O que é
No Paraíso Terrestre, um clarão corre por toda a floresta e uma melodia doce corre pelo ar luminoso. Sete árvores de ouro, que a distância falseava, são na verdade candelabros, que deixam atrás de si o ar pintado em sete faixas nas cores do arco-íris. Sob esse céu vêm vinte e quatro anciãos, dois a dois, coroados de lírios, e depois quatro animais coroados de verde, cada um com seis asas cheias de olhos. No espaço entre eles há um carro triunfal de duas rodas, puxado por um grifo: no que é ave, os membros são de ouro, e brancos, mesclados de vermelho, os do outro corpo. Junto à roda direita dançam três damas, uma vermelha, uma de esmeralda e uma de neve; da esquerda, quatro, vestidas de púrpura, e uma delas tem três olhos na cabeça. Atrás vêm dois velhos, quatro em aspecto humilde e um só que vem dormindo. A tradição dos comentadores lê os anciãos como os livros do Antigo Testamento, os animais como os evangelistas, o carro como a Igreja, o grifo como Cristo em suas duas naturezas, as três damas como as virtudes teologais e as quatro como as cardeais. O poema dá cores, gestos e números, e não esses nomes.
Onde aparece
A procissão ocupa o canto XXIX do Purgatório. O poeta se recusa a gastar mais rimas nos quatro animais e manda o leitor a Ezequiel:
ma leggi Ezechïel, che li dipigne / come li vide da la fredda parte / venir con vento e con nube e con igne; / e quali i troverai ne le sue carte, / tali eran quivi, salvo ch’a le penne / Giovanni è meco e da lui si diparte, mas lê Ezequiel, que os pinta como os viu vir da parte fria com vento, nuvem e fogo; e quais os acharás em suas páginas, tais eram ali, salvo nas penas: nisso João está comigo e dele se afasta.
O cortejo para quando o carro fica diante de Dante, com um trovão:
E quando il carro a me fu a rimpetto, / un tuon s’udì, e quelle genti degne / parvero aver l’andar più interdetto, / fermandosi ivi con le prime insegne, e quando o carro ficou diante de mim, ouviu-se um trovão, e aquela gente digna pareceu ter o andar impedido, parando ali com as primeiras insígnias.
No canto XXX do Purgatório, da nuvem de flores sobre o carro surge Beatriz, e no canto XXXI do Purgatório Dante vê nos olhos dela o grifo, a fera de duas naturezas:
Come in lo specchio il sol, non altrimenti / la doppia fiera dentro vi raggiava, / or con altri, or con altri reggimenti, como o sol no espelho, não de outro modo a dupla fera nele raiava, ora sob um modo, ora sob outro.
No canto XXXII do Purgatório o grifo liga o timão do carro à árvore despida, que reflorece:
gridaron li altri; e l’animal binato: / «Sì si conserva il seme d’ogne giusto, gritaram os outros; e o animal de duas naturezas: assim se conserva a semente de todo justo.
Depois o carro é atacado por uma águia, uma raposa e um dragão, e acaba coberto de penas e transformado em monstro. Sobre ele aparece:
Sicura, quasi rocca in alto monte, / seder sovresso una puttana sciolta / m’apparve con le ciglia intorno pronte, segura, quase fortaleza em alto monte, sentada sobre ele uma prostituta solta me apareceu, com os olhos prontos em volta.
No canto XXXIII do Purgatório Beatriz dá a profecia em número, e a chama de obscura:
nel quale un cinquecento diece e cinque, / messo di Dio, anciderà la fuia / con quel gigante che con lei delinque, no qual um quinhentos dez e cinco, enviado de Deus, matará a ladra com aquele gigante que com ela delinque.
O que significa
O carro é o centro do cortejo e é o objeto do ataque, e esse é o ponto do símbolo: aquilo que o poema pinta com a maior solenidade é também aquilo que ele mostra sofrer, no mesmo lugar, a mais grave corrupção. A leitura dos comentadores faz da águia o Império, da raposa a heresia, das penas o poder temporal dado à Igreja, da prostituta a Cúria e do gigante o rei da França. O poema, aqui, não dá esses nomes, dá a cena.
A procissão e o monstro são duas imagens do mesmo veículo, e a diferença entre elas é só o que se deixou fazer a ele. O que une a procissão à acusação de Beatriz é o vocabulário da visão: as duas pedem que Dante olhe e escreva, uma pelo esplendor e a outra pela vergonha. Há duas leituras para o cinco-dez-cinco: um enviado de Deus que matará a ladra e o gigante, com as letras romanas lidas como DUX na leitura mais difundida, ou uma obscuridade que Beatriz cultiva porque fala a quem não vai entender agora. O texto deixa as duas, e o enigma ficou aberto.