O que é
No alto da montanha, no Paraíso Terrestre, o riacho que impede Dante de ir adiante vem de uma só fonte que se abre em dois leitos, e cada leito leva um nome. O Lete desce de um lado com a virtude de tirar a memória do pecado, e o Eunoé, do outro, devolve a de todo bem feito. A água do segundo só opera se a do primeiro foi provada antes, e não nasce de veia que restaure vapor convertido em gelo, como o rio que ganha e perde força, mas de uma fonte firme e certa, que retoma da vontade de Deus tanto quanto derrama pelos dois lados abertos. Matelda explica a Dante como a água procede, depois o mergulha numa e o conduz à outra, a pedido de Beatriz, que faz da purgação um processo.
Onde aparece
A descrição da fonte está no canto XXVIII do Purgatório, na boca de Matelda:
Da questa parte con virtù discende / che toglie altrui memoria del peccato; / da l’altra d’ogne ben fatto la rende. / Quinci Letè; così da l’altro lato / Eünoè si chiama, e non adopra / se quinci e quindi pria non è gustato, deste lado desce com a virtude de tirar de alguém a memória do pecado; do outro, devolve a de todo bem feito. Daqui, Lete; assim, do outro lado, chama-se Eunoé, e não opera se antes não for provado de um lado e do outro.
O Lete aparece antes, no canto XXVI do Purgatório, como medida do afeto de Guinizelli por Dante, e já ali tem a sua função: é o que apagaria uma lembrança.
Tu lasci tal vestigio, / per quel ch’i’ odo, in me, e tanto chiaro, / che Letè nol può tòrre né far bigio, tu deixas tal rastro em mim, pelo que ouço, e tão claro, que o Lete não pode tirá-lo nem deixá-lo cinzento.
A imersão é no canto XXXI do Purgatório, depois da confissão. Dante cai vencido, Matelda o puxa ao rio até a garganta e o submerge:
La bella donna ne le braccia aprissi; / abbracciommi la testa e mi sommerse / ove convenne ch’io l’acqua inghiottissi, a bela dama abriu os braços; abraçou-me a cabeça e me submergiu onde foi preciso que eu engolisse a água.
No canto XXXIII do Purgatório Beatriz usa o Lete contra ele: se não se lembra de ter se afastado dela, é porque bebeu do rio que apaga o pecado.
E se tu ricordar non te ne puoi», / sorridendo rispuose, «or ti rammenta / come bevesti di Letè ancoi; / e se dal fummo foco s’argomenta, / cotesta oblivïon chiaro conchiude / colpa ne la tua voglia altrove attenta, e se não podes te lembrar, respondeu sorrindo, lembra agora como hoje bebeste do Lete; e se da fumaça se infere o fogo, esse esquecimento conclui claramente culpa na tua vontade atenta a outra parte.
O banho do Eunoé fecha a cântica, com Dante renovado como planta nova:
puro e disposto a salire a le stelle., puro e disposto a subir às estrelas.
O que significa
As duas águas dão forma de rio a uma ideia teológica: o perdão tem dois movimentos, esquecer o mal e lembrar o bem, e o segundo não vem sem o primeiro. O Lete é o descanso do pecado, o Eunoé o do mérito. O poema mostra também o preço do primeiro: o Lete apaga a memória do pecado e, com ela, a de ter se afastado de Beatriz, e é preciso que ela argumente do esquecimento para a culpa.
Há duas leituras do ponto em que Beatriz faz do remédio uma prova. Uma é a justiça de quem cobra com argumento firme: a água que lava é também o indício de que havia o que lavar. A outra é a ironia de quem sorri ao dizê-lo, porque o peregrino cumpriu sem saber o que ela mesma planejara. O canto XXXIII diz o efeito do Eunoé em Dante, que volta renovado, puro e disposto a subir, mas não canta o beber, e o poeta confessa que o freio da arte não o deixa ir adiante.
Relações
- Temas-padrão: Redenção, Perdão, Culpa.
- Temas da obra: Redenção, Perdão.
- Personagens: Matelda, Beatriz, Dante.
- Símbolos vizinhos: o muro de fogo, a última passagem antes do jardim, e o carro, o grifo e a procissão, a procissão que chega à beira do rio.