O que é
A primeira cornija da montanha é de pedra, e a pedra é de três formas. A parede de mármore branco do lado de dentro, esculpida com tal arte que nem Policleto nem a natureza ficariam sem vergonha, traz as figuras da humildade: a Anunciação, Davi diante da arca, o imperador Trajano e a viúva. O chão da cornija, lavrado como as lajes das sepulturas, traz as figuras da soberba punida, de Lúcifer a Troia. E os penitentes carregam blocos de rocha nas costas, dobrados tanto que Dante só os distingue pelo bater no peito. Virgílio manda olhar fixo e desembaraçar com a vista o que vem sob as pedras. A comparação do poeta é com as figuras de consolo que, nos tetos, sustentam o peso com os joelhos no peito: fazem nascer em quem as olha uma pena verdadeira de uma dor que não é.
Onde aparece
A parede fala no canto X do Purgatório. A primeira cena é a Anunciação, tão exata que Dante ouve a fala dela:
Giurato si saria ch’el dicesse ‘Ave!’; / perché iv’ era imaginata quella / ch’ad aprir l’alto amor volse la chiave; / e avea in atto impressa esta favella / ‘Ecce ancilla Deï’, propriamente / come figura in cera si suggella., jurar-se-ia que ele dizia Ave; porque ali estava figurada aquela que girou a chave para abrir o alto amor; e tinha impressa no gesto esta fala, Ecce ancilla Dei, tão propriamente como uma figura se sela na cera.
A última é a de Trajano com a viúva, e é ali que a humildade vira argumento:
ed ella: «L’altrui bene / a te che fia, se ’l tuo metti in oblio?»; / ond’ elli: «Or ti conforta; ch’ei convene / ch’i’ solva il mio dovere anzi ch’i’ mova: / giustizia vuole e pietà mi ritene»., e ela: o bem dos outros, para ti, que será, se esqueceres o teu?; ao que ele: agora te conforta, que convém que eu cumpra o meu dever antes de partir: a justiça o quer e a piedade me retém.
O poeta chama o que acaba de ver de fala visível:
Colui che mai non vide cosa nova / produsse esto visibile parlare, / novello a noi perché qui non si trova., aquele que nunca viu coisa nova produziu esta fala visível, nova para nós porque aqui não se encontra.
E se volta aos cristãos soberbos:
O superbi cristian, miseri lassi, / che, de la vista de la mente infermi, / fidanza avete ne’ retrosi passi, / non v’accorgete voi che noi siam vermi / nati a formar l’angelica farfalla, / che vola a la giustizia sanza schermi?, ó cristãos soberbos, míseros cansados, que, enfermos da vista da mente, confiais nos passos para trás, não vos dais conta de que somos vermes nascidos para formar a borboleta angélica, que voa à justiça sem anteparos?
No canto XI do Purgatório os penitentes rezam um Pai-Nosso e pedem que a paz do reino venha a eles, porque por engenho não a alcançam:
Vegna ver’ noi la pace del tuo regno, / ché noi ad essa non potem da noi, / s’ella non vien, con tutto nostro ingegno., venha a nós a paz do teu reino, porque a ela não podemos chegar por nós mesmos, com todo o nosso engenho, se ela não vier.
Oderisi dá a lição para as artes:
Oh vana gloria de l’umane posse! / com’ poco verde in su la cima dura, / se non è giunta da l’etati grosse! / Credette Cimabue ne la pittura / tener lo campo, e ora ha Giotto il grido, / sì che la fama di colui è scura., ó vã glória das capacidades humanas! como dura pouco o verde no topo, se não é seguida por idades grosseiras! Cimabue julgou ter o campo na pintura, e agora Giotto tem o grito, de modo que a fama daquele está escura.
No canto XII do Purgatório vem o chão. O primeiro exemplo é o mais alto que caiu:
Vedea colui che fu nobil creato / più ch’altra creatura, giù dal cielo / folgoreggiando scender, da l’un lato., eu via aquele que foi criado mais nobre que qualquer outra criatura descer do céu, fulgurando, de um lado.
E o poeta se volta aos vivos com uma ironia:
Or superbite, e via col viso altero, / figliuoli d’Eva, e non chinate il volto / sì che veggiate il vostro mal sentero!, agora ensoberbecei-vos, e ide de rosto altivo, filhos de Eva, e não abaixeis o rosto para que não vejais o vosso mau caminho!
O que significa
As pedras são o peso e o espelho do orgulho. O peso é a pena: o soberbo que carregava a própria grandeza agora carrega a pedra, e o corpo dobrado é o que a soberba negava. O espelho é a lição: a parede ensina a humildade pelas imagens, o chão ensina a queda pelos exemplos, e o que há de comum é que o ensinamento entra pelo olhar.
O poema aplica à cornija o mesmo método que a cornija ensina: o que se vê na pedra faz o que as palavras fazem, e Dante, que lê a Virgem e Trajano como lê um texto, anda curvo sobre o chão como sobre uma página. Duas leituras convivem para o remédio. Na primeira, a cura da soberba é visual, e basta olhar para baixo até a vista se lembrar do tamanho certo. Na segunda, é corporal, e o peso e a curvatura fazem sozinhos o que a imagem prepara. O canto XII junta os dois movimentos e não diz qual vence.
Relações
- Temas-padrão: Orgulho, Arte, Redenção.
- Temas da obra: Orgulho, Arte, Redenção.
- Personagens: Dante, Virgílio.
- Símbolos vizinhos: os sete P na testa, cujo primeiro se apaga ao fim desta cornija, e a montanha e o junco da humildade, a humildade que a parede mostra em figura.