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A serpente do vale dos príncipes

O que é

No fim do dia, as almas do vale florido do Antepurgatório se levantam para cantar, e à hora em que a noite se aproxima uma serpente entra pelo único lado desprotegido da pequena vala. Vem entre a erva e as flores, voltando a cabeça de vez em quando e lambendo o dorso como animal que se alisa. Sordello puxa Virgílio para si e a aponta como o nosso adversário, diante de Dante, e o poema acrescenta que talvez seja aquela que deu a Eva o alimento amargo. Dois anjos descem do alto, de vestes verdes como folhas recém-nascidas e penas verdes agitadas atrás, com duas espadas flamejantes que não têm ponta. Um se detém acima do peregrino e o outro desce à margem oposta, de modo que a gente fica contida no meio. A serpente foge ao ouvir o ar fender-se nas asas verdes, e os anjos voltam iguais às suas posições. Sordello explica que ambos vêm do seio de Maria, para guarda do vale.

Onde aparece

A cena está no canto VIII do Purgatório, mas é preparada no canto VII do Purgatório, em que Sordello traça no chão uma linha e diz o que a noite faz ao querer de quem sobe:

E ’l buon Sordello in terra fregò ’l dito, / dicendo: «Vedi? sola questa riga / non varcheresti dopo ’l sol partito: / non però ch’altra cosa desse briga, / che la notturna tenebra, ad ir suso; / quella col nonpoder la voglia intriga, vês? só esta linha não passarias depois que o sol partiu: não porque outra coisa desse empecilho a ir acima, senão a treva noturna; ela, com o não poder, embaraça a vontade.
Cantos V a VIII: Os que se arrependeram tarde

O vale em si é descrito no canto VII do Purgatório, com as almas dos príncipes sentadas sobre a relva, e a hora do canto, o Te lucis ante, é a que prepara o perigo. Entre a hora e a serpente, o poeta se volta ao leitor:

Aguzza qui, lettor, ben li occhi al vero, / ché ’l velo è ora ben tanto sottile, / certo che ’l trapassar dentro è leggero, aguça aqui, leitor, bem os olhos para o verdadeiro, pois o véu agora é de fato tão fino que atravessá-lo é certamente fácil.
Cantos V a VIII: Os que se arrependeram tarde

Dante confessa o que não viu no meio do movimento mais rápido do canto:

Io non vidi, e però dicer non posso, / come mosser li astor celestïali; / ma vidi bene e l’uno e l’altro mosso, eu não vi, e por isso dizer não posso, como se moveram os açores celestes; mas vi bem um e outro em movimento.
Cantos V a VIII: Os que se arrependeram tarde

O que significa

A serpente é a tentação que reaparece à hora em que a vontade é mais fraca, e o vale florido é o lugar em que as almas esperam, protegidas, mas não por si. A tradição a identifica com a serpente do Éden, e o texto a diz dubitativamente, talvez a que deu a Eva o alimento amargo. Os anjos de espadas sem ponta são a defesa que o lugar tem: guardam o vale, não matam a serpente, e a afugentam pelo som das asas.

A cena mostra o limite do lugar. Há defesa, mas a vigília cabe aos que esperam, e o canto começa com um sino que parece chorar o dia que morre e uma alma que ergue as mãos e canta um hino. A serpente aparece quando o hino acabou. Duas leituras: a vigília é o remédio, e quem canta está seguro, ou a tentação volta justamente porque a espera é longa. O poeta, que avisa o leitor de que o véu está fino, deixa as duas.

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