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Símbolo

O muro de fogo

O que é

O último tormento da montanha é um fogo. A borda da cornija da luxúria solta chamas, e um vento sopra do chão para cima e as reflete e afasta, de modo que os peregrinos têm de ir pelo lado livre, um a um, com o fogo de um lado e a queda do outro. Dentro dele cantam, e os espíritos andam na chama gritando os exemplos de castidade. Depois, no fim do dia, o fogo vira muro: o anjo de Deus aparece, alegre, fora da chama, cantando Beati mundo corde, e diz que já não se segue adiante se o fogo antes não morde. Dante fica como quem é posto na cova, inclina-se sobre as mãos cruzadas e imagina com força corpos humanos já vistos queimar. Virgílio lhe diz que ali há tormento, não morte, e tenta vencê-lo por três vias. Nenhuma funciona.

Onde aparece

O fogo é apresentado no canto XXV do Purgatório, com o hino e o brado das sombras:

Appresso il fine ch’a quell’ inno fassi, / gridavano alto: ‘Virum non cognosco’; / indi ricominciavan l’inno bassi, ao fim do que se faz àquele hino, gritavam alto: não conheço varão; depois recomeçavam o hino baixo.
Cantos XXII a XXV: Gula e a geração da alma

No canto XXVI do Purgatório a pena dos luxuriosos é a do fogo mais a vergonha, que ajuda a queimadura. Uma das sombras explica:

Nostro peccato fu ermafrodito; / ma perché non servammo umana legge, / seguendo come bestie l’appetito, nosso pecado foi hermafrodita; mas porque não observamos a lei humana, seguindo o apetite como bestas.
Cantos XXVI a XXIX: O fogo e o Éden

O muro está no canto XXVII do Purgatório. Depois de três argumentos de razão, Virgílio recorre ao único que ainda não tinha tentado:

Or vedi, figlio: / tra Bëatrice e te è questo muro, vê agora, filho: entre Beatriz e ti está este muro.
Cantos XXVI a XXIX: O fogo e o Éden

Dentro do fogo, Dante se jogaria em vidro fervente para se refrescar, tanta é a chama sem medida, e Virgílio vai falando de Beatriz. A saída é por uma voz que canta do outro lado, e a escada que se segue é onde o dia acaba e o sono vem. Pela manhã, Virgílio promete:

Quel dolce pome che per tanti rami / cercando va la cura de’ mortali, / oggi porrà in pace le tue fami, aquele doce pomo que por tantos ramos vai buscando o cuidado dos mortais hoje porá em paz as tuas fomes.
Cantos XXVI a XXIX: O fogo e o Éden

E fecha a lição:

Tratto t’ho qui con ingegno e con arte; / lo tuo piacere omai prendi per duce; / fuor se’ de l’erte vie, fuor se’ de l’arte, trouxe-te até aqui com engenho e com arte; toma agora o teu prazer por guia; estás fora dos caminhos íngremes, estás fora dos estreitos.
Cantos XXVI a XXIX: O fogo e o Éden

O que significa

O fogo é o último corretivo da vontade desordenada, e o muro é o limiar que separa o Purgatório do Éden. O símbolo repete, num espaço pequeno, o que a montanha inteira repete: a passagem é obrigatória, o medo é humano, e o que move o peregrino não é o argumento, é um nome.

O texto sustenta duas leituras da irritação de Virgílio. Uma é a de quem vê a razão perder para o afeto, e a outra a de quem guardara a última carta. O efeito é imediato e não decide: Dante se volta ao nome de Beatriz como Píramo moribundo, e Virgílio, com um sorriso de quem vence a criança com uma maçã, entra à frente no fogo. Cabe a Virgílio, que não pode mais acompanhá-lo, dizer a Dante que o prazer dele é agora o seu guia, e o fogo é o ponto em que o poema entrega essa palavra.

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