedi mi s’atterri». / Poi pinse l’uscio a la porta sacrata, / dicendo: «Intrate; ma facciovi accorti / che di fuor torna chi ’n dietro si guata»., tenho-as de Pedro; e ele me disse que eu erre antes em abrir do que em manter fechada, contanto que a gente se prostre a meus pés. Depois empurrou a folha da porta sagrada, dizendo: entrai; mas aviso-vos de que volta para fora quem olha para trás.
Os degraus que precedem a inscrição são descritos assim:
Là ne venimmo; e lo scaglion primaio / bianco marmo era sì pulito e terso, / ch’io mi specchiai in esso qual io paio. / Era il secondo tinto più che perso, / d’una petrina ruvida e arsiccia, / crepata per lo lungo e per traverso., fomos até lá; e o primeiro degrau era de mármore branco, tão polido e límpido que me vi nele tal como pareço. O segundo era mais escuro que o roxo-negro, de uma pedra áspera e queimada, rachada no comprimento e na largura.
O primeiro P cai no canto XII do Purgatório, no fim da cornija da soberba. Dante só percebe o apagamento ao passar a mão pela testa e achar apenas seis das letras, e Virgílio sorri, porque sabia:
e con le dita de la destra scempie / trovai pur sei le lettere che ’ncise / quel da le chiavi a me sovra le tempie: / a che guardando, il mio duca sorrise., e com os dedos da destra abertos achei apenas seis das letras que gravou aquele das chaves sobre as minhas têmporas; ao ver isso, o meu guia sorriu.
Virgílio já lhe tinha explicado a lei: quando todos os P estiverem rasados como já está um, os pés serão vencidos pelo bom querer e lhes dará prazer serem impelidos para cima. No canto XV do Purgatório, o guia diz que Dante procure que logo se apaguem as cinco chagas que restam, como já se apagaram duas, e que se fecham pela dor. O anjo do sexto giro, no canto XXII do Purgatório, raspa mais um.
O que significa
Os sete P são o resumo moral da montanha em sete letras: cada um corresponde a um dos pecados capitais e é lavado numa cornija. O que o símbolo faz é pôr o pecado no corpo do penitente, e não só na alma.
O poema mostra duas operações opostas na mesma testa: a espada escreve, o anjo apaga. A que escreve é severa, e Dante a recebe de joelhos. A que apaga é leve, e Dante nem a vê. Duas leituras: o apagar é o pagamento do que se faz a cada cornija, ou é o sinal de que a vontade, e não a pena, é o que cura. O texto sustenta as duas, e o canto XII dá à segunda um fundamento, a mão que descobre o que a vista não via.
Relações
- Temas-padrão: Redenção, Orgulho.
- Temas da obra: Redenção, Orgulho.
- Personagens: Dante, Virgílio.
- Símbolos vizinhos: a montanha e o junco da humildade, cuja leveza cresce com cada P que sai, e as pedras da soberba, a cornija onde o primeiro se apaga.