O tema na obra
O orgulho abre o monte: é o primeiro dos sete pecados que o anjo da porta escreve na testa de Dante, e é a primeira cornija, onde as almas andam curvadas sob blocos de pedra. O poema o trata em três tempos, e cada um é um uso diferente do olhar. No primeiro, a lição vem de fora, em imagens. A parede da cornija mostra a humildade em figuras esculpidas, e o poeta, ao fim, se volta aos leitores:
O superbi cristian, miseri lassi, / che, de la vista de la mente infermi, / fidanza avete ne’ retrosi passi, / non v’accorgete voi che noi siam vermi / nati a formar l’angelica farfalla, / che vola a la giustizia sanza schermi?, ó cristãos soberbos, míseros cansados, que, enfermos da vista da mente, confiais nos passos para trás, não vos dais conta de que somos vermes nascidos para formar a borboleta angélica, que voa à justiça sem anteparos?
A pergunta passa de segunda para primeira pessoa no meio dela: somos vermes. No segundo tempo, o orgulho fala pela boca de quem o praticou. Omberto, filho de um grande toscano, diz que o sangue antigo e as obras gentis de seus maiores o fizeram tão arrogante que teve todo homem em desprezo e morreu por isso:
L’antico sangue e l’opere leggiadre / d’i miei maggior mi fer sì arrogante, / che, non pensando a la comune madre, / ogn’ uomo ebbi in despetto tanto avante, / ch’io ne mori’, come i Sanesi sanno, / e sallo in Campagnatico ogne fante., o sangue antigo e as obras gentis de meus maiores me fizeram tão arrogante que, sem pensar na mãe comum, tive todo homem em tamanho desprezo que morri por isso, como os sieneses sabem, e o sabe em Campagnatico toda criança.
Oderisi, o miniaturista, confessa que não teria sido tão cortês com o rival enquanto vivia, e que só está ali porque, podendo pecar, se voltou a Deus:
Ben non sare’ io stato sì cortese / mentre ch’io vissi, per lo gran disio / de l’eccellenza ove mio core intese. / Di tal superbia qui si paga il fio; / e ancor non sarei qui, se non fosse / che, possendo peccar, mi volsi a Dio., eu não teria sido tão cortês enquanto vivi, pelo grande desejo de excelência a que meu coração se voltava. Paga-se aqui o preço de tal soberba; e ainda não estaria aqui, se não fosse que, podendo pecar, me voltei para Deus.
Provenzano Salvani, que mandava em Siena, é o contrário disso: foi poupado da espera por ter se plantado no Campo e tremido em todas as veias para resgatar o amigo. O terceiro tempo é o do chão. O Inferno punia a soberba como identidade, e aqui ela é hábito que o peso, a curvatura e a vista dobrada vão desfazendo. O chão da cornija começa pelo mais alto que caiu:
Vedea colui che fu nobil creato / più ch’altra creatura, giù dal cielo / folgoreggiando scender, da l’un lato., eu via aquele que foi criado mais nobre que qualquer outra criatura descer do céu, fulgurando, de um lado.
e o poeta vira a ironia contra os vivos, com a ordem de continuarem de rosto altivo, desde que não olhem para baixo:
Or superbite, e via col viso altero, / figliuoli d’Eva, e non chinate il volto / sì che veggiate il vostro mal sentero!, agora ensoberbecei-vos, e ide de rosto altivo, filhos de Eva, e não abaixeis o rosto para que não vejais o vosso mau caminho!
O tema fecha com o anjo que, em vez de repreender, pergunta, e a pergunta é por que gente nascida para voar cai com tão pouco vento:
A questo invito vegnon molto radi: / o gente umana, per volar sù nata, / perché a poco vento così cadi?»., a este convite vêm muito poucos: ó gente humana, nascida para voar para o alto, por que cais com tão pouco vento?
O orgulho tem ainda um lugar fora da cornija. Na doutrina do amor, é o primeiro dos três modos de amar o mal do próximo, ao lado da inveja e da ira, os que os três giros de baixo purgam.
Resta, se dividendo bene stimo, / che ’l mal che s’ama è del prossimo; ed esso / amor nasce in tre modi in vostro limo, resta, se bem avalio dividindo, que o mal que se ama é o do próximo; e esse amor nasce de três modos no vosso barro.
Quem o encarna
Dante é quem mede o orgulho em si, e o diz a Oderisi com uma frase sobre inchaço. Lúcifer é o mais alto que caiu, no chão do canto XII. Virgílio é o guia que o manda olhar para baixo, e que sorri quando Dante descobre o primeiro P apagado.
Onde aparece
- canto IX: O anjo da porta escreve sete P na testa de Dante, um por pecado, e o primeiro P que se apaga é o do fim da cornija que se abre depois da porta, a da soberba.
- canto X: Dante lê na parede de mármore a Anunciação, a dança de Davi e a justiça de Trajano, e o poeta repreende os cristãos soberbos que confiam nos passos para trás.
- canto XI: Omberto e Oderisi confessam a soberba, um pela linhagem e outro pela arte, e Oderisi ensina que a fama é um sopro de vento que muda de nome.
- canto XII: Virgílio manda Dante olhar o chão de exemplos de soberba punida, de Lúcifer a Troia, e, depois que o anjo lhe bate com as asas na testa, Dante descobre com os dedos que lhe restam seis P.
- canto XIII: Dante responde a Sapia que sua pena de inveja será curta e que o medo que o suspende é o do tormento de baixo, a cornija da soberba.
- canto XVII: Virgílio ensina que a soberba, a inveja e a ira são os três modos do amor ao mal do próximo, e que cada um se chora nos giros de baixo.
Onde as leituras divergem
O inchaço de Dante, no canto XI, aguenta duas leituras. Na primeira, é formalidade de quem agradece a um mestre. Na segunda, é confissão de que o aviso lhe diz respeito, e o canto XIII a reforça quando ele diz que teme o peso de baixo. O texto não diz de quem é o tumor.
Omberto trata a soberba como herança: o sangue e as obras dos ancestrais o fizeram esquecer a mãe comum. Duas leituras: confissão de quem já não se orgulha da linhagem, ou ainda o gosto de ser conhecido por ela, porque diz o pai, o nome e o lugar de morte como quem se apresenta. O poema deixa as duas.